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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Por que o PSDB caiu em vez de subir na pesquisa. Ou: Não existe oposição viável se não houver a construção de valores oposicionistas

A pesquisa Datafolha para as eleições presidenciais do ano que vem, publicada pela Folha neste domingo, em que pese testar alguns cenários meio aloprados — aqueles que incluem Joaquim Barbosa, por exemplo —, evidenciou duas coisas que me parecem óbvias: 1) o petismo iniciou um caminho de recuperação, restando saber, agora, em que velocidade vai […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h38 - Publicado em 12 ago 2013, 04h53

A pesquisa Datafolha para as eleições presidenciais do ano que vem, publicada pela Folha neste domingo, em que pese testar alguns cenários meio aloprados — aqueles que incluem Joaquim Barbosa, por exemplo —, evidenciou duas coisas que me parecem óbvias: 1) o petismo iniciou um caminho de recuperação, restando saber, agora, em que velocidade vai se desenvolver, e 2) a oposição propriamente dita teve um desempenho pífio — se não couber essa palavra, escolha-se outra ainda mais dura. Mesmo depois do transe vivido nas ruas, de que há ainda alguns resquícios, a verdade inquestionável é que ela não conseguiu se apresentar nem mesmo como um esboço de alternativa, algo que pudesse funcionar, se não como certeza definitiva, ao menos como depositário provisório dos descontentamentos e esperanças de mudança.

Ao contrário até: para desaire dos tucanos, Aécio Neves, que é apontado como o candidato do PSDB, amarga uma queda de três ou quatro pontos percentuais nas intenções de votos nos cenários anteriormente testados pelo instituto. Naquele que é dado pela imprensa como o mais provável, com Dilma Rousseff, Marina Silva e Eduardo Campos na disputa, o tucano caiu de 17% para 13%. Não lhe têm faltado visibilidade, presença na imprensa e chance de dizer o que pensa sobre os mais variados assuntos. Então o que é que falta? É evidente que as características pessoais de Aécio ajudam a definir esse desempenho, mas a questão transcende o nome. A oposição (ou, se quiserem, as forças antipetistas) não chegará ao poder, não num período de razoável normalidade ao menos, se não tiver a coragem de travar uma disputa também na esfera dos valores.

Essa minha tese — ou constatação — não é recente, como vocês bem sabem. Tratei do assunto num longo artigo na última edição de 2010 da revista VEJA. Não estou aqui a propor nenhum exotismo ou algum ovo de Colombo. Ao contrário: ancoro-me na experiência das democracias mundo afora, seja no pequeno Chile, quase aqui do lado, seja nos EUA, bem mais ao norte, seja nos países europeus. Ignoro a existência de outro país no mundo em que todos os partidos relevantes e com chances de chegar ao poder sejam, como eles mesmos se declaram aqui, de centro-esquerda. Pode-se até debater em que medida esse “centro-esquerdismo” é honesto, genuíno ou vivido na prática. Mas, se querem saber, a agenda efetivamente implementada, nesse caso, tem menos importância do que aquilo que ousaria chamar de “confronto de imaginários” — ou, mesmo, se quiserem, de “choque de imaginações”.

Ora, quando é dado aos líderes políticos fazer suas prefigurações sobre o país que têm em mente, o que sempre convida, então, os eleitores — os brasileiros — a expor suas próprias utopias e anseios, havemos de perguntar: há distinção importante entre os amanhãs sorridentes com os quais acenam, por exemplo, PT e PSDB? A resposta, obviamente, é “não!”. E que se note desde logo: essa definição de um corpo de valores não é coisa que se revele da noite para o dia, não. Infelizmente, ainda que os tucanos, por exemplo, decidissem amanhã que estou certo, não haveria tempo de plasmar esses valores para as próximas eleições. Assim, repetindo o que afirmei nos debates da VEJA.com há mais de um mês, quando Dilma estava em queda livre, resta evidente que o mais provável é que a presidente se reeleja — sempre destacando que aquela que pode ameaçá-la, Marina Silva, não encarna, a meu juízo, uma alternativa ao petismo, mas uma sua vertente de pior extração, de viés fundamentalista em alguns aspectos.

Boa parte dos tucanos não gosta nada dessa minha conversa. Ao contrário até: eles a detestam. E por dois motivos. Um deles diz respeito mesmo ao conteúdo: o PSDB resiste bravamente à evidência de que as circunstâncias da política lhe reservaram o lugar que, nas democracias, cabe a um partido conservador. Conservador de quê? Das injustiças, como acusaria a esquerda? Não! Conservador dos valores democráticos — detalharei essa questão em outros artigos. A segunda razão por que não gostam é que essa evidência os obrigaria a sair de certa zona de conforto, forçando-os a fazer o que mais abominam, que é um debate também de natureza ideológica. Presos ainda ao figurino dos anos 1990, quando permaneceram oito anos à frente do governo (1995 a 2002) e pelo menos dez no comando da economia, acostumaram-se a reduzir a política a uma escolha de natureza técnica.

As ruas
Sabem vocês que o alarido das ruas nunca me encantou. Ao contrário. Sustentei, desde a primeira hora, que ele acabaria submetendo o processo político àquilo que chamei de “torção à esquerda”. E é o que se está verificando; é o que revela a pesquisa Datafolha — a menos que alguém considere que Marina Silva representa, de fato, uma alternativa ao petismo. A oposição limitou-se a tentar pegar carona no movimento, como, de resto, todas as forças políticas. Mas com que mensagem exatamente? Tratou-se, caso fosse necessário fazer uma síntese, de um movimento contra a ordem vigente e contra as ordens vigentes, em qualquer lugar e em qualquer esfera. Era, em suma, contra governos.

Ainda que as pesquisas de opinião tenham revelado que a esmagadora maioria dos brasileiros apoiava as manifestações, o fato evidente é que essa esmagadora maioria estava em casa, acompanhando, no máximo, as perorações televisivas. Atenção, agora, para uma questão sutil e relevantíssima: a voragem que vimos submeteu, sim, a política a uma torção à esquerda, mas, em boa medida, o sentimento que o animava também era identificado com a ordem, com a eficiência, com a qualidade de serviços. E isso nunca foi nem nunca será de esquerda. Mas aí surge a pergunta: cadê o partido para falar, então, em nome dessa ordem?

Quando partidos e forças políticas mobilizam multidões para o voto, essa mobilização não se dá em razão de dois ou três temas apenas, como, sei lá, controle da inflação, crescimento da economia e combate à corrupção, peças de resistência da abordagem tucana, por exemplo. Nada disso! Política é muito mais: é preciso que se acene com o que chamo aqui, desde o comecinho do blog (junho de 2006), de uma “narrativa” — trato dessa questão bem antes de o tal Pablo Capilé maltratar a palavra com sua conversa mole. O PT tem a sua, que é a tal luta contra as elites, o apoio aos movimentos sociais etc. Marina Silva conseguiu encontrar uma fala — a “sustentabilidade”. E a oposição? E o PSDB?

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Ao longo dos anos, o partido, infelizmente, tem tido é medo do povo, além de ter se tornado refém da caricatura que dele faz o PT. Nestes meses ou anos que antecedem 2014, lideranças do partido ou se acovardaram diante de temas que mobilizam a sociedade — aborto, casamento gay, combate à violência, drogas, cotas — ou acabaram integrando o coro dos que se autointitulam “progressistas”, deles não se distinguindo. Da mesma sorte, o partido nunca conseguiu falar diretamente aos brasileiros que pagam a conta do estado perdulário.

Naquele meu artigo de 2010, escrevi (em azul) o que segue. Volto depois:

Temos já um Brasil de adultos contribuintes, com uma classe média que trabalha e estuda, que dá duro, que pretende subir na vida, que paga impostos escorchantes, diretos e indiretos, a um estado insaciável e ineficiente. Milhões de brasileiros serão mais autônomos, mais senhores de si e menos suscetíveis a respostas simples e erradas para problemas difíceis quando souberem que são eles a pagar a conta da vanglória dos governos. É inútil às oposições disputar a paternidade do maná estatal que ceva megacurrais eleitorais. Os órfãos da política, hoje em dia, não são os que recebem os benefícios — e nem entro no mérito, não agora, se acertados ou não -—, mas os que financiam a operação. Entre esses, encontram-se milhões de trabalhadores, todos pagadores de impostos, muitos deles também pobres!

Esse Brasil profundo também tem valores — e valores se transformam em política. O que pensa esse outro país? O debate sobre a descriminação do aborto, que marcou a reta final da disputa de 2010, alarmou a direção do PT e certa imprensa “progressista”. Descobriu-se, o que não deixou menos espantados setores da oposição, que amplas parcelas da sociedade brasileira, a provável maioria, cultivam valores que, mundo afora, são chamados “conservadores”, embora essas convicções, por aqui, não encontrem eco na política institucional — quando muito, oportunistas caricatos os vocalizam, prestando um desserviço ao conservadorismo.

Terão as oposições a coragem de defender seu próprio legado, de apelar ao cidadão que financia a farra do estado e de falar ao Brasil que desafia os manuais da “sociologia progressista”? Terão as oposições a clareza de deixar para seus adversários o discurso do “redistributivismo”, enquanto elas se ocupam das virtudes do “produtivismo”? Terão as oposições a ousadia de não disputar com os seus adversários as glórias do mudancismo, preferindo falar aos que querem conservar conquistas da civilização? Lembro, a título de provocação, que o apoio maciço à ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas demonstrou que quem tem medo de ordem é certo tipo de intelectual; povo gosta de soldado fazendo valer a lei. Ora, não pode haver equilíbrio democrático onde não há polaridade de idéias. Apontem-me uma só democracia moderna que não conte com um partido conservador forte, e eu me desminto.

Volto e começo a encerrar
O partido não só não teve a coragem de falar a essas pessoas como, por intermédio de alguns de seus líderes mais proeminentes, falou bobagem ou defendeu teses que o afastaram ainda mais do anseio de milhões de pessoas. Olhem, por exemplo, o desastre provocado pelo crack nas cidades brasileiras — certamente está na raiz de parcela considerável dos homicídios, em particular dos latrocínios. A inoperância do governo federal na área é escandalosa. Não só o PSDB — exceção feita ao governo de São Paulo — foi omisso nesse debate como entrou nele, por intermédio de FHC, por uma porta estupidamente errada, com sua militância tecnicamente insustentável em favor da descriminação da maconha.

É claro que esse negócio não poderia dar certo. O PSDB não consegue disputar o mercado de ideias em que o PT é hegemônico e deixa órfãos milhões de eleitores aos quais poderia falar; ocupa, não obstante, o lugar que caberia a um grande partido conservador. Ambiciona, assim, disputar a eleição com o PT no terreno do puro administrativismo. Não deu certo. Não está dando certo. Não dará certo. A menos que o país mergulhe numa crise tal que surja no horizonte a ameaça do caos — ninguém pode, em são consciência, torcer por isso —, será muito difícil o PSDB voltar ao poder federal se não decidir travar contra o petismo não uma guerra para saber quem é mais competente, mas uma guerra de valores. Sem isso, nada feito.

Releio aquele meu texto de 2010 e constato que os tucanos não só não avançaram nesse necessário confronto como ainda conseguiram regredir. Por isso o país entrou em transe, Dilma despencou nas pesquisas, e o principal partido de oposição perdeu em vez de ganhar pontos.

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