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SER JUDEU E MALES ESSENCIAIS

Escrevi ontem um post  lamentando a proximidade entre Lula e Ahmadinejad e comentando a absurda resposta dada pelo companheiro quando indagado sobre a opinião de seu conviva, que nega o Holocausto. Para quem não sabe, Lula respondeu o seguinte: “Não sou obrigado a não gostar de alguém porque outros não gostam. Isso não prejudica a […]

martin_niemoller

Escrevi ontem um post  lamentando a proximidade entre Lula e Ahmadinejad e comentando a absurda resposta dada pelo companheiro quando indagado sobre a opinião de seu conviva, que nega o Holocausto. Para quem não sabe, Lula respondeu o seguinte:
“Não sou obrigado a não gostar de alguém porque outros não gostam. Isso não prejudica a relação do Estado brasileiro com o Irã porque isso não é um clube de amigos. Isso é uma relação do Estado brasileiro com o Estado iraniano”.

Ahmadinejad nega o Holocausto, e o presidente do Brasil acha que tudo se resume a gostar ou não gostar do sujeito. Afirmei, então, que essa resposta escarnece da morte de seis milhões de pessoas e concluí: “Eu sou judeu”.

O que se deu, então, foi inacreditável. Os petralhas vieram em massa para dizer que eu estava mentindo: “Azevedo não é sobrenome judeu, seu mentiroso”. Ai, ai… Vou repetir: mais, sei lá, dois períodos dessa turma no poder, e os macacos darão um golpe de estado do Brasil. Afinal, eles tem quatro polegares opositores… Trata-se de uma verdadeira horda à solta. Eles não entendem nada.

Não, não sou judeu. Sou até bem católico, como é notório. Eu estava me referindo àquele famosíssimo texto ora atribuído a Brecht, ora a Maiakovski, ora a sei lá quem, mas que é de autoria de Niemöller (foto):

“Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”

O alemão Martin Niemöller (1892-1984) era um teólogo protestante e teve uma trajetória curiosa. Chegou a flertar com o nazismo nos primeiros tempos. Quando, vamos dizer, já havia ficado claro quem era Hitler e o que queria, ainda ambicionou incutir-lhe um tanto de sensatez. Até que percebeu do que se tratava e migrou para a oposição aberta. Foi processado em 1938 e enviado para o campo de concentração de Dachau, onde permanece até o fim da guerra. Correto estava o Niemöller do texto acima, não o que sonhou com as mãos estendidas para o ditador facinoroso.

O texto e a vida de Niemöller são interessantes porque servem de alerta: não adianta tentar mudar o que é essencialmente mau. Não adianta tentar melhorar pessoas, idéias ou grupos que não compreendem o núcleo mesmo da democracia, da tolerância, do regime democrático, ainda que essas pessoas, essas idéias e esses grupos procurem se ancorar numa maioria ou vistam a máscara da tolerância. O grande diferencial da democracia está justamente na garantia que oferece às minorias, sejam elas permanentes ou circunstanciais. Cedo ou tarde, aquele que não incorpora tal princípio como um valor acaba revelando sua face, sua real natureza.

Na versão oficial, Lula se aproxima de Ahmadinejad porque isolá-lo seria pior. Também é essa a desculpa dos liberais de miolo mole dos EUA quando pregam tolerância com o regime iraniano. Tem sido essa a essência da, por assim dizer, política externa deste incrível Barack Obama, mais patético a cada intervenção que faz em fóruns multilaterais. O que é essencialmente mau – e o Mal – tem de ser combatido. Só isso.

E equivocados estiveram e estão os ditos liberais brasileiros que cantam as glórias do pragmatismo do governo Lula – que, não obstante uma gestão do dia-a-dia da economia realmente nada hostil ao mercado, consolidou no país a adoração ao estatismo. O Estado voltou a ganhar músculos e, com ele, acreditem, estão adiadas – ao contrário do que parece e do que é propagandeado – as melhores chances do país.

Claro, claro, aquela canalha incapaz de entender uma figura de linguagem, que confunde propaganda da Petrobras com pensamento, gosta de exibir os sinais de saúde da economia, que, com efeito, estão aí – e que só estão aí porque, ao longo do tempo, passamos a ter menos estado na economia e mais mercado e iniciativa privada. Mas o governo Lula já está se encarregado de engessar o futuro: aproveitou-se da fase do esplendor do mercado e vai nos legar um estado agigantado. Fez um compromisso com o atraso. E NÃO FOI COMBATIDO. PORQUE OS NOSSOS LIBERAIS DO MIOLO MOLE ACHARAM QUE BASTAVA LULA MANTER O CÂMBIO FLUTUANTE E AS METAS DE INFLAÇÃO. O petismo podia ser no máximo contido,  mas jamais mudado. E houve quem acreditasse nessa quimera.

Pô, fui longe, não? Era para ser só uma notinha tirando o sarro da abismal ignorância dos petralhas. Acho que acabei chegando a algo bem mais importante. Este blog é assim: vocês me inspiram propondo desafios novos. E, para ser franco, “eles” também: afinal, vivemos um tempo em que convivem estágios diferentes da civilização.

A minha aposta é que a variante primata de dois polegares opositores vença a guerra. Vamos ver.

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  1. Comentado por:

    Leitor assíduo

    Caro Reinaldo, desde a primeira vez que li sua coluna me identifiquei, de pronto, com as suas idéias políticas. Agora, confesso estou impressionado com seu artigo de hoje sobre política econômica. Pode acreditar foi uma aula de economia política, lógica, lúcida, cristalina, que muitos economistas, mesmo os de pensamento liberal, têm dificuldade de entender. Nos meus 45 anos de formado em Ciências Econômicas, lendo seu texto me deixou de alma lavada.

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  2. Comentado por:

    Pascal

    A grande tragicomédia
    Reinaldo –
    Não há dúvida, estamos assistindo a uma grande tragicomédia, de amplitude mundial. E o mais triste nessa peça é o fato de que os personagens principais, os mais tragicômicos, são os governantes ocidentais. Quanta falta de grandeza humana…
    Um grande abraço –
    Pascal

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  3. Comentado por:

    Cavani

    Reinaldo,
    dê uma olhada neste poema, é bem semelhante a sua citação
    The Hangman by Maurice Ogden
    http://www.propertyrightsresearch.org/articles6/hangman_by_maurice_o.htm

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  4. Comentado por:

    Messias

    Depois ficam com raiva quando os chamamos de burros.
    Fazer o quê?
    O que vêm fazer aqui?
    Existem blogs onde seus relinchos e zurros são bem aceitos e têm status de inteligentes.

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  5. Comentado por:

    não sou judia mas tenho nome judeu

    esses caras são mesmo muito ignorantes! o nome não quer dizer muito, ou quase nada. tenho sobrenome judeu, porque casei com um judeu, mas sou cristã. meus dois filhos são católicos, embora tenham nome judeu. se os petralhas vão resolver pelo nome, se darão mal.
    um colega de meus filhos, que não era judeu, nem tem nome judeu, se converteu ao judaísmo, mora em Israel, e está servindo ao exército daquele país.
    como são ignorantes os petralhas……..

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  6. Comentado por:

    Janio A. Caio

    Que primor Reinaldo!
    Outro dia comentava com minha irma a infima hipotese de Fidel Castro, agora em seus anos de doenca, vir pedir desculpas por todos seus erros e se voltar para Deus. Como reagiriamos ? Eu particularmente vivo uma incostante torcida por esses fascinoras. Por muitas vezes, querendo que ardam no inferno. Mas nao devemos desejar o ceu ate mesmo para nossos piores inimigos ? Esse seu texto hoje sobre Niemoller, tende para uma postura mais santa quanto ao comportamento acima. Pela humildade. Pela atencao dada a um bocal.
    Mais: se pessoas se “convertem” politicamente por conta de seus textos, acho que esse em especial tera um grande efeito.
    Obrigado pela aula.
    Janio Caio

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  7. Comentado por:

    Jeremias-no-deserto

    Reinaldo,
    Minha sogra tinha uma amiga, uma velha senhora judia sobrevivente da barbárie nazista, que entre outras lembranças trágicas ostentava um número marcado em seu braço pelos carrascos germânicos. Com muita amargura, ela dizia: – quando eu era menina, os garotos poloneses xingavam-nos aos berros :
    – Judeus, vão embora para a Palestina!
    Pois bem, nós fomos. E agora, querem nos expulsar de nossa terra ancestral.
    Lembrei-me disso quando li o post do sr.Brunno Mello, sugerindo que a solução para o conflito seja um estado plurinacional.
    Isso ele diz depois de declarar que a criação de Israel foi um equívoco; Israel não pode conviver com aqueles que desejam a sua destruição.

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  8. Comentado por:

    LC

    Caro Reinaldo,
    Não sei se você leu muito rápido, mas o comentário de “Old Alabama – setembro 25, 2009 às 1:11 pm” nega o holocausto, de maneira indireta (ou até mesmo direta). Ele indica que foi uma peça de propaganda “pré-fabricada” antes mesmo da Segunda Guerra.
    Mesmo que não seja um petralha, não tem condições de ser considerado um leitor seu.
    Abs, LC
    PS: Estou viciado no seu blog… mas não cheiro ele.

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  9. Comentado por:

    Gabriel

    Reinaldo, se os povos do período neolítico foram responsáveis pela façanha de habitar todos os recantos possíveis do globo terrestre, parece que o paleolítico se alastrou escondido pela América do Sul.

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  10. Comentado por:

    Reinaldo,sua coragem e determinação chega a me assustar.Não pensei que o pt tivesse chegado a este ponto,de destruir cidades e jogar as pessoas no lixo.Se esses candidatos a ministro do STF assumirem seus cargos,teremos uma Venezuela tamanho gigante sem Hugo Chávez,que era falastrão mas não era tão burro quanto parecia.Por aqui a coisa vai ser pior.Chegará o momento em que Dilma e seu carisma fabricado(não há carisma(0),simpatia(0),competência(-10) ou beleza(-50) que justifiquem sua suposta popularidade)não terá como segurar esse bando de animais que tomaram conta do Brasil.Talvez até ela vá nesse embrulho.E novamente caímos naquela história de autoria controversa ,com variações:
    “Na primeira noite, eles se aproximam
    E colhem uma flor em nosso jardim.
    E não dizemos nada.
    Na segunda noite, já não se escondem:
    Pisam as flores, matam nosso cão.
    E não dizemos nada.
    Até que, um dia, o mais frágil deles
    Entra sozinho em nossa casa,
    Rouba-nos a lua,
    E, conhecendo nosso medo,
    Arranca-nos a voz da garganta.
    E, porque não dissemos nada,
    Já não podemos dizer nada.” (Vladimir Mayakovski?)

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