Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Um post de Ricardo Setti e a PEC contra a escravidão intelectual

  Ricardo Setti, meu colega de VEJA Online, escreveu um post em seu blog em que recomenda a leitura de um texto que escrevi sobre liberdade de expressão e me dirige o melhor elogio que um jornalista pode receber de outro: afirmou que gostaria de ter sido ele o autor do artigo. Temos uma relação […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 08h54 - Publicado em 10 Maio 2012, 06h12

 

Ricardo Setti, meu colega de VEJA Online, escreveu um post em seu blog em que recomenda a leitura de um texto que escrevi sobre liberdade de expressão e me dirige o melhor elogio que um jornalista pode receber de outro: afirmou que gostaria de ter sido ele o autor do artigo. Temos uma relação amiga e cordial, a despeito, como ele mesmo destacou, de muitas divergências. Eis aí: não seria esse o sal da vida?

Espalha-se no país uma cultura da intolerância. Entende-se que uma verdade, para se firmar e se afirmar, tem de, necessariamente, sufocar as outras, como se, no campo das ideias, das ciências humanas, das escolhas ideológicas, a gente pudesse operar com instrumentos semelhantes aos da ciência. Ora, inequivocamente, a Terra gira em torno do Sol, não o contrário. Essa verdade tomou o lugar de uma mentira — ainda que a antiga convicção tenha sido parâmetro de verdade por muito tempo. Se penso no quanto ainda não sabemos…

As questões que dizem respeito à moral, à ética, à política, à ideologia são de outra natureza. Envolvem valores, crenças e escolhas individuais. O próprio Setti lembrou uma diferença clara havida entre nós em episódio recente: ele aplaudiu a decisão do STF sobre o aborto de fetos anencéfalos; eu a critiquei com dureza segundo o ponto de vista ético e jurídico. Ainda que a sua opinião coincida com a leitura de VEJA, e a minha não, nenhum de nós recebeu “orientação” para escrever isso ou aquilo sobre esse tema — ou outro qualquer.

Sei que isso surpreende militantes e militontos. Há pessoas que só entendem o mundo ordenado por um partido, por uma seita, por um grupo, sempre à espera de um comando para definir que pensamento terão a respeito disso e daquilo. Não conhecem a liberdade de se colocar diante de uma tela em branco para exercitar uma voz, a sua voz — pouco importando o alarido lá fora, a metafísica influente, a onda da hora.

Erram feio os que acham que só sei conviver com quem concorda comigo. Ao contrário. Umas poucas coisas me irritam muito mesmo, talvez além da conta — negligência, preguiça, burrice propositiva… —, mas sou, no geral, tolerante com a divergência. Mais do que isso: aprendo com ela. E, se for convencido, posso, sim, mudar de ideia.

Deixo a Setti o meu abraço. Um dia, meu amigo, eles aprendem que a liberdade é um valor universal e inegociável. Infelizmente, não existe PEC para pôr fim à escravidão intelectual.

Continua após a publicidade
Publicidade