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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Parceria PSDB-PT é inviável, afirma cientista político

Por Maurício Puls, na Folha: O cientista político André Singer, 50, diz que o PT se consolidou como partido do proletariado, e o PSDB, como partido da classe média. A polarização entre eles impede que o projeto de união entre petistas e tucanos articulado pelo governador Aécio Neves (PSDB) tenha êxito no plano nacional. Autor […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h40 - Publicado em 3 nov 2008, 06h17
Por Maurício Puls, na Folha:

O cientista político André Singer, 50, diz que o PT se consolidou como partido do proletariado, e o PSDB, como partido da classe média. A polarização entre eles impede que o projeto de união entre petistas e tucanos articulado pelo governador Aécio Neves (PSDB) tenha êxito no plano nacional. Autor de “Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro” (2000) e ex-porta-voz do presidente Lula, Singer diz que o PMDB não será o fiel da balança, mas o termômetro: “O PMDB vai se inclinar para onde o vento estiver soprando”.
Na entrevista a seguir, concedida na quarta, o professor do Departamento de Ciência Política da USP observa que o DEM se converteu em um partido auxiliar da candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência.

FOLHA – Sua tese destaca a importância da identificação ideológica para explicar o comportamento do eleitor. Mas, numa eleição local, o que distingue esquerda e direita?
Tanto Marta quanto Kassab prometiam construir hospitais, escolas…
ANDRÉ SINGER –
A campanha de São Paulo foi uma campanha pouco ideológica de parte dos grandes partidos, mas eu acredito que o corte ideológico está acontecendo por baixo das campanhas, no que diz respeito ao alinhamento do eleitorado: o eleitorado está se alinhando ideologicamente. A eleição revelou alinhamentos que antes não estavam postos da maneira como estão colocados hoje.

FOLHA – Quais são eles?
SINGER –
Existe uma consolidação do PT como o partido do proletariado, e do PSDB enquanto um partido da classe média. Esse é um alinhamento de natureza social que envolve aspectos ideológicos da maior importância, e que se revelou melhor na eleição de 2008, que, por ser local, não é puxada por candidatos nacionais. Ficou mais claro o perfil dos partidos.
O PT está se consolidando como um partido do proletariado. Se você olha para a Grande São Paulo, o PT perde na capital, que é um distrito eleitoral predominantemente de classe média, mas ganha na maioria das cidades do cinturão proletário de São Paulo -São Bernardo, Diadema, Osasco, Guarulhos. No Rio Grande do Sul, o PT perdeu em Porto Alegre, mas ganhou em Canoas; no Rio, o partido teve pouca expressão na capital, mas ganhou em Nova Iguaçu e Belford Roxo; em Minas, não disputou diretamente em Belo Horizonte, mas ganhou em Betim e Contagem.
Já o PSDB vai bem em Franca e São José dos Campos, que têm uma classe média forte. A grande capital que o PSDB ganhou foi Curitiba, típica cidade de classe média. A vitória dos Democratas em São Paulo é também uma vitória do PSDB.
Formalmente é uma vitória dos Democratas, porque Serra fez uma costura política muito arriscada que acabou dando certo e que colocou os Democratas como partido auxiliar do PSDB e particularmente da candidatura de Serra à Presidência.
(…)

FOLHA – Serra tem uma estratégia de confronto com o governo Lula, enquanto Aécio parece buscar uma candidatura de consenso. Mas, dada a polarização entre PT e PSDB, a opção de Aécio parece cada vez difícil.
SINGER –
Na eleição de 2008, Serra conseguiu dois trunfos.
Primeiro, conseguiu costurar uma aliança com o Democratas, que foi um dos problemas mais sérios que ele teve em 2002, quando afastou esse grupo da sua candidatura. Neste momento ele fez uma ponte com a ala direita da oposição, e isso aumenta o cacife dele numa região que ele não tinha. O segundo trunfo que ele conquistou foi uma aliança momentaneamente sólida com a seção paulista do PMDB -leia-se Orestes Quércia. Isso significa que ele não tem a maior parte do PMDB, mas tem uma parcela importante, significativa.
A distinção entre Serra e Aécio é muito interessante porque há uma espécie de inversão. Serra cresceu porque, tendo sido um homem de esquerda, sabe como fazer política social. Não é por acaso que o governo dele, e depois o de Kassab na cidade, deram continuidade às políticas sociais do PT. Essa foi uma das razões de sua vitória, porque ele soube somar o apoio natural que esse bloco tem junto à classe média com uma certa penetração nas camadas de menor renda. Por outro lado, Aécio, que sempre está dentro do espectro da oposição mais à direita do que o governador Serra, fez uma aliança mais à esquerda, com o PT.
O PT de Belo Horizonte fez uma opção que aponta para um possível caminho do PT -um caminho mais centrista. Por razões de como está estruturado o jogo político e ideológico no Brasil, não há nenhuma possibilidade de aliança nacional. E, porque ela não existe, esse experimento de Belo Horizonte é um experimento artificial. Essa característica artificial foi notada pelos eleitores, e por isso Marcio Lacerda teve dificuldades para ganhar no primeiro turno. É um arranjo de conveniências locais com alguma incidência sobre o jogo político nacional, mas que provavelmente não terá muita influência, a menos que Aécio decida sair do PSDB. O que considero muito pouco provável.

FOLHA – É improvável que ele saia candidato pelo PMDB?
SINGER –
Acho muito improvável porque me parece que, embora os políticos sejam muito flexíveis, os cortes sociais e ideológicos não são. Aécio sabe disso e sabe que ele terá um prejuízo muito grande saindo do PSDB. A disputa brasileira se dará, por muito tempo, entre dois grandes projetos representados pelo PT e pelo PSDB, que são projetos diferentes, embora eles tenham tentado aliança em Belo Horizonte, que a meu ver não deu certo. Creio que o que aconteceu em Belo Horizonte terá servido mais para Aécio se manter em evidência e participar do jogo numa condição em que, até por sua juventude, lhe permitirá ainda dar muitos passos pela frente e ser um personagem importante da política brasileira. Mas não saindo do PSDB.

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Comento

Interessante a tese de André Singer. Sobretudo se nos lembrarmos que o “PT proletário” fez a campanha mais cara do Brasil justamente em São Bernardo, a São Borja de Lula, onde ele pretende fazer o seu retiro. Ali, Luiz Marinho, o mais graúdo representante da nova classe social — a burguesa do capital alheio —, uniu-se a um cantor de forrós de duplo sentido, em que o ruim é sempre rebaixado por uma ambigüidade que o piora, para faturar a eleição. Há quatro anos, o atual prefeito, William Dib, do PSB, deu uma surra em Vicentinho logo no primeiro turno, com mais de 70%. Agora os “proletários” da cidade acordaram para a revolução do voto. E resolveram dormir na vizinha Santo André, onde o PT, que está na Prefeitura, sofreu um vexame.

Os raciocínios da maioria dos sociólogos são sempre muito interessantes porque as suas teses se sustentam desde que se descartem as evidências em contrário. Pesquisem aí: eu duvido que a renda média do ABC paulista — e podem tirar a rica São Caetano se quiserem — seja muito inferior à de São Paulo ou Rio. Deve estar entre as primeiras do Brasil.

Singer dá um nome de apelo histórico e sociológico — “proletários” — ao que, parece, merece um tratamento bem mais comezinho: sim, o poder dos sindicatos na região é grande, e a maioria deles é ligada á CUT, o que facilita o trabalho dos petistas. Para ser ter uma idéia, dirigentes da central é que gerenciaram a campanha de Marinho. Essa mistura “partido-sindicato-adminitração” é forte na região? Nem diga. A rigor, em qualquer distrito industrial. Ora, o que Singer chama “classe média” não é maior em São Paulo do que no rico ABC paulista.

O fato é que a realidade pode ser bem outra: venceram os prefeitos – ou seus aliados – que fizeram administrações aprovadas pela população e perderam aqueles que foram reprovados ou que não conseguiram evidenciar que poderiam fazer melhor. Eu até gosto da tese de Singer porque, se o PT abraçá-la, quebra a cara. No segundo turno, diga-se, os petistas ensaiaram um certo arranca-rabo de classes e se deram mal. Mas acho que o PT não vai topar. E a razão é simples: a leitura está errada. Esse papo de “PT-proletário X PSDB-classe média” é a leitura da esquerda petista, a um passo do “povo x antipovo”. A direção do partido sabe que só chegou ao poder quando abandonou essa abordagem e procurou diluir o conteúdo classista de seus apelos. Reitero: torço para que volte àquele discurso…

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