Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Simonal – A esquerda não anistia nem perdoa. Se preciso, mata outra vez

Muitos xingamentos, como não poderia deixar de ser, por conta das observações que fiz aqui sobre os textos de Mário Magalhães, na Folha de domingo, que acusam Wilson Simonal de “informante” do Dops. A capa do jornal e do suplemento não dão margem para dúvidas: “informante”. O que tenho a dizer? – os documentos a […]

Muitos xingamentos, como não poderia deixar de ser, por conta das observações que fiz aqui sobre os textos de Mário Magalhães, na Folha de domingo, que acusam Wilson Simonal de “informante” do Dops. A capa do jornal e do suplemento não dão margem para dúvidas: “informante”. O que tenho a dizer?
– os documentos a que Magalhães alude não provam coisa nenhuma; rigorosamente nada!;
– Magalhães tem, sem dúvida, uma espécie de obsessão com o caso, conforme demonstrarei;
– a Folha, infelizmente, vendeu como novidade o que ela mesma já havia noticiado. E o texto era do próprio Magalhães. Ele observa isso de modo um tanto oblíquo. O problema é o esforço para vender como novo o peixe velho.

Do começo. Algumas pessoas ligadas a órgãos de segurança diziam que Simonal era informante — o que, obviamente, não quer dizer que fosse. O filme Ninguém Sabe o Duro que Dei trata largamente do caso. Ora, como é que um repórter e uma edição podem tascar em alguém a pecha de “informante”, de dedo-duro, sem dizer, afinal de contas, quem foi que ele dedurou? Qual é o caso, Mário Magalhães? Os fontes ligadas à ditadura nunca serviram de referência para desabonar esquerdistas, mas servem quando se trata de demonizar um artista tido como “direitista”?

Quem Simonal dedurou? Eu quero saber. Ele era informante do meio musical? Rolo de rir agora ou deixo para quando Magalhães apresentar as provas? O que foi que Simonal denunciou?
– alguma metáfora revolucionária de Chico Buarque?;
– alguma ousadia comportamental de Caetano Veloso?;
– alguma marchinha secreta e cafona de Geraldo Vandré?

Ora, um informante informa, Santo Deus! Informa o quê? Sei lá. Tem de informar alguma coisa que seja do interesse do regime, não é? Cadê a informação nesse caso? Inexiste.

Paixões retrógradas
Sei não… Parece que há algum surto de paixões passadistas contaminando um ou outro no jornal. Ou o velho não seria vendido como novo. Por quê? Em 2008, então ombudsman da Folha, Magalhães já havia enroscado com reportagem aludindo ao filme. Escreveu:
“Boa notícia: quase oito anos depois da morte de Wilson Simonal, o grande cantor começa a ser resgatado do ostracismo. O documentário “Ninguém Sabe o Duro que Dei” é lançado no festival de cinema É Tudo Verdade.
Ignoro como o filme narra a suspeita de que Simonal fosse informante da ditadura militar. Mas é possível identificar no jornalismo disposição para recontar o passado omitindo o mais relevante, os fatos.
(…)
A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops.
Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era “colaborador das Forças Armadas e informante do Dops”. Em 1976, acórdão do Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de “colaborador do Dops”.
(…)
Nesta semana, a Folha tropeçou ao noticiar o documentário: não lembrou as provas judiciais reveladas por ela própria em 2000 (transparência: o autor da antiga reportagem foi o hoje ombudsman).
(…) Íntegra do texto
Aqui

Texto de 2000
Pois é… Aí fui buscar o texto de 2000. Acreditem: é rigorosamente o que Magalhães publicou agora. Já alude ao processo 3.540/72 e fala dos mesmos depoimentos. A novidade de agora? Ah, teve acesso à integra e a um relatório interno do DOPS que diz mais do mesmo. Ocorre que eles não trazem nada que não tenha sido informado há nove anos, quando morreu o cantor: depoimento de pessoas ligadas aos órgãos de segurança dizendo que Simonal era “informante”. E continua a não haver um miserável indício de que fosse verdade. No link que publico acima, está também a íntegra desse texto.

Sabem o que é mais curioso? Em 2000, o próprio Magalhães parecia mais cético. Observou com correção:
Independentemente do que tenha feito, dificilmente uma eventual delação sua prejudicaria seriamente algum artista.
Ele não frequentava o círculo da música onde a oposição ao regime militar tinha um dos seus mais fortes pilares no mundo cultural.”

Três páginas
Não há um miserável fato novo, em relação a nove anos passados, que justifique as três páginas vendidas como coisa inédita. Reitero: o processo 3.540/72 já estava naquele texto. As personagens são as mesmas. A única coisa que não se tem é a prova que sustenta a acusação: “Informante”.

Outro lado do mesmo
A terceira página da reportagem deveria ser o contraponto, a contestação, à tese abraçada pela edição do suplemento Mais! e da primeira página. Começa assim:
“O delegado aposentado Zonildo Castello Branco afirma que Wilson Simonal não era informante do Departamento da Ordem Política e Social, apesar de um relatório interno do Dops sustentar o contrário”.

Entenderam? Que “outro lado”? O delegado acabou de ser caracterizado como alguém que luta contra os fatos. E, quando se trata de manter na cova o “direitista” Simonal, basta um relatório do DOPS. Como também basta um relatório do DOPS para tornar qualquer esquerdista um herói.

Um outro textinho demonstra o quanto o repórter foi esforçado para falar com os filhos do cantor, que, no entanto, recusaram-se a dar entrevista. Pouco importa o que tivessem falado, não teriam impedido a pecha: “Informante” — mesmo sem a mais miserável prova. É… Não se pode condenar a vítima porque não ajuda o algoz a lhe pôr a corda no pescoço.

Assistam ao filme Wilson Simonal – Ninguém Sabe O Duro que Dei. Agora, ele faz ainda mais sentido do que antes.

Tivesse Simonal pertencido à VAR-Palmares ou ao MR-8, assaltado bancos, feito seqüestros e matado alguns, sua família estaria agora recebendo pensão e indenização. Se tivesse sobrevivido, seria ministro de Estado. E tocar no seu passado seria de extremo mau gosto.

A esquerda não anistia nem perdoa. Se preciso, mata outra vez!

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s