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PARTE DA IMPRENSA SABE O QUE ESTÁ EM CURSO, MAS SE ACOVARDA

Há pontos sobre os quais já não resta a menor dúvida. Lembro-os apenas para que não se perca no dia-a-dia a memória do escândalo. O ponto deste artigo, no entanto, é outro. Falarei aqui de uma imprensa – a chamada “grande imprensa” – que vive sob patrulha e que passou a ter medo de pensar. […]

Há pontos sobre os quais já não resta a menor dúvida. Lembro-os apenas para que não se perca no dia-a-dia a memória do escândalo. O ponto deste artigo, no entanto, é outro. Falarei aqui de uma imprensa – a chamada “grande imprensa” – que vive sob patrulha e que passou a ter medo de pensar. Se preciso, ela vai contra os fatos para que não seja considerada “conservadora”, “reacionária” e “golpista”. Já chego lá. Antes, ao que é dado.

– O retorno de Manuel Zelaya a Honduras foi pensado para coincidir com a presença de Lula em Nova York. O que, por si, já seria notícia ampliou-se enormemente. Lula tratou do caso em seu discurso;
– Lula usa, de forma miserável, a tragédia de um pequeno e pobre país para robustecer a própria mitologia;
– em entrevista à Rádio Jovem Pan, Zelaya confirmou que conversou previamente com Lula e Amorim;
– Os presidentes Lula, Daniel Ortega (Nicarágua), Maurício Funes (El Salvador) e Hugo Chávez, que desapareceu do noticiário (?), articularam a ação;
– se Zelaya não é um asilado na embaixada brasileira, como diz Celso Amorim, então está usando a representação brasileira para insuflar a insurreição, o que viola uma penca de tratados internacionais;
– Lula não hesitou em usar o pobre povo hondurenho como massa de manobra ou bucha de canhão de seus sonhos megalômanos;
– É mentira – grotesca, estúpida, deslavada – que Zelaya tenha sido deposto por um golpe. Artigo que circula por aí e que me foi enviado por leitores sustentando que a Constituição hondurenha foi violada pelo governo Micheletti sai da pena de um delinqüente de aluguel.  O mesmo delinqüente garante, por exemplo, que o mensalão nunca existiu;
– Já demonstrei aqui, por A + B, que a Zelaya é que violou a Constituição; a rigor, quando deixou Honduras, nem era mais presidente. A Carta prevê destituição automática para quem faz o que ele fez;
– jornais e TVs ignoram o que é FATO, não o que é GOSTO: golpista era Zelaya, que deu uma ordem ao Exército contra decisão da Suprema Corte do país;
– Lula mancha com sangue hondurenho a sua reputação de grande líder internacional – ainda mais asqueroso: alimenta-se desse sangue.

Tudo isso está dado. No arquivo vocês acham os artigos da Constituição que Zelaya violou. Agora vou comentar um pouco o transe em que a maior parte da imprensa brasileira está mergulhada. Não! Não é assim em todo o mundo, não. Tratei aqui de um editorial do Wall Street Journal que coloca as coisas em seus devidos termos. Escrevi ontem um texto afirmando, de forma um tanto irônica, que o chavismo havia chegado ao andar dos editoriais do Estadão. Agora, trato de um editorial da Folha. O jornal, vocês verão, percebeu que algo de errado se dá na embaixada brasileira. Mas recua diante do óbvio e recorre a uma mentira – ou desinformação – para ancorar seu ponto de vista. Trechos do editorial em vermelho. Sigo nas pretinhas.

A suspensão imediata do cerco [à embaixada do Brasil] acrescenta mais um item relevante ao conjunto de condições apresentadas pela comunidade internacional para superar-se o isolamento em que se encontra o atual governo hondurenho.
As forças golpistas, entretanto, resistem a qualquer concessão. O governo Micheletti rejeitou a proposta de acordo apresentada por Oscar Arias, presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, que previa a volta de Zelaya ao poder, num governo de conciliação nacional, com anistia a todos os envolvidos na crise. Esse continua sendo o melhor caminho para superá-la.
Todavia, não são as resistências do atual governo o único fator de agravamento da situação. Nada é unívoco no quadro hondurenho, e as atitudes de Zelaya não correspondem em absoluto ao papel de mártir da democracia que lhe tem sido atribuído.
Não se esqueçam de que o jornal se refere ao governo Micheletti como “forças golpistas”. Já volto aqui.  Observem que a Folha repete uma mentira que está em toda a parte: a história de que o governo provisório rejeitou o Plano Arias. Quem deu as negociações por encerradas foi o grupo de Manuel Zelaya. Basta consultar os jornais hondurenhos. O chamado Acordo de San José tinha um prazo estendido. No seu curso, Zelaya pôs fim à negociação e combinou com Chávez a sua volta – então malsucedida – a Honduras. Mas a Folha reconhece, que bom!, que ele não é um mártir da democracia. Vamos ver.

Zelaya tentou aplicar, contra uma cláusula pétrea da Constituição de seu país, o modelo chavista da permanência no poder, viabilizada por plebiscito popular. Naquela altura, já estava em curso a campanha para a sucessão presidencial -em que seu candidato tinha poucas chances de vencer.
A tentativa de tumultuar o processo democrático -vale dizer, de golpe plebiscitário- foi condenada pelo Congresso e barrada na Corte Suprema. Roberto Micheletti, presidente do Congresso, assumiu conforme a linha sucessória estabelecida pela Constituição -já que o vice-presidente havia renunciado para concorrer nas eleições, marcadas para 29 de novembro.
A Folha reconhece, então, que Zelaya tentou a via bolivariana do golpe plebiscitário, condenado pelo Congresso e BARRADO pela Corte Suprema. Faltou o jornal lembrar neste ponto que, mesmo depois de o plebiscito ter sido declarado ilegal, o então presidente deu ordens para que fosse realizado e mobilizou para tanto o Exército. O JORNAL E MUITA GENTE NÃO SE DÃO CONTA DE QUE AQUELA ORDEM JÁ ERA O GOLPE. Se os militares vão às ruas contra a Constituição e a Justiça, o que temos? Mas feliz fiquei mesmo quando a Folha escreveu: “Roberto Micheletti, presidente do Congresso, assumiu conforme a linha sucessória estabelecida pela Constituição”. É MESMO? É MESMO! Assumiu segundo a linha sucessória estabelecida pela Constituição. Então não é golpe coisa nenhuma! Mas aí vem a patrulha: “Ih, vão chamar o jornal de golpista!” Vejam o que vem em seguida:

Foi o ato abusivo de expulsar Zelaya do país, “manu militari”, que configurou a ilegitimidade do atual governo. A partir de então, o justificado repúdio internacional ao golpe propiciou a Zelaya ocasiões para exercer, como nunca, o aventureirismo tumultuário que culmina em seu peculiar “asilo” na embaixada brasileira.
Deixem-me ver se entendi bem. Zelaya tentou dar um golpe plebiscitário, mas sua ação foi “barrada” – isto é, ele caiu, perdeu o cargo (segundo a lei). E, diz o jornal, Micheletti assumiu segundo a previsão constitucional. Estamos diante de uma inovação jurídica formidável: mesmo não sendo mais presidente, o golpe acontece quando Zelaya é tirado do país! Ora, ninguém podia surrupiar de Zelaya o que o próprio jornal admite que ele já não tinha. Ora, se ele foi mesmo tirado do país à força, isso até pode ser ilegal, criminoso, o diabo a quatro, mas golpe não é. E, como se nota, o que era uma sucessão constitucional virou golpe de novo.

Que a imprensa esteja infiltrada de simpatizantes do bolivarianismo – mais por ignorância do que por ideologia -, disso não duvido. Mas reúne também muita gente sensata que está com medo de pensar; que se obriga a torcer os fatos para repetir o mantra: “golpe, golpistas…” Chamar Zelaya de presidente constitucional é, então, uma acinte.

Lula, com efeito, é “o Cara”. É o cara que fez correr sangue em Tegucigalpa. Com o apoio de boa parte da imprensa brasileira.

Depois de ter feito o seu discurso na ONU – aquele em que pediu a reinstalação de Zelaya no poder e o fim do embargo à tirania cubana -, Lula se encontrou e se deixou fotografar com Ahmadinejad, presidente do Irã. Fica para o próximo post.

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  1. Comentado por:

    Juca

    A via plebiscitária é ditatorial , porque a sondagem foi dirigida a intereses ideológicos de um grupo no poder.
    Façamos um plebiscito perguntando ao povo se impostos devem ser reduzidos à metade , SIM ou NÃO , o povo dira’ SIM , é claro, então seria DEMOCRÁTICO , qua qua qua .
    Plebiscito válido se for vencedor entre vários assuntos consultados previamente à população . Por exemplo , em dois turnos , a população escolhe no primeiro turno um tema entre pelo menos dez matérias relevantes indicadas pelo congresso , poder que está sendo bypassado , e no seguno turno faria-se o plebiscito ai sim democratico.

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  2. Comentado por:

    Gilberto Sampaio

    A imprensa escrita, principalmente a Folha e o Estadão, estão sendo sórdidos, ridiculamente obedientes à esquerdopatia. Mas não é surpresa. Isso já vem se desenhando há bastante tempo. Veja como eles já há alguns anos fazem uma lavagem latinoide em cima dos leitores. Ficam forçando dando destaques exagerados a tudo que se refere à América Espanhola, como se quisessem que o Brasil se subordinasse ao mundo hispânico. Quantas vezes não se viu uma sabujice – principalmente a argentinos – aos latinos nesses dois jornais? Faz parte da agenda esquerdopata, que eles seguem obedientes: transformar os brasileiros em caricaturas de latinos, escravos ideológicos ao mundo hispânico, assim é o gov. Lula.

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  3. Comentado por:

    Eliseu

    “golpe plebiscitário”, condenado pelo Congresso e BARRADO pela Corte Suprema.
    Desde quando consultar a população, ou seja, A DEMOCRACIA, é golpe ?
    GOLPE é quando um grupo de senvergonha tentam fazer ao contrário daquilo que o povo anestesiado ou não espera.
    Não é Congresso nem Corte suprema que decide quem vai governar e por quanto tempo, e sim o POVO.

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  4. Comentado por:

    Ygor Valeriano Cardoso

    O medo de pensar tomou conta de parte da imprensa brasileira, principalmente a que está ligada ao politicamente correto, o MST, a Cut e essas execrências que chamam de movimentos socias, cometem as maiores mazelas com o beneplácito das penas de aluguel.

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  5. Comentado por:

    anonimo

    agora mesmo vimos Lula falar: “o que há de errado num plebiscito? Nada, disse! O que eu sei é que ele é o presidente eleito!”
    Ora, não haveria nada se a Constituição não proibisse a mudança dessa cláusula pétrea da Constituição hondurenha.
    Lula falou essa bobagem toda e o casal JornalNacional sequer esclareceu o que a Constitução de Honduras determinava, embora um dos repórteres tenha dito em matéria.
    No Jornal Nacional é assim, primeiro – em notinha de pé de página – eles falam do que a Constituição estabelece, no caso o repórter; depois, como fecho do jornal, põem o Lula para falar, ou melhor, DESFALAR, o que foi falado em seu próprio jornal. Meia verdada ou uma mentira?

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  6. Comentado por:

    DEMOCRATA

    REINALDO
    O MESMO VEM ACONTECENDO TAMBÉM NAS ORGANIZAÇÕES GLOBO. ONTEM, O JORNAL DA GLOBO MOSTROU O COMENTÁRIO DO JABOR, E ELE, PASME, SE CONTRADIZIA A TODO MOMENTO. HOJE NO BOM DIA BRASIL, PUDE OBSERVAR QUE MIRÍAM LEITÃO TAMBÉM ESTAVA SOB PATRULHA, OU SEJA SE RECUSA A PENSAR NO QUE REALMENTE ESTÁ ACONTECENDO NA AMÉRICA LATRINA.

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  7. Comentado por:

    David

    Caro Rei,
    O petralha é muito coerente. Elogiou Fidel e pediu o retorno do golpista Zelaya. Esse é o cara.

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  8. Comentado por:

    Maurício

    Reinaldo
    A “Folha” já acabou há muito tempo. É uma pena ! Já foi um bom jornal. Hoje não é nem sombra do que foi. O editorial comentado demonstra que o jornal escolheu ficar “em cima do muro” quando o assunto interessa à quadrilha que governa o Brasil. Isto ocorre até mesmo quando se trata de liberdade e dignidade. Para não se comprometer, o jornal até faz apenas algumas concessões à verdade, mas sempre procurando não ficar mal com Lula e a canalha que o cerca. Peço a Deus que o povo hondurelho resista a criminosos como Lula e Chavez e a inúteis como Barak Obama.

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  9. Comentado por:

    Buenos Aires

    Não creio que seja puramente covardia, cooptação ou desinformação. Creio que a imprensa brasileira quer mesmo é que o circo pegue fogo lá em Honduras, que o governo de facto perca a cabeça e revide, para que renda bastante o assunto (guerra vende jornal, isso é fato).
    É só obter um pouquinho de poder e protagonismo, pronto, já atua feito cangaceiro na América Latina. E depois ainda tem coragem de falar do G W Bush. Não se pode dar asas a cobras mesmo.

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  10. Comentado por:

    Fernandez

    Raramente assisto estes tele jornais e quando o faço, vem a indagação: de que país estão falando? Não conheço este Brasil que eles apresentam.
    Até programas de jornalismo mais sérios só fazem entrevistas e debates com simpatizantes do governo que falam dos números do governo.
    Para ter informação de qualidade e opiniões isentas, tem-se que vir para a Internet, visitar a blogosfera e ler tudo o que puder.
    A grande imprensa não investiga e nem analisa, apenas cata uma notícia aqui e outra acolá e divulga.

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