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Será LULA X MORO versão nativa de “O Homem que matou o facínora”?

É bom que os dois se lembrem desta frase: “Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira fato, publique-se a lenda”

Se o Superior Tribunal de Justiça (STJ) não atender a pelo menos um dos três pedidos de habeas corpus impetrados pela defesa de Lula, o ex-presidente depõe logo mais ao juiz Sergio Moro, na 13ª Vara Federal de Curitiba. Em certas páginas da Internet de esquerdistas e direitistas, parece ser esse o confronto do século. Chega a ser ridículo. Já escrevi aqui que há gente querendo brincar de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha. Ou, quem sabe, de “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford.

Nesse caso, Lula encarnaria o bandidão Liberty Valance (Lee Marvin), e Moro, o limpinho e justiceiro Ransom Stoddard (James Stewart). No filme, o primeiro era um exímio pistoleiro, e o segundo não sabia nem empunhar um revólver. Mesmo assim, o coxinha desafia o rei dos mortadelas para um duelo. Acontece o improvável: o fraco Stoddard, aos olhos dos que assistem ao confronto, mata o facínora.

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Bem, não existe “spoiler” de clássico, certo? Quem realmente despachou Valance foi uma personagem de que ainda não falei: Tom Doniphon (John Wayne). Este era adversário de Stoddard apenas porque ambos amavam a mesma mulher. Era grosseiro e leal. De bom coração. Mas era um homem daquela paisagem, à qual pertencia Valance. Já Stoddard representa uma América que começa a se civilizar. Ironicamente, no entanto, o triunfo do bem se dá pela arma. E sem julgamento. Afinal, é um duelo.

Mito e realidade
É claro que os que veem as coisas pelos olhos da ficção e do mito acabam perdendo o pé da realidade. Como esquecer que, segundo o Datafolha, um improvável segundo turno entre a caça (Lula) e o caçador (Moro) resulta num empate técnico: 40% a 42%? Mais: levantamentos demonstram que Moro é o segundo candidato de parte considerável do eleitorado lulista.

Aquela cidade do Oeste americano não tinha dúvida sobre quem era quem. No Brasil dos 17 anos do século 21, como se vê, as opiniões se dividem. E o “Valance” dessa minha prefiguração lidera as intenções de voto no primeiro turno e bate todos os adversários testados no segundo, exceção feita justamente a Moro e à Marina de sempre. A diferença é pequena.

Assim, por mais que a extrema direita tente forçar a mão para ver realizado o roteiro de “O Homem que Matou o Facínora”, a verdade é que, infelizmente, parte considerável do eleitorado deste grande Oeste Sem Lei em que nos tornamos passou a torcer por Valance…

Se o filme fosse mesmo esse, de resto, cumprira indagar quem seria o Tom Doniphon (John Wayne) da história. Afinal, é ele, e não Stoddard, o homem que realmente matou Liberty Valance. Aliás, o título do filme em inglês é “The Man Who Shot Liberty Valance”. Há quem diga que será Antonio Palocci, embora este não esteja, como estava Doniphon, no lado bom da história.

“Amanhã é hoje!”
Os entusiasmados do antilulismo já cansaram de ser informados que “Lula será preso amanhã”. Querem que esse amanhã seja hoje, daqui a pouco. Assim, mesmo com a arma já fora do coldre, seria surpreendido por um tiro: a decretação de sua prisão preventiva — única modalidade possível já que ele nem foi julgado ainda.

Mas sob qual pretexto? Sim, depois que Rodrigo Janot, pai de uma advogada da OAS e da Odebrecht (Braskem), peticionou o impedimento de Gilmar Mendes porque a mulher deste trabalha num escritório que tem Eike Batista como cliente na área civil (ela não é advogada do empresário), tudo é possível; tudo é permitido.

Para disparar a arma e mandar prender Lula, Moro teria de ter ao menos uma de quatro razões, previstas no Artigo 312 do Código de Processo Penal: risco à ordem pública ou à ordem econômica (cometimento de novos crimes no presente), à instrução criminal (alterar provas ou intimidar testemunhas) ou ao cumprimento da lei penal. Salvo fato novo, que se revelará logo mais se houver o duelo, não está dado nenhum deles.

Riscos
Pois é… Moro não está blindado por um Tom Doniphon, certo? Mais: Lula não é exatamente um Valance, como já vimos, no quesito impopularidade. Mas saca rápido. Se o juiz não conseguir constranger o petista com uma evidência fática inequívoca, ficará exposto ao discurso daquele que ainda é, mesmo alquebrado, um dos políticos mais sagazes do país. Falta de cultura e de lustro é outra coisa.

Sim, haverá milhares de petistas encenando a pantomima da resistência. Se vocês notarem, o comportamento do PT apenas emula com o do Ministério Público e do próprio Moro. Ou não foram estes a insistir, com impressionante desfaçatez, que só a mobilização popular salva a Lava Jato? Ora, então por que não uma mobilização popular para salvar Lula?

Tolice final
Nem que o PT tivesse combinado com a Prefeitura de Curitiba e com a tal juíza, a coisa sairia tão redonda para o partido. Proibir o MST de armar suas barracas — desde que tudo seja devidamente ordenado, garantindo-se o direito de ir e vir — não é uma medida de segurança. Trata-se apenas de uma medida autoritária.  Bem, eu sou aquele que defendeu que os movimentos pró-impeachment ficassem acampados nos gramados do Congresso, certo? Eu sou por um mundo em que coxinhas e mortadelas têm direitos iguais perante a lei. Ou, se preciso, são igualmente contemplados pela tolerância.

E é evidente que uma juíza não deve expor no Facebook suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, não é? Juiz não tem de dar opinião sobre partidos e sobre políticos. Juiz tem de se ater aos autos.

Encerro assim: trata-se apenas de um depoimento, ainda que irresponsáveis de todas as colorações queiram brincar de Velho Oeste…

De todo modo, o filme deixa uma sentença para os dois litigantes; quando o próprio Stoddard pergunta se o repórter vai contar a verdade sobre quem matou o facínora, ouve deste a seguinte fras: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. Ou: “Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira fato, publique-se a lenda”.

Lula versus Moro… Quem vai piscar primeiro? Aquele que o fizer corre o risco de transformar o outro numa lenda.

Comentários
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  1. Trata-se apenas de uma medida preventiva e não autoritária!
    Trata-se apenas de uma medida preventiva e não autoritária!

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  2. Lucas Hausen

    Brilhante o seu artigo, parabéns!

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  3. Juliana Silva

    Você não tem e-mail pessoal? Precisa usar o da empresa mesmo?

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  4. Alexsandro Vieira

    Eu parto do seguinte, seria um simples depoimento na qualidade de réu e não de um rei, mas tratando-se do Rei da Banânia, tou é showmicio, e claro muito gente entra na dele, enfim.Mas sinceramente este espetáculo está mais apropriado ao filme Ninho de Cobras com Kirk Douglas e
    Henry Fonda.

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  5. ReiinaldoXXXXXXXX na cascuda!

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  6. Ivone Pinheiro Alves

    ReinaldoXXXXXXXX na cascuda!

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  7. Admar Luiz Berlatto

    “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda”. (John Ford.)
    ” O bom senso é a coisa que, no mundo, está bem mais distribuída; de fato, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não tem de forma nenhuma o costume de desejarem (ter) mais do que o tem. E nisso, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e que distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade de nossas opiniões não provem do fato de uns serem mais razoáveis do que os outros, mas unicamente do fato de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”. Descartes, Discurso do Método.

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  8. ReinaldoXXXXXXXX na cascuda xucra!

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  9. ricardo kenji

    1) “The Man Who Shot Liberty Valance” (1962) é um dos clássicos do western. Vale a pena escutar os diálogos, ver as interpretações de James Stewart, John Wayne e Lee Marvin e notar certas sutilezas, como o cacto colocado em cima do caixão, na primeira sequência do filme.
    Não creio que os leitores normais tenham visto essa película por ser “coisa de velho” e em preto e branco – pensarão que o monitor está com defeito.
    2) Já que o Lulão é frequentemente comparado a Al Capone, talvez a referência cinematográfica “menos clássica, mas ainda clássica” seja “The Untouchables” (Os Intocáveis, 1987, de Brian de Palma, com Kevin Costner, Sean Connery e Robert de Niro).
    Para os bitolados que não raciocinam e levam tudo ao pé da letra: o Brasil de 2017 não é a Chicago dos anos 1930. O juiz Moro não é Eliot Ness e o Lulão não é Al Capone.
    3) Para os leitores mais jovens, certamente as referências televisivas para hoje são as séries “House of Cards”, com Kevin Spacey, e “The Walking Dead”.

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  10. Alberto de Araujo

    Por parte dos petistas são chanchadas da extinta Atlântida Cinematográfica. Acordam, comem e dormem política.Tudo é política. Manifestações é o gozo.Se PT fosse clube de futebol teria a torcida organizada mais violenta. São fanáticos.Com certeza os seus atletas seriam treinados contra o fair play. Juízes e auxiliares na gaveta, anulação de partida através do tapetão. Chutes nas canelas do adversário, etc. O Felipe Melo, diante deles, seria um gentleman . No mundo do futebol, o Lula é o Marco Polo Del Nero. Caso de polícia.A lava jato utiliza-se de pesticida para combater a nuvem de gafanhotos que destruíram a horta do país.Hoje é um dia, não é mais novidade, de um suspeito ser ouvido pela justiça.O midiático Lula adora luzes da ribalta,

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