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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Um aula de jornalismo de Luis Nassif

Luis Nassif, vocês sabem, está entre os jornalistas que não gostam de VEJA. De jeito nenhum! Mais: ele é tão pretensioso que deve acreditar que VEJA é sua inimiga, coitado! Como vocês sabem, trabalhava na Folha de S. Paulo. Aí foi demitido. Em sua trajetória fulminante e fulminada, já está tendo seus textos publicados no […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 20h03 - Publicado em 18 dez 2007, 16h12
Luis Nassif, vocês sabem, está entre os jornalistas que não gostam de VEJA. De jeito nenhum! Mais: ele é tão pretensioso que deve acreditar que VEJA é sua inimiga, coitado! Como vocês sabem, trabalhava na Folha de S. Paulo. Aí foi demitido. Em sua trajetória fulminante e fulminada, já está tendo seus textos publicados no Diário do Grande ABC, conforme informei aqui. Só coincidência? Nassif é do tipo que se entusiasma. Um leitor me manda um post de seu blog publicado no dia 8 de outubro do ano passado. Vejam que coisa absolutamente comovente. Só uma correção. Ele anotou errado o nome do objeto dos encômios. Chamou Ronan Maria PINTO de “Ronan Maria TITO”. Depois da miopia histórica, Nassif funda a surdez histórica.

Preparem-se: Nassif nos convida a entrar no maravilhoso, fascinante e sedutor mundo das empresas de ônibus. Se você é do tipo que leva pra casa aqueles saquinhos fornecidos pelas companhias aéreas, é o caso de pegar o seu. Segue o texto do homem em vermelho. É mais uma evidência de que, com efeito, ele exerce outra profissão.

A convite do Carlinhos Brickmann almocei com Ronan Maria Tito, dono de empresas de Ônibus em Santo André, que recentemente adquiriu o “Diário do Grande ABC”.

Não vou entrar na discussão sobre seu suposto envolvimento no caso Celso Daniel, no qual Ronan se diz vítima de armação de concorrentes. O que me interessava, na conversa, era saber um pouco mais sobre esse universo meio cinzento das empresas de ônibus, e dos empresários que atuam em nível municipal. Há grandes fortunas, empresas familiares enormes, e uma prática de relacionamento com o poder público um tanto diferente dos esquemas que existem em nível federal.

A história de Ronan é um roteiro para se entrar nesse mundo.

Ele nasceu em Patos de Minas 52 anos atrás. Perdeu a mãe aos quatro anos, conheceu o pai muitos anos depois. Fez apenas o curso primário. Começou a trabalhar como cobrador aos 11 anos, de uma empresa dos Gontijo – hoje em dia o maior grupo de ônibus do país.

Aos 18 anos decidiu mudar-se para Brasília. Empregou-se em uma empresa que transportava terra dos rios para as obras de Brasília. A empresa era do ainda iniciante empresário Joaquim Roriz, hoje governador do Distrito Federal.

Os motoristas ganhavam por entrega. Ronan conseguiu ganhar mais praticamente dormindo no caminhão, almoçando em um determinado trajeto em que o caminhão precisava subir uma ladeira em marcha lenta. E, na volta, seu desafio era passar na frente do ônibus que ligava as cidades, para captar alguns clientes e transportar na cabine.

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Tempos depois se candidatou a um emprego na empresa de ônibus, de propriedade de Nenê Constantino, patriarca do setor, cujos filhos criaram a Gol. Em pouco tempo Nenê descobriu sua capacidade de trabalho e o enviou para gerenciar uma companhia que adquirira no Rio de Janeiro. Deu-lhe 2% de participação. Em pouco tempo Ronan conseguiu fazer a companhia multiplicar por várias vezes a capacidade e a frota de ônibus.

O crescimento começou a incomodar a concorrência, e a empresa acabou adquirida pelos proprietários da Viação 2001 – empresa que vinha a pleno vapor, recentemente tendo adquirido a Cometa, mas cujo proprietário morreu meses atrás, de um acidente besta. Sobre o Cometa escrevi tempos atrás, a partir de uma conversa com João Havelange, ex-presidente da FIFA, e que foi seu principal executivo – mas jamais um sócio com participação expressiva.

Vendida a companhia, Nenê comprou uma linha em Santo André e colocou Ronan como sócio, agora com 20%. Ronan argumentou com o patrão-sócio que não era cigano, já tinha família e não poderia pular de cidade para cidade, dependendo dos negócios de Nenê. A resposta foi dar a Ronan o direito de decidir quando e como empresas poderia ser vendidas.

Em algum tempo, a empresa saltou de 80 ônibus para 2.500, com atividades em várias cidades, incluindo Recife e interior de São Paulo. Mais à frente, Nenê quis partir para novos negócios, e Ronan acabou ficando com a parte do sócio.

Quando explodiu o caso Santo André, sua primeira atitude foi vender todas as empresas fora de Santo André, sabendo que enfrentaria dificuldades com bancos e capital de giro, em função do escândalo. Aparentemente estabilizado, Ronan luta para limpar a imagem.

Vale a penar escarafunchar mais esse mundo das empresas de ônibus. Muitas das fortunas que conseguiram se constituir nessas últimas décadas, passando ao largo dos grandes grupos empresariais brasileiros, nasceram nesse universo pouco conhecido.

Voltei
Fica o convite, companheiros. Como se vê, evidencia-se, agora pela pena do próprio, mais uma diferença entre o jornalismo de VEJA e o de Nassif. A revista é fascinada pela luz das leis. Nassif, “pelo universo meio cinzento das empresas de ônibus”. Mais: o homem também deixa uma lição de coragem. Canta as glórias de “Ronan Maria Tito”, mas prefere “não entrar na discussão sobre seu suposto envolvimento no caso Celso Daniel”. Ulalá!!!

É mais uma aula do jornalismo à moda Nassif: ignore o difícil e faça apenas o que é, digamos, útil. E olhem que bater bumbo para Ronan não chega a ser tarefa muito fácil. Mas Nassif consegue. Ele é mesmo um craque, um especialista.

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