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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Ser “artista” é moral, social e economicamente superior a ser quituteira, costureira ou contador?

Artistas escolhem uma profissão, como qualquer pessoa, e têm de arcar com os ricos inerentes à opção que fizeram. A “arte” não é um bem público superior à contabilidade ou à produção de sorvetes. Cada coisa tem a sua utilidade e função, não é mesmo? Empreendedores dos mais diversos setores recorrem a empréstimos bancários, alguns […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 12h26 - Publicado em 28 mar 2011, 16h34

Artistas escolhem uma profissão, como qualquer pessoa, e têm de arcar com os ricos inerentes à opção que fizeram. A “arte” não é um bem público superior à contabilidade ou à produção de sorvetes. Cada coisa tem a sua utilidade e função, não é mesmo? Empreendedores dos mais diversos setores recorrem a empréstimos bancários, alguns subsidiados, é verdade, para financiar seu sonho. Mas há uma diferença: têm de prestar contas por isso.

A costureira e quituteira da favela aonde Bethania pretendia fazer chegar sua particularíssima escansão de versos podem pegar um dinheirinho em banco público, coisa pouca. Os juros são camaradas. Mas elas terão de fazer muita roupa ou vender muita coxinha para saldar a dívida e pegar um novo empréstimo, que vai servir para alavancar o seu negócio. Imaginem: um pobrezinho de um agricultor, quase com o pé no chão, também consegue uns trocos no Pronaf. O custo do dinheiro é bem inferior ao de banco privado, mas ele tem de arcar com a dívida!

Os nossos artistas? Ah, não! Se eles querem fazer um show, logo apelam à Lei Rouanet, para que a produção saia a custo zero. Levam seus trinados ao público — ou sua “mensagem” — sem investir um tostão. Não são pessoas reles como quituteiras ou costureiras. Por isso boa parte puxa o saco do PT em eleições. Eles gostam de um estado forte, que possa financiá-los.

É uma gente pidonha, mas orgulhosa! Eles acreditam estar, de fato, fazendo um sacrifício em defesa do Brasil. No auge de sua retórica condoreira, rivalizando com o seu conterrâneo Castro Alves em “Navio Negreiro”, Caetano impreca ao “Senhor Deus dos Desgraçados”:
“Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza.”

Nossa! Caetano, pelo visto, gostaria de ver “pretos de tão pobres” e “pobres de tão pretos” fazendo passeata em favor do direito que Bethânia tem de ser subsidiada… Endoidou de vez!

Há, sim, Caetano! Milhares, talvez milhões, de brasileiros tiveram a coragem de dizer: “Chega de mamata!” Bethania teve autorização para captar R$ 5,5 milhões em pouco mais de cinco anos. Quanto ela pegou efetivamente, isso não sei. Mas deixaria a quituteira morta de inveja. Com uma diferença apreciável: aquela depende de seu produto ser aceito no mercado, ou se estoura. Bethania — e todos os outros financiados — não!

Isso explica, Leãozinho, o fato de os quitutes serem hoje, no Brasil, melhores do que as músicas da MPB.

A chave, rapaz, é uma só: os donos do dinheiro privado fazem com ele o que lhes der na telha desde que a lei não proíba. Com o dinheiro público, a história é outra. Existe uma lei de incentivo à cultura. Essa lei tem uma finalidade: fomentar a cultura brasileira. Seu objetivo não é criar uma casta de fidalgos que passarão a trabalhar com risco zero!

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