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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Violência e oportunismo. Ou: Os cadáveres úteis

Abaixo, vocês lêem que o governo decidiu criar uma força-tarefa para acompanhar, com o objetivo de coibir, conflitos agrários em áreas da Amazônia, que resultaram, consta, em quatro mortes em pouco menos de duas semanas. Muito bem. Afirmei que explicitaria o que há de “historicamente errado nessa história” (a repetição é proposital) e de oportunismo […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 11h49 - Publicado em 30 Maio 2011, 18h20

Abaixo, vocês lêem que o governo decidiu criar uma força-tarefa para acompanhar, com o objetivo de coibir, conflitos agrários em áreas da Amazônia, que resultaram, consta, em quatro mortes em pouco menos de duas semanas. Muito bem. Afirmei que explicitaria o que há de “historicamente errado nessa história” (a repetição é proposital) e de oportunismo vigarista. Um daqueles que vêm aqui sorver o que diz detestar resolveu protestar: “Você vai criticar até isso?” Até??? Eu critico ESPECIALMENTE isso. Estamos falando de um misto de incúria, ideologia e oportunismo. Explico direitinho.

Uma guerra de gangues rivais deixou seis pessoas mortas e quatro feridas na favela Pára Pedro, no bairro do Colégio, no Rio. Mas, considera o governo, não só está tudo sob controle, como a segurança pública do Rio é tida como exemplo a ser seguido por outros estados — o que é uma piada de mau gosto, contada, diga-se, com o auxílio da imprensa carioca, com algumas exceções.

“Olhem o Reinaldo misturando as coisas; os mortos do Acre e do Pará eram sindicalistas; os do Rio eram só traficantes em guerra”.
Certo! Voltamos à tese dos mortos com e sem pedigree.  Quando tomba um “companheiro”, o estado democrático está ameaçado; quando milhares são assassinados Brasil afora, isso faz parte da paisagem. Quatro companheiros mortos mobilizaram, atenção, SEIS MINISTÉRIOS, ALÉM DA POLÍCIA FEDERAL: Justiça, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Direitos Humanos, Secretaria-Geral da Presidência e Gabinete da Segurança Institucional: 1,5 ministério por defunto! 50 mil não mobilizam ninguém.

Não estou contra a ação do governo, não. Só quero saber por que 50 mil homens comuns não valem quatro companheiros. Se alguém tiver uma boa resposta, é só mandar pra cá.

Questão histórica
Há áreas do Brasil que são, literalmente, terra de ninguém, onde o estado deveria estar permanentemente presente. E não está. Sucessivos governos, especialmente os petistas, têm delegado o controle dessas regiões a militantes sindicais e ONGs, que passam a atuar em lugar do estado, como se fossem mesmo o poder local. E conflitos têm sido resolvidos de trabuco na mão — atenção!, os dois lados estão armados: tanto os “preservacionistas” como os madeireiros.

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O irmão de José Cláudio Ribeiro da Silva, o “líder extrativista” morto no Pará, havia assassinado um adversário, também assentado, o “Pelado”. José Cláudio estava junto, igualmente armado. O assassino está solto. O inquérito foi aberto pela Polícia de Ana Júlia Carepa mais de um ano depois. Não se fez alarde. A morte nem sequer foi notícia. “Pelado” não servia de mártir, não é mesmo?

O governo do PT e todos esses ministérios que se juntam agora precisam entender que seus líderes sindicais e suas ONGs não têm força de governo, não! É preciso parar de terceirizar a administração aos companheiros e manter, nas áreas de potencial conflito, uma força permanente de vigilância. O estardalhaço de agora é oportunismo.

Tramóia vigarista
Chamo a atenção dos leitores para uma tramóia e uma trama vigarista que se está tecendo. Nos bastidores do governo — E, O QUE É LAMENTÁVEL, NO NOTICIÁRIO TAMBÉM —, estão tentando associar essas mortes ao debate no novo Código Florestal, como se uma coisa estivesse ligada à outra; como se o novo texto facilitasse a ação dos madeireiros e dificultasse o nobre trabalho de vigilância da mata, feita pelos “companheiros” da floresta. Uma ova! Qualquer desmatamento ilegal feito depois de julho de 2008 jamais ensejaria qualquer forma de negociação. Mais ainda: madeireiro ilegal não é produtor rural, grande ou pequeno.

Na Câmara, durante a votação do código, a morte do “líder extrativista” foi usada como argumento contra o novo texto. É coisa de vigaristas. Agora, o governo faz uma megamobilização como a anunciar a conjuração das forças do atraso contra, como disse Gilberto Carvalho, “os movimentos sociais”. Se é assim, então os “movimentos sociais” mataram o “Pelado”, certo? O que se fará contra eles?

Os estúpidos não lerão este trecho e farão de conta que ele não foi escrito. Tudo bem! Escrevo para bípedes que não têm o corpo coberto de pêlos ou penas, não pra eles. Sim, o governo tem de se mobilizar para tentar impedir que mais mortes aconteçam e para apurar responsabilidades. Mas precisa tomar uma medida permanente para coibir a violência nessas regiões — e no resto do Brasil. E um passo importante é reconhecer que ONGs e militantes políticos não substituem o Estado — tampouco têm poder de polícia.

O resto é oportunismo com cadáveres.

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