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Quase 20 anos depois da antena parabólica que derrubou Ricupero, o padrão ético do país caiu. O “diabo” de Dilma é a evidência disso

Em 1994, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, que é um homem decente (e, sim, discordo dele muitas vezes), foi massacrado pelo PT e pela imprensa e teve de pedir demissão. No intervalo de duas entrevistas concedidas a Carlos Monforte, da TV Globo (a primeira para o Jornal Nacional e a segunda para o […]

Em 1994, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, que é um homem decente (e, sim, discordo dele muitas vezes), foi massacrado pelo PT e pela imprensa e teve de pedir demissão. No intervalo de duas entrevistas concedidas a Carlos Monforte, da TV Globo (a primeira para o Jornal Nacional e a segunda para o Jornal do Globo), o ministro fez algumas considerações sobre a economia brasileira, a inflação, o IBGE, a Petrobras e a possível eleição de Fernando Henrique Cardoso… Era uma conversa informal, comum entre jornalistas e entrevistados, entre repórteres e fontes. Ocorre, como é sabido, que a fala estava sendo captada por antenas parabólicas. E  o mundo desabou sobre a cabeça do ministro.

Atenção! Ele não disse nada demais! Não confessou crime nenhum! Não estava admitindo “fazer o diabo”. Nada disso! Mesmo os dois momentos mais supostamente explosivos da conversa nada traziam de excepcional. E vou dizer por quê. Segue um vídeo. Volto em seguida.

Voltei
Quem já acompanhava o noticiário à época — eu era, então, editor-adjunto de Política da Folha — sabe que Ricupero dava ali notícias do braço de ferro entre o governo e alguns setores da economia por causa dos preços. O ministro diz, então, que o país tinha reservas e que, se preciso, recorreria às importações. Pode-se concordar ou não com essa medida, mas o que há nisso de criminoso? Não foi isso, no entanto, que determinou a sua queda.

Não foi isso, claro!, que determinou a sua saída. O trecho mais explosivo, que serviu de mote da campanha eleitoral do PT — que acusava, então, o Plano Real de ser uma farsa, prevendo um desastre para o Brasil — foi outro. Repórter e ministro conversam sobre a inflação. Muito provavelmente, o jornalista lhe tenha cobrado algum número, algum dado. Ricupero diz, então, que precisa conversar com os economistas do governo. E fala o que segue:
“Eu preciso conversar com eles senão eles me mantam, entende? Esse pessoal tem toda aquela corporação de economistas, um troço complicado. E vão dizer: ‘Pô, você proibiu da vez anterior, que era ruim… Agora que é bom…’ No fundo é isso mesmo. Eu não tenho escrúpulos. Acho que é isso mesmo: o que é bom, a gente fatura; o que é ruim, esconde”.

Explique-se
Ricupero tinha sinais de que a inflação estava em queda, mas se negou a dar uma de Mãe Dinah, como costuma fazer Guido Mantega, e não quis antecipar nada. E se justificou: na jornada anterior, tinha sido o contrário: a inflação havia crescido, e ele diz que proibiu técnicos do governo de antecipar dados. Assim, disse, não faria também as otimistas. Em vez da confissão de um crime, havia ali a exposição de um critério razoável de equilíbrio. Mas aí veio a frase fatal: “Eu não tenho escrúpulos. Acho que é isso mesmo: o que é bom a gente fatura; o que é ruim, esco
nde”.

É evidente que o “não escrúpulo”, ali, não tem o sentido habitual no “inescrupuloso” como o sem-limites, o sem-ética, o cultor do vale-tudo. Poderia ter dito: “Eu não me intimido, eu não me envergonho, eu não vexo…”. Como todo governante, Ricupero “confessava” faturar o que é bom e “esconder” o que é ruim. Ou alguém faz diferente?

O problema aí é o verbo “esconder”. O ministro se referia ao índice de inflação. Ora, havia como escondê-lo? Não! Ele próprio admite que não tinha controle nenhum sobre o IBGE e até especula, o que provavelmente era verdadeiro, sobre a infiltração petista no órgão. Tanto é que diz ter havido um erro metodológico.

EM SUMA, RICUPERO NÃO DIZIA NADA DEMAIS! EIS A VERDADE. Os petistas, no entanto, isolaram a frase “eu não tenho escrúpulos” e fizeram dela um cavalo de batalha.

FHC
O outro trecho que determinou a sua queda foi este:
“Olha, muito entre nós, vai parecer presunçoso, o governo precisa muito mais de mim do que eu dele. (…) Quando terminar tudo, se tudo der certo, o problema vai ser ele [FHC] explicar não me convidar.(…) Eu não digo isso, mas inúmeras pessoas que me escrevem e que me procuram para dizer que votam nele por causa minha. Aliás, ele sabe disto: que o grande eleitor dele hoje sou eu”.

Ricupero foi acusado de manipular dados para facilitar a eleição de FHC, o que, é bom notar, não aconteceu.

O país piorou eticamente
É claro que houve um brutal exagero naquilo tudo. Também não sei se dava para ser muito diferente. Querem saber? No que concerne à questão ética, o Brasil piorou nesse período. Era preferível um país que recusava aquele tipo de conversa privada tornada pública a este de hoje, que aceita candidamente a confissão que Dilma fez no palanque — e dois anos antes da eleição.

Ricupero dizia que o governo procurava faturar o que era bom e minimizar o que era mau (ele não tinha como esconder índices de inflação) porque, convenham, isso é da natureza do jogo político. Ele não estava confessando “fazer o diabo”.

O adversário que cobrava uma providência, que emprestou à coisa toda ares de escândalo, era o PT, partido a que pertence Dilma Rousseff, aquela que não precisa de parabólica para confessar fazer o diabo. E agora sob o silêncio cúmplice dos partidos e de boa parte da imprensa.

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