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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Um texto realmente surpreendente na Folha…

Por falar em segurança pública e afins (post abaixo), Vinicius Mota escreveu um texto inteligente na Folha desta segunda, intitulado “A miséria da sociologia”. Não! A gente não é da mesma igreja nem da mesma enfermaria (metáfora, petralhas! Metáforas…). Acho até que já o critiquei aqui. Não estou certo, mas é possível. Já critiquei tanta […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 10h56 - Publicado em 29 ago 2011, 23h26

Por falar em segurança pública e afins (post abaixo), Vinicius Mota escreveu um texto inteligente na Folha desta segunda, intitulado “A miséria da sociologia”. Não! A gente não é da mesma igreja nem da mesma enfermaria (metáfora, petralhas! Metáforas…). Acho até que já o critiquei aqui. Não estou certo, mas é possível. Já critiquei tanta gente e me criticam tanto que não faço a contabilidade. A vida fica melhor assim, não é? Chato é o silêncio dos cemitérios ou o coro dos que concordam sempre e patrulham a divergência,  como se dissentir fosse um crime. A patrulha esquerdopata é tal que Mota certamente preferiria que eu não elogiasse o seu texto. Mas ele é grandinho. Sabe se defender, hehe. Vamos a seu artigo. Volto em seguida.

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Foi majoritária, como apontou a ombudsman Suzana Singer, a manifestação de leitores da Folha no papel e na internet de apoio à polícia, por conta de reportagens que traziam indícios de abuso de violência de PMs paulistas.

O teor de muitas mensagens tocava no lugar-comum de que bandidos não merecem salvaguardas legais. Estariam justificadas ações como a emboscada e a morte de assaltantes de caixas eletrônicos.

Ondas de manifestações de leitores, sobretudo na internet, podem induzir ao engano. O meio facilita a mobilização de pequenas correntes de opinião, que acabam ganhando visibilidade desproporcional.

Mas há reiteradas provas de que a opinião pública, mesmo em fatia mais instruída representada pelo leitorado deste jornal, não mais engole acriticamente a cantilena dos direitos humanos. Talvez porque defensores dos direitos humanos se mantenham atados a preconceitos teóricos descolados da realidade.

O primeiro deles encara o crime como um fenômeno preponderantemente social, e não individual. Se alguém delinquiu, em especial se for pobre, é porque um feixe de determinações sociais, econômicas e culturais o levou a esse ato. Antes de tornar-se algoz, foi vítima.

A responsabilidade individual deve ser relativizada, de acordo com esse esquema ideológico. Já se o autor do crime pertence à chamada “elite branca”, como no caso de atropelamentos recentes, perdeu o direito ao atenuante “social”. Responsabilização nele.

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O segundo preconceito estabelece que cadeia, polícia e Justiça criminal compõem a trinca do demônio da opressão estatal. São os operadores de um dispositivo perverso cujo objetivo é padronizar o comportamento da sociedade e reprimir revoltas latentes. Evitar a revolução social, enfim.

Se o pensamento acadêmico-ongueiro dos direitos humanos não revir seus pressupostos, vai pregar, cada vez mais, para o deserto.

Voltei
Nem Mota nem eu — ou qualquer pessoa sã — defendemos violência policial. E seu texto passa muito longe disso. Ao contrário até: tanto ele quando eu entendemos, estou certo, que todos os indivíduos têm o direito à proteção legal. Mais: acreditamos, estou convicto, que as pessoas devam ser punidas segundo as suas culpas, com base nas balizas e nos limites legais.

O que o autor aponta, e está certo, é o discurso contraproducente de certa sociologia do pé quebrado, segundo a qual as condições sociais dos indivíduos sempre explicam o ato delinqüente, a violência, a barbárie. As coisas não são assim não é porque este e aquele não queriam. Não são porque não são. A esmagadora maioria dos brasileiros é pobre; no entanto, só uma extrema minoria opta pela delinqüência. No mais das vezes, faz-se uma grande confusão entre correlação e relação de causa e efeito. Atribuir a violência à pobreza é, obviamente, desrespeitoso com os pobres. As almas caridosoas que assim procedem odeiam os pobres traduzidos em volumes nas suas estantes, mas costumam tratar os que realmente existem com solene desprezo. Esquerdistas acham que pobres estão predispostos à violência porque os consideram seres de outra natureza, com uma humanidade diferente da nossa.

Curiosamente, ou nem tanto, numa manifestação primitiva da luta de classes — do arranca-rabo de classes, isto sim! —, os “culpados” de classe média, eventualmente ricos, nunca merecem perdão. Não é raro que não se lhes dê na imprensa nem mesmo direito à defesa. Aplica-se simplesmente o manual: as ocorrências, em si, perdem importância. Os eventos são sempre narrados segundo a lógica de uma fábula, em que bichos bons  são sempre perseguidos por bichos maus. Ou é cordeiro ou se é lobo. O esquerdista de plantão é sempre Esopo…

Mota termina seu texto com uma advertência: “Se o pensamento acadêmico-ongueiro dos direitos humanos não revir seus pressupostos, vai pregar, cada vez mais, para o deserto.” E vai mesmo! E quem sai perdendo com isso? A ponderação, a verdade possível. Ricos e pobres têm de ter o direito à vontade individual; têm de ser responsabilizados por suas escolhas.

Mota escreveu um texto ousado para a Folha de S. Paulo, corajoso mesmo. Pelo menos não fez como Louis, o policial de Casablanca, que manda prender “os suspeitos de sempre”, como amiúde se faz por lá, uns com mais bibliografia, outros com menos, mas sempre com a mesma moral da historia. Mota mudou um pouco os livros de referência. Lembrou que a vida não se divide entre lobos e cordeiros.

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