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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Trem-bala é o delírio megalômano de Dilma; em novembro de 2010, reportagem de VEJA denunciou que governo omitiu estudo provando que obra custaria o dobro

A boa notícia: o leilão do trem-bala foi adiado de novo. A má: a presidente Dilma Rousseff ainda não desistiu dessa ideia ridícula. É estupefaciente que, dada a realidade brasileira — muito especialmente os protestos de rua, organizados particularmente contra o desastre que é a mobilidade urbana no país —, ela insista nesse delírio megalômano. […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h38 - Publicado em 12 ago 2013, 19h49

A boa notícia: o leilão do trem-bala foi adiado de novo. A má: a presidente Dilma Rousseff ainda não desistiu dessa ideia ridícula. É estupefaciente que, dada a realidade brasileira — muito especialmente os protestos de rua, organizados particularmente contra o desastre que é a mobilidade urbana no país —, ela insista nesse delírio megalômano.

Está tudo errado nessa história, a começar do desembolso de dinheiro público. O Estado arcaria com 80% do custo — 10% seriam do Tesouro, e 80%, do BNDES, que acabarão sendo também… do Tesouro, como já virou rotina. Atenção! Sabem por que o leilão foi adiado de novo? Porque a iniciativa privada não comparece. Insista-se: ela foge de uma parceria em que entraria com 20% dos investimentos — e, ainda assim, com a garantia de empréstimo de dinheiro público.

Como as empreiteiras sabem ganhar dinheiro — ou não? —, há algo de profundamente errado nesse troço. E o erro principal, ouve-se a uma só voz, está na subestimação do custo total da obra: o governo fala em R$ 33 bilhões. As empreiteiras calculam que será pelo menos o dobro. Num artigo sobre o assunto, o ex-governador José Serra listou os custos que o governo esqueceu de incluir em seu orçamento (em azul):

“(…) não incluíram reservas de contingência, não levaram em conta os subsídios fiscais e subestimaram os custos das obras, como os 100 km de túneis, cujo custo foi equiparado aos urbanos. Esqueceram que os túneis para os TAVs são bem mais complexos, dada a velocidade de 340 km por hora dos trens; além disso, longe das cidades, não contam com a infra-estrutura necessária, como a rede elétrica, por exemplo. Foram ignoradas também as intervenções necessárias para o acesso às estações do trem, caríssimas e não incluídas naqueles R$ 60 bilhões. Imagine-se o preço das obras viárias para o acesso dos passageiros que fossem das zonas Sul, Leste e Oeste de São Paulo até o Campo de Marte!”

Escondendo a verdade
Em novembro de 2010, VEJA publicou uma reportagem sobre o trem-bala. A revista descobriu que o governo dispõe, sim, desde 2009, de um alentado estudo demonstrado que o projeto de Dilma custará, atenção, R$ 63,4 bilhões. Reproduzo trecho. Volto em seguida:

“Em abril de 2009 (cinco meses antes, portanto), a Sinergia e a Halcrow apresentaram ao governo um primeiro relatório econômico em que afirmavam que a obra custaria muito mais: 63,4 bilhões de reais, quase o dobro do que está sendo anunciado. É normal que, depois de entregar uma estimativa de custos, uma consultoria decida fazer um ou outro ajuste em seus números para aumentar o seu grau de precisão, mas são mudanças pontuais. Não há justificativa no universo da engenharia que faca uma obra orçada em 63,4 bilhões de reais sair, de repente, pela metade de preço. Mas, ao menos politicamente, a mudança veio a calhar: quanto mais baixo for o orçamento apresentado, mais fácil será para o governo convencer a opinião pública a aceitar a obra.”

Voltei
O governo engavetou o estudo, não o contestou e seguiu na sua loucura, sustentando um custo que se sabe falso. É de lascar! Quando as empreiteiras consideram que o valor estimado da obra é correto, estas já costumam custar quase o dobro. Imaginem agora, quando as próprias empresas acham que o valor oficial corresponde à metade do real.

As cidades brasileiras precisam e metrô. O governo federal investe pouco e mal na área. Várias regiões do Brasil precisam incrementar as ferrovias tradicionais e os trens de subúrbio. Ainda que o trem-bala custasse apenas (?) R$ 33 bilhões, e não os mais de R$ 60 bilhões, é evidente que esse dinheiro deveria ser destinado a essas urgências, que ajudariam a diminuir o sufoco nas grandes cidades.

Mas não! Dilma quer porque quer o trem-bala, sabe-se lá por quê. Não existe, atenção!, nem mesmo um estudo sobre a demanda de tal veículo, levando-se em consideração o preço da tarifa. Mas já há uma estatal funcionando, com 140 funcionários e já se torram bem uns R$ 50 milhões nessa história. Sabem como é… País rico e sem maiores urgências podem se entregar a esses luxos… A insistência nesse projeto começa a deixar o terreno da teimosia e já começa a assumir características dolosas.

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