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Suplicy e o pensamento miserável do falso bobo alegre. Ou: Estão tentando transformar Yoani em bonequinha de louça da ditadura cubana. Ou ainda: Um livro e sua contracapa mentirosa

Caros, vai o meu texto, acho, mais importante sobre Yoani Sánchez. Aqui, deixo claro que há gente tentando transformá-la numa espécie de interface entre a ditadura dos Castro e um regime quase democrático. A contracapa que fizeram para um de seus livros é indecorosa, beirando a indignidade. Vamos lá. * Uma das expressões mais felizes […]

Caros, vai o meu texto, acho, mais importante sobre Yoani Sánchez. Aqui, deixo claro que há gente tentando transformá-la numa espécie de interface entre a ditadura dos Castro e um regime quase democrático. A contracapa que fizeram para um de seus livros é indecorosa, beirando a indignidade. Vamos lá.

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Uma das expressões mais felizes criadas nos últimos tempos, e que se popularizou, é “vergonha alheia”. Sintetiza um sentimento que, antes, requeria palavras demais, não é? Como expressar aquela sensação de constrangimento caso estivéssemos na pele do outro? Embora a situação vexaminosa não nos atinja, é como se atingisse; chegamos  a experimentar um desconforto até físico. A vergonha alheia é a câmera subjetiva da… estupidez alheia. Pois é… Nas vezes em que fui levado a me sentir na pele do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), veio-me isto: desconforto, vontade de que a terra se abrisse aos meus pés, desejo de acordar de um pesadelo. Em uma palavra: VERGONHA. Em duas palavras: VERGONHA ALHEIA. Escrevi aqui dois posts sobre o pensamento detestável, asqueroso mesmo, do petista Breno Altman. Se, um dia, o seu partido exercer o poder como ele quer que seja exercido, não tenho dúvida de que ele mandará a mim e a outros tantos que pensam como eu para o paredão. Se os tempos fossem avessos a execuções sumárias (“porque pega mal”), ele nos enviaria para um paredão moral, condenando-nos ao silêncio. No regime que defendemos e com o qual ele quer acabar, Breno pode falar; no regime que ele defende, nós seríamos eliminados da história. Breno considera, em suma, que erradicar o adversário é um etapa superior de civilização. Ele tem alguma qualidade? Não chega a ser qualidade, mas uma característica menos detestável: NÃO É UM FARSANTE! Breno odeia a democracia e não esconde isso de ninguém. Breno acha legítimo calar o argumento com o berreiro — ele pratica berreiro também, como deixou claro na Globo News — e não disfarça. Ninguém tem o direito de dizer que não entendeu direito o que ele pretende. Qualquer um entende. Ele não doura a pílula. Mas e Suplicy?

A sociedade que este senhor tem na cabeça — se devidamente identificada, naquela, tudo indica, espessa bruma em que os neurônios lutam desesperadamente por uma sinapse — não é diferente da de Breno, não! Suplicy só é um pouquinho mais bondoso e pio. Dá ao acusado o direito de apresentar provas do que não fez… Ele estava naquele evento de Feira de Santana, em que acanalha fascista proibiu Yoani de falar. Nesta quarta, comportou-se como seu interrogador, na ida da blogueira cubana ao Congresso brasileiro, e, caso não se altere a agenda, tem, na sexta, um bate-papo com ela na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis. Gilberto Dimenstein é o outro interlocutor.

Está havendo um esforço — talvez seja da Editora Contexto (já digo a razão da minha desconfiança) — para transformar Yoani Sánchez numa espécie de boneca de louça da interface entre o regime assassino dos irmãos Castro e uma nova realidade, que seria, assim,  o regime assassino dos irmãos Castro, mas com rosto mais humano. Há gente atuando para demonstrar que, se ela está aqui, aquele troço lá não é assim tão mau…

Qual era a agenda em Feira de Santana? A exibição de um filme que mostra as agressões à liberdade de expressão em regimes tão diferentes como o de Cuba e o de Honduras. Os vagabundos impediram a realização do evento. Mas lá estava Suplicy para “negociar”, então, uma mudança da agenda: em vez do filme, um debate. Entenderam? A canalha, então, já havia vencido, mas cumpria dar uma aparência de solução de consenso ao que consenso não era porque uma imposição dos brucutus. Na TV, o senador apareceu com as bochechas trêmulas, aparentemente enfrentando os seus aliados do PT e do PCdoB. Vale dizer: foi preciso apelar a um deles para proteger Yoani da fúria… deles. Naquele dia, comprovada a impossibilidade de realizar o previsto, a única saída decente era o cancelamento do evento. Até porque não houve debate. A blogueira não conseguiu falar. Aqueles dinossauros a soldo que estavam lá não deixaram.

No Congresso
No Congresso, nesta quarta, o senador petista continuou na sua saga indecente. Reproduzo trecho da reportagem da VEJA.com (em azul):

Dois parlamentares, nada interessados em saber as condições de vida de Yoani em Cuba, trataram de interrogar a convidada: Eduardo Suplicy pediu que ela pedisse o fim do embargo econômico à ilha e defendesse o fim da prisão americana de Guantánamo, em solo cubano. Glauber Braga (PSB-RJ) foi mais longe: perguntou se ela defendia a libertação de cinco cubanos presos nos Estados Unidos por espionagem. E ainda quis saber quem financia as viagens que a blogueira tem feito.
De forma tranquila, Yoani respondeu: defende o fim do embargo e a libertação dos presos para que o regime cubano tenha menos razões para justificar o próprio fracasso e desviar o foco da falta de democracia na ilha. Disse que é contra as violações supostamente praticadas em Guantánamo. E ainda explicou, detalhadamente, de onde vieram os recursos de suas viagens – de doações espontâneas e entidades como a Anistia Internacional
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Suplicy posa de amigo de Yoani, de homem tolerante, para, de fato, exercer uma intolerância em certa medida mais ferina e inteligente do aquela de Breno Altman. Exige que a blogueira se ajoelhe no milho e faça, indiretamente, juras de amor a seu país — como se isso fosse necessário — para que tenha, então, legitimidade para falar. Essa tem sido a sua prática constante. Ora, é evidente que Yoani é contra o embargo a Cuba (embora ele seja irrelevante); é evidente que ela só pode falar contra a permanência de prisioneiros em Guantánamo — e até mesmo contra a existência da base americana. Qualquer coisa que sugerisse o contrário serviria de pretexto para ser considerada agente da CIA.

Este senhor é um dos agentes da degradação dos direitos democráticos. Atenção! Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável ao embargo; Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável à existência da base de Guantánamo, com seus respectivos prisioneiros; Yoani teria o direito de falar o que bem entendesse, ainda que fosse favorável à prisão dos cinco cubanos nos EUA.

Suplicy está tentando demonstrar aos brucutus de esquerda que a cubana não é assim tão má; que ela não é uma “conservadora”, que ela não é “uma direitista”, que ela não é “uma reacionária”. EU TAMBÉM ACHO QUE ELA NÃO É NADA DISSO, MAS É UM ABSURDO QUE SE EXIJA DELA QUE PROVE NÃO SER NADA DISSO.  ESPECIALMENTE QUANDO ELA TEM O DIREITO DE SER TUDO ISSO, SE QUISER, MANTENDO O DIREITO À PALAVRA! A blogueira cubana foi alvo, há algum tempo, de um delinquente francês disfarçado de jornalista chamado Salim Lamrani. Ele a entrevistou — na verdade, mais a ofendeu do que outra coisa — para demonstrar que é, sim, uma agente da CIA ou  algo assim. Suplicy já cobrou de Yoani em outras circunstâncias que demonstrasse que aquele bandido intelectual estava errado, que se explicasse. EM SUMA, SUPLICY ESTÁ COLADO A YOANI PARA, NA PRÁTICA, FAZER A DEFESA DO REGIME CUBANO.

E Gilberto Dimenstein na conversa? Qual é a sua ligação com essa história toda? Quem o escalou? A Editora Contexto? Não! Não estava nem estou me oferecendo — antes que as Parcas da desqualificação comecem a vomitar… Trata-se de mais uma tentativa para, digamos, enfraquecer e edulcorar a imagem de Yoani como uma adversária do regime. O chefe do onguismo politicamente correto — divulgador, em larga medida, da mesma visão de mundo que hostiliza Yoani — vai conversar com ela por quê? Por que não um Demétrio Magnoli, por exemplo? Não, não estou sugerindo alguém da minha “igreja de pensamento”. Em matéria de pensamento, minha religião tem um só fiel: eu! Em matéria de política internacional, mais discordamos do que concordamos — aliás, é bem provável que só discordemos. Eu defendo, sim, o embargo a Cuba, ainda que ele seja irrelevante (é provável, não me lembro, que Demétrio seja contra). No que diz respeito à política americana, somos água e óleo; ao Oriente Médio e à Primavera Árabe, idem. Quando o assunto é Obama, então, a divergência vai ainda mais longe. Mas Demétrio é da área e foi uma das primeiras pessoas no Brasil a se interessar pela atuação de Yoani. O livro “De Cuba, com Carinho”, tem um posfácio de sua autoria, de 37 páginas. O que pretendem? Que Suplicy continue a fazer testes ideológicos com a blogueira e que Dimenstein a trate como uma espécie de ciclista das liberdades democráticas? Tenham paciência! “Olhem o Reinaldo, que reclama da intolerância, sendo intolerante.” Não! Olhem o Reinaldo escrevendo o que pensa, sem gritar, sem xingar, sem impedir ninguém de falar. Eu não vou comparecer à Livraria Saraiva para dirigir impropérios contra Suplicy e Dimenstein.

Yoani: cronista do cotidiano e guia turística?
Pode não parecer, mas há, então, uma patrulha original, prévia, que já buscou enquadrar a imagem de Yoani num determinado figurino para não ofender os “companheiros cubanos”. E por que acho que a Editora Contexto está nessa? Vejam esta imagem. É a contracapa do livro “De Cuba, com carinho”. Contracapas são escritas sempre pelos editores, nunca pelos autores. Vejam o que vai ali. Volto em seguida.

 

Por que destacar que ela é “alguém que não quer que conquistas obtidas nas últimas décadas sejam jogadas fora”??? Ora, e por que quereria? Quem seria idiota o bastante para dizer: “Ah, isso que temos aqui é bom, mas, como queremos mudar o regime, então vamos dizer que é ruim”? Yoani não é a petista de sinal trocado de Cuba. Seja lá a que conquista o texto queria se referir, trata-se de uma boçalidade. Não é a pior. Na última linha do primeiro parágrafo, a Contexto manda bala: “Mas ela não escreve sobre política”.

Não??? Dispenso-me de repetir o clichê de que tudo é política. Não preciso ser genérico assim. Reproduzo páginas de seu livro para que vocês avaliem se Yoani é, assim, mera cronista do cotidiano ou, sei lá, guia turística. Até onde acompanhei, a Contexto se encarregou de inventar uma Yoani mais palatável ao regime cubano e às esquerdas xexelentas brasileiras, embora isso tenha resultado inútil. Os brucutus não se interessam por matizes. Abaixo, reproduzo uma página do seu livro (imagem logo abaixo) e uma do posfácio de Magnoli (a seguinte). Volto para encerrar.

Voltei
Se a Contexto estiver certa e se isso não for política, é o quê? Culinária? Turismo? Um tratado sobre metafísica? A vinda da blogueira cubana ao Brasil está sendo útil para demonstrar também a nossa miséria intelectual. Em Cuba, ao menos, há quem resista à ditadura — e Yoani é uma dessas pessoas. No Brasil, embora as leis estejam aí para assegurar o direito à divergência, cada vez mais se procura a ditadura do consenso.

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