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1976, Soweto, África do Sul: tanques blindados contra paus e pedras

Muito antes de Mandela derrotar o regime segregacionista, em 1994, maioria da população vivia sem direitos e era permanente humilhada pelos brancos

A Soweto que vai aos poucos apagando o regime de segregação do apartheid na África do Sul – destaque da edição atual de VEJA – se esforça para esquecer a humilhação e a quase total falta de direitos que levou à sangrenta revolta de 52 anos atrás, quando os negros da região resolveram enfrentar “com paus e pedras” o governo.

Se hoje, vinte e dois anos depois do líder Nelson Mandela libertar o país do apartheid, há leis que obrigam, por exemplo, as empresas públicas a contratarem entre seus funcionários pelo menos 80% de negros, até o fim do regime milhares deles disputavam poucas vagas ruins, nas quais tinham de se esforçar para se manter sob o risco de serem expulsos para as tribos que a minoria branca definia que era a deles, seguindo critérios arbitrários e injustos.

Em 23 de junho de 1976, VEJA apresentou os conflitos que estremeceram a região e escandalizaram o mundo sobre as condições desumanas que a maior parte dos sul-africanos viviam por causa do racismo, apresentando uma Soweto que a história não pode esquecer. Leia um trecho:

“Uma passeata de 10 000 jovens que se dirigia quarta-feira da semana passada ao ginásio Phefeni, no centro da cidade, para protestar contra a obrigatoriedade do ensino de africâner, um dos idiomas oficiais da África do Sul, foi bloqueada por 300 policiais armados. Provocados pelos jovens, os policiias rapidamente deixaram de dar tiros para o ar, passando a dirigir o fogo contra os manifestantes – e, a partir de então, o país foi envolto no maior turbilhão racial de sua história, que se transformou em revolta aberta contra o regime discriminatório do apartheid.

O conflito rapidamente tomou conta de todo o grande gueto de tal forma que, na madrugada de sábado, só ali o saldo era de pelo menos sessenta mortos, 800 feridos e 300 presos – na esmagadora maioria dos casos, negros.”

A violência contra a população foi apresentada sem a tentativa de amenizar o impacto. “Um gigantesco esquema de segurança foi mobilizado já na quarta-feira em Soweto, incluindo 1 200 policiais, veículos blindados, cães policiais e helicópteros, que enfrentaram multidões enfurecidas – e armadas, na maior parte das vezes, de paus e pedras. Naquele dia, as autoridades brancas isolaram completamente Soweto: só era permitida a entrada de policiais ou de negros munidos de comprovação de residência. Mas nem por isso o sangue deixaria de correr livremente.”

Os guardas atiraram nos diversos grupos de jovens para matar enquanto os manifestantes ateavam fogo a edifícios públicos, prédios residenciais de propriedade do governo, caminhões, ônibus – de tal forma que Soweto se transformou num imenso conjunto de ruínas fumegantes. Houve cenas especialmente chocantes: alguns policiais atiraram em crianças e um funcionário branco, depois de ser morto a pauladas, foi lançado a uma caixa de lixo.”

Os negros, apesar de maioria da população, não tinham direito a praticamente nada em Soweto, faltava tudo. “O grande gueto negro, cujo nome é uma abreviatura de Southwestern Townships (povoações do sudoeste), é a maior concentração humana de todo o sul da África e, também, um aterrador pesadelo urbano. A população se amontoa em 90 quilômetros quadrados de casas, barracos e galpões espalhados ao longo de ruas se calçamento. Suas 102 000 casas, todas de propriedade estatal, são alugadas a um preço médio de 11,50 dólares – equivalente a um quarto da renda familiar média mensal. Menos de 25 000 delas têm eletricidade, a água encanada só chega à metade das residências e apenas 15% dispõem de esgotos. As poucas lojas de Soweto, enfim, só têm permissão para vender alimentos e material de cozinha.”

Parecia ruim, mas havia lugares piores no país, como mostrou VEJA. “Mesmo assim, morar em Soweto é uma espécie de privilégio, pois os negros (cerca de 70% da população de 21 milhões da África do Sul) não têm direito de residir permanentemente numa cidade. A licença, concedida a título precário para aglomerações como Soweto, pode ser cancelada por qualquer infração menor. Nesses casos, a pessoa tem 72 horas para voltar à sua tribo natal – já que os negros sul-africanos, nascidos onde quer que seja, pertencem formalmente a uma das nove “nações” em que os brancos dividiram a população.

Conseguir a licença também não é fácil: além de ser obrigatório ter seu ‘passaporte interno’ atualizado, a pessoa deve estar trabalhando ininterruptamente há quinze anos, e no mesmo emprego há dez, para poder entrar na lista de candidatos a uma casa construída pelo governo. Nessas condições, naturalmente, é difícil esperar que a calma possa ser mantida por tempo indefinido. Como comentava na semana passada um diplomata ocidental na África do Sul. “Se o apartheid não mudar logo, todo este país será um grande Soweto rebelado.”

 

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