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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Sempre foi assim, sempre será: escrevo e falo o que quero, não o que querem que eu escreva e fale

Quem leu ou ouviu com o entendimento, não com o seu ódio, o que escrevi ou falei sabe que lamentei na coletiva a ajuda involuntária que a força-tarefa prestou à defesa de Lula

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 30 jul 2020, 21h51 - Publicado em 15 set 2016, 05h08

Se há uma coisa que aprendi em mais de 10 anos de Internet — no papel, isso não era tão visível porque a reação tardava a chegar — é que um texto nunca está só. Ele se faz acompanhar por milhares de outros. Quais outros? Os que derivam do entendimento dos leitores. Especialmente nos dias em curso, em que pensar parece ser um pecado mortal, e só vale torcer: tudo vira Facebook, propaganda ou gritaria. Nunca me importei com o alarido. Não vou começar agora. É, para mim, uma oportunidade a mais de reflexão. E isso vale também para o que digo no rádio ou na televisão.

O que apontei nesta quarta-feira — e estou ainda mais convicto nesta quinta, depois de ler a denúncia —  não foi, obviamente, a inocência de Lula. Eu me ative àquilo que todo advogado percebeu de imediato, àquilo que todo juiz sabe, àquilo que qualquer representante do Ministério Público constatou: houve uma dissintonia entre a narrativa feita por Deltan Dallagnol, o coordenador da força-tarefa, e os tipos penais da acusação. Não se diz que um ex-presidente da República, quando no exercício do cargo, atuou como o grande chefe de uma organização criminosa para, na peça encaminhada ao juiz, acusá-lo, formalmente, de corrupção passiva e lavagem de dinheiro apenas.

Impressionante! Eu não disse que Lula é inocente no caso do apartamento. Eu não disse que Lula é inocente no caso da organização criminosa. Tendo a achar, inclusive, que o organograma apresentado por Dallagnol está correto. Deve ser aquilo mesmo. Apontei o que me parece uma óbvia incorreção de natureza técnica. Se e quando o Ministério Público Federal reunir, então, as provas de que Lula é mesmo o chefe da organização criminosa, que ele seja disso acusado.

Chegar a essa conclusão a partir de um conjunto de elementos de convicção para embasar uma denúncia que diz respeito a um apartamento, bem…, qualquer um reconhece a heterodoxia do procedimento. Que acabará, obviamente, por beneficiar o ex-presidente em juízo.

Ocorre que, em momentos assim, boa parte das pessoas quer ouvir apenas a reiteração daquilo que já pensa. Apontar fragilidades na denúncia e censurar os métodos empregados pela força-tarefa corresponderia a dizer que Lula é inocente. O que, obviamente, não acho. Mas também não deixarei que o mau leitor, que o mau ouvinte e que o mau telespectador pautem a minha análise. Escrevo e falo para quem sabe ler e ouvir.

Não contem comigo para endossar procedimentos heterodoxos nem a favor das pessoas de que gosto nem contra as pessoas de que não gosto. A minha profissão, reitero, é jornalismo, não animador de torcida.

De resto, sugiro que os leitores, os ouvintes, os telespectadores — aqueles todos que acompanham o meu trabalho, gostem ou não dele — conversem com advogados e outros profissionais ligados ao direito para saber se a minha crítica é ou não procedente do ponto de vista técnico. “Ah, eu não dou bola para o direito”…

Pois é… Sem ele, a gente volta à conversa mediada por pedras e paus.

Quem leu ou ouviu com o entendimento, não com o seu ódio, o que escrevi ou falei sabe que lamentei na coletiva a ajuda involuntária que a força-tarefa prestou à defesa de Lula

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