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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Que eles defendam seus criminosos! Não tenho criminosos a defender!

Há momentos, caras e caros, em que a gente consegue dizer sobre um tema o que realmente queria dizer; em que o produto do nosso esforço se casa com a nossa intenção. Consegui isso, a meu juízo, num artigo intitulado “TEXTOS DE FORMAÇÃO – A NOSSA MORAL E A DELES”, publicado no dia 2 de […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 10h28 - Publicado em 18 out 2011, 05h09

Há momentos, caras e caros, em que a gente consegue dizer sobre um tema o que realmente queria dizer; em que o produto do nosso esforço se casa com a nossa intenção. Consegui isso, a meu juízo, num artigo intitulado “TEXTOS DE FORMAÇÃO – A NOSSA MORAL E A DELES”, publicado no dia 2 de dezembro de 2009.

Qual era a circunstância? José Roberto Arruda, então governador do Distrito Federal, havia sido pego com a boca na botija. Eu pedi para Arruda, que era do DEM, o que sempre pedi para petistas pegos em flagrante: punição. Os petralhas, acostumados a defender os seus bandidos, não se conformavam que eu não apoiasse Arruda. Então resolvi colocar alguns pontos dos “is”. Hoje, quando vemos o PCdoB acossado por denúncias e quando os “camaradas” se organizam na rede para denunciar uma suposta conspiração contra os “progressistas, parece-me bom voltar àquele artigo. Quem já o conhece, creio, tende a relê-lo com algum prazer. Como, de 2009 para cá, o site ganhou milhares de leitores novos, é provável que muitos não o tenham lido ainda. Acho que é um artigo que serve para pôr as coisas no seu devido lugar. Avaliem vocês.
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Embora tudo o que esteja em curso seja uma porcaria e indique um mosaico de misérias morais das mais diferentes origens, confesso que, intelectualmente, momentos assim são importantes porque nos permitem recuperar alguns princípios. Mal comecei e sei que vem um longo texto pela frente. Em um dos meus livros,“Máximas de Um País Mínimo“, há um Reinaldo Azevedo bastante concentrado, sintético.  Aqui, vocês sabem, não temo me estender o quanto for necessário. Pretendo que seja um daqueles artigos  que chamo “textos de formação”, que marcam posição – só não acrescento o adjetivo “doutrinária” porque meu partido tem um homem só. Mais de 11 mil toques. Vocês vão encarar?

A canalha não se conforma que eu defenda a expulsão de José Roberto Arruda do DEM e seu impeachment. Juízes de minhas vontades secretas, dizem os petralhas que o faço apenas para afetar uma independência que eu não tenho, o que, desde logo, revela um juízo da realidade típico desses asnos. Porque não sou de esquerda, como eles dizem ser, então estaria impedido de pedir a punição imediata de desmandos praticados por um não-esquerdista – já que não ouso considerar Arruda expressão da “direita”. Tomam-me segundo os critérios com que medem a si mesmos. Ou os petralhas não saíram em defesa de seus mensaleiros, acusando uma grande conspiração para depor o “presidente operário”?

Quem não se lembra de Marilena Chaui e Wanderley Guilherme dos Santos, “intelectuais do PT” – o que é um oximoro clamoroso -, a acusar a tentativa de golpe de estado quando se propôs a investigação do mensalão petista? Em recente entrevista, Lula reforçou a tese do golpe, negou a existência do crime e ainda sugeriu que Marcos Valério foi plantado no PT pelo PSDB só para desestabilizar seu governo.

Entendo, pois, a reação da canalha que fica infeliz porque não me sinto minimamente compelido a defender Arruda: eles defendem os seus bandidos com desenvoltura ímpar e não compreendem que aqueles a quem consideram adversários não defendam os “deles”. Não conseguem enxergar a política senão segundo a ótica do crime. E acreditam que os supostos crimes dos oponentes justificam as suas próprias trapaças. SÃO UNS MONSTROS MORAIS. E NÃO É DE HOJE.

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Muito pessoal
Cabe espaço para alguma confissão – já que estamos neste papo muito pessoal, mesmo envolvendo milhares de pessoas. Fui trotskista dos 14 aos 21 anos mais ou menos. Posso não me orgulhar, mas também não cabe ficar falando de arrependimentos. Havia as circunstâncias e as escolhas que fiz com o entendimento que tinha do mundo à época. Mas acho que bem cedo percebi o mau cheiro que exalava daquele pântano moral. Curiosamente, o livro que me tirou daquela bagaceira também ética foi escrito por um deles – ainda hoje considero o mais inteligente entre eles. Refiro-me a Moral e Revolução, escrito por Leon Trotsky. Tinha lido o troço, pela primeira vez, ali pelos 16 anos e achei do balocobaco. Era tudo o que eu queria – enfim, um sujeito que pensava a moral segundo a sua dimensão prática. Na cegueira militante, pareceu-me tão óbvio que SÓ se pudesse pensar a questão da moral segundo a perspectiva aplicada, isto é, da moral revolucionária, que senti o conforto dos estúpidos. A meu favor e contra mim, eu só tinha a minha juventude.

Quando voltei àquele texto, já um tanto desiludido em razão de opções conjunturais do grupo ao qual eu era ligado, dei-me, então, conta do horror. Trotsky escrevera em 1936 – e vejam em que período! – um dos livros mais odiosos das esquerdas em qualquer tempo, verdadeiro libelo do amoralismo, e aquilo, embora ele próprio o negue no livro, não distinguia o trotskismo do stalinismo.

Mais do que isso: restava evidente que Stálin, o grande inimigo de Trotsky, operava com os mesmos critérios, com a diferença de que havia sido mais hábil na aplicação do amoralismo. EM SUMA, TROTSKY, PERSEGUIDO POR STÁLIN (ATÉ SER ASSASSINADO EM 1940), ERA UMA VÍTIMA PRÁTICA DE SUA PRÓPRIA TEORIA. E ambos haviam bebido na mesma fonte: Lênin – o pai primitivo de todos os amorais contemporâneos.

Aonde você quer chegar, Reinaldo?
Mas por que lembrar agora o texto Moral e Revolução? Por que esse tanto de memória pessoal? Porque foi no que pensei quando a onda dos canalhas veio bater na minha praia, inconformados que eu não fizesse com Arruda o que eles certamente fariam com qualquer um de seus bandidos e mensaleiros. A explicação é simples. NÃO SOU HERDEIRO INTELECTUAL DA MORAL REVOLUCIONÁRIA. POSSO ATÉ SER DE CERTA MORAL GUERREIRA, BRIGO MUITO. MAS JAMAIS TRAPACEIO OU ME ESFORÇO PARA ELIMINAR O OUTRO. DESDE QUE ELE JOGUE AS REGRAS DO JOGO DEMOCRÁTICO.

Não partilho da tese, e tenho ojeriza intelectual a quem se vê nesse papel, de que uma vanguarda se assenhora (a variante “assenhoreia” é muito feia…) da história e passa, então, a comandá-la em nome de qualquer uma dessas ilusões que se vendem por aí: bem comum, bem da humanidade, novo homem, nova civilização – antigamente, falava-se em “socialismo”, “sociedade sem classes” e afins. A PERSPECTIVA QUE COMBATO HOJE, SEM DÚVIDA, ESTÁ PLASMADA COM MAIS CLAREZA NO PETISMO. Não que o partido sonhe com um socialismo à moda daquele havido no século 20. É claro que não! São petistas, mas não são burros. Conservam da visão bolchevista a idéia do partido autoritário, centralizador, gestor do futuro. E trazem consigo aquela velha moral.

Eu não preciso defender Arruda porque, afinal, ele estaria mais próximo do meu campo ideológico. NOTEM BEM: ESTE É UM OLHAR DAS VELHAS ESQUERDAS – E DAS NOVAS TAMBÉM – DO PROCESSO POLÍTICO. Petista precisa defender José Dirceu, José Genoino, Lula… Eu não preciso defender, e não defendo, Arruda. Porque não criei uma moral para mim e para os meus e uma outra moral para eles e para os seus.

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Quando Lula afirmou que, no Brasil, Cristo faria um acordo com Judas para governar, não estava apenas expressando uma estupidez religiosa – já que Judas não simboliza o “outro”, o “adversário”, mas a traição; ele estava também expressando a sua filiação a um pensamento político, malgrado sua ignorância exemplar, que tem história. Leiam um trecho que transcrevo de Moral e Revolução. Neste ponto, Trotsky está combatendo, calculem!, um grupo minoritário de esquerda que havia censurado o uso da mentira e da violência como armas políticas (segue em vermelho).

Mas a mentira e a violência por acaso não são coisas condenáveis “em si mesmas”? Por certo, como é condenável a sociedade dividida em classes que as engendra. A sociedade sem antagonismos sociais será, evidentemente, sem mentira e sem violência. Mas não é possível lançar uma ponte para ela senão com métodos violentos. A própria revolução é o produto da sociedade dividida em classes, da qual ela leva necessariamente a marca. Do ponto de vista das “verdades eternas” a revolução é, naturalmente, “imoral”. Mas isso significa apenas que a moral idealista é contra-revolucionária, isto é, encontra-se a serviço dos exploradores.
Está claro, não? A síntese poderia ser esta: se as classes sociais existem, então tudo nos (aos socialistas) é permitido. Como se nota acima, qualquer brutalidade que os revolucionários viessem a cometer seria responsabilidade dos fatores antecedentes que levaram à revolução. Ora, não preciso conduzir nenhum de vocês pelo braço, como Virgílio fez com Dante nos círculos do inferno, para que se reconheça ali a moral dos petistas, que os levou a defender o mensalão e os mensaleiros. Eles tinham um objetivo, e o que fizeram de detestável para alcançá-lo deveria ser creditado na conta do inimigo. Num texto eivado de horrores, destaco mais um:

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem.
Tentando ser espertinho ao jogar com a máxima maquiavélica, Trotsky apenas lhe acrescenta mais horror. A pergunta desde logo óbvia é esta: e quem julga se os meios A ou B conduziram mesmo àquele fim edificante. Stálin não teve dúvida: “Deixem que eu julgo!” E mandou meter uma picareta na cabeça de Trotsky. ELE FOI ASSASSINADO PELA REVOLUCIONÁRIA MORAL BOLCHEVIQUE, NÃO PELA IDEALISTA  MORAL BURGUESA.

Mas, então, tudo é permitido àquele que se julga na vanguarda da história e do processo revolucionário? Deixemos que Trotsky responda:
Isto significa então que, para atingir este fim, tudo é permitido? – perguntará sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. É permitido, responderemos, tudo aquilo que leve realmente à libertação dos homens. Já que este fim não pode ser atingido senão por via revolucionária, a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um caráter revolucionário. Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante. Ela deduz as normas de conduta das leis do desenvolvimento social, isto é, antes de tudo, da luta de classes, que é a lei das leis.

Está claro? Qualquer que seja o horror, alegue tratar-se de uma moral emancipadora, libertadora, de caráter revolucionário. E o próprio Trotsky pergunta, como se fosse dúvida de um moralista idiota qualquer: “São permitidos todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassinato”. Responde:
São admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível a  toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

A conclusão do parágrafo é própria de um grande vigarista, uma vez que os únicos meios não-válidos seriam, então, os que não conduzissem ao fim pretendido. Mas a indagação sempre se refere, ora bolas, ao fim. Logo, para Trotsky – e para as esquerdas de modo geral – TODOS OS MEIOS SÃO VÁLIDOS: a mentira, a falsificação, a traição, o assassinato…

Também eu, a exemplo de Trotsky, acredito que existem a moral “deles”, das esquerdas, e a “nossa”. Eles, porque se julgam líderes de um “projeto”, de um amanhã sorridente – ou que nome tenha assumido a vigarice revolucionária – acreditam que todos os meios lhes são lícitos, permitidos, convenientes. Eu, pobrezinho, já tenho uma moral mais “burguesa”, sabem?, mais “idealista”, que advoga a universalidade de certos direitos e do bem de certos procedimentos. Não acho, por exemplo, que se deva condescender com a mentira, com a falsificação, com a traição, com o assassinato…

E nem com o mensalão. Com o de ninguém. Quando dona Marilena Chaui e sua vassoura teórica inventaram que denunciar o mensalão do PT era golpe, estava apenas recorrendo à moral torta de que nos fala Trotsky, aquela, segundo a qual, se o “objetivo é revolucionário” (e os petistas acreditam mesmo que estão fazendo revolução), então todos os procedimentos, todos os meios, são válidos porque se tornam também revolucionários, já que imantados por aqueles propósitos grandiosos, cheios de amanhãs sorridentes.

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Eu, com a minha moral burguesa, acho que mensalão de Arruda é só um caso de polícia.

Em suma, o fato de aqueles petistas não terem vergonha na cara não me convida a perder a minha vergonha também. Que eles defendam seus criminosos! Não tenho criminosos a defender!

Arremate em 18 de outubro de 2011
O mesmo vale para a turma do PCdoB.

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