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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

“Para um cristão, os valores absolutos estão radicados em Deus e na própria visão da pessoa humana”

Na VEJA desta semana, Mario Sabino entrevista o padre jesuíta Gianpaolo Salvini. Um aula de serenidade e lucidez. Destaco alguns trechos. Leia a íntegra na revista impressa. * Aos 77 anos, o milanês Gianpaolo Salvini é um padre em que cairia bem a púrpura cardinalícia, não fosse ele um jesuíta — e, como integrante da […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h45 - Publicado em 3 mar 2013, 06h51

Na VEJA desta semana, Mario Sabino entrevista o padre jesuíta Gianpaolo Salvini. Um aula de serenidade e lucidez. Destaco alguns trechos. Leia a íntegra na revista impressa.
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Aos 77 anos, o milanês Gianpaolo Salvini é um padre em que cairia bem a púrpura cardinalícia, não fosse ele um jesuíta — e, como integrante da Companhia de Jesus, com pendor para a catequização e discussões intelectuais e teológicas mais amplas do que as travadas nos limites dos salões do Vaticano. Formado em filosofia e economia, ele cumpriu missões na América Latina e morou em Salvador, na Bahia. Durante 26 anos, Salvini foi diretor da revista La Civilità Catolica, publicada em Roma desde 1850. Fora do cargo por vontade própria, ele continua a assinar artigos para a revista e a ser interlocutor de altas autoridades italianas. Também é conselheiro do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz. Salvini concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Como o papa Bento XVI passará à história?
É difícil falar em história quando ainda estamos no território da crônica. Penso, contudo, que ficará a marca de um papa intelectualmente refinado, um dos maiores teólogos do nosso tempo. Um papa que se preocupou com a pureza da fé e da identidade cristã, num período em que se fortalece a tendência de equiparar as religiões — até com o surgimento de crenças “à Ia carte”, em que o indivíduo reúne elementos de crenças diferentes e os funde numa mistura frequentemente não compatível entre eles. Acho, também, que permanecerá viva na memória a sua capacidade de se fazer compreender por todos, em níveis que variavam de acordo com os ouvintes. Enfim, a sua grande afabilidade e quase ternura o fizeram muito amado na Itália, à exceção, talvez, de uma parte do mundo intelectual. Foi um papa cujo interesse principal, do ponto de vista teológico e afetivo, era — e é — a Igreja como instituição.
(…)
Uma maior internacionalização da Cúria Romana, o aparato burocrático do Vaticano, poderia ter evitado alguns dos graves problemas que causaram a renúncia do papa?
A internacionalização da Cúria é recomendável, já que falamos da Igreja Católica — ou seja, universal — e alguns continentes, como a América Latina, estão ainda sub-representados no Vaticano. Mas ela não resultaria automaticamente em maior rede de proteção contra os escândalos. Tudo depende dos homens escolhidos. Conheci africanos e asiáticos mais “romanos” que muitos prelados italianos. No entanto, é forçoso admitir que a presença de pessoas de culturas diferentes, selecionadas no mundo inteiro, talvez contribuísse para um maior controle recíproco.

Qual seria o perfil mais adequado do próximo papa, diante das atuais necessidades da Igreja?
(…)
Na minha opinião pessoal, acho que o próximo papa  precisaria  ter uma boa experiência pastoral e saber cercar-se de colaboradores honestos. Ele deveria saber falar ao nosso tempo, como bem fizeram os últimos pontífices, mas enfrentar concretamente alguns problemas que permanecem sem solução, apesar de muito mencionados pelos papas, em especial por Bento XVI. Cito a relação entre fé e ciência — que, no caso da bioética, parece subverter a própria concepção tradicional de homem e mulher —, a maior colegialidade no governo da Igreja, que não se opõe necessariamente à ideia do primado papal, e a questão das famílias, que se transformaram profundamente por causa de divórcios e novos casamentos. Isso para não falar da questão urgente sobre o papel das mulheres na Igreja. O novo papa tem o desafio de abordar tais assuntos sem perder a identidade cristã nem a coragem de propor um ideal de vida altíssimo — mas conciliando o trabalho pastoral com as dificuldades que as pessoas encontram no cotidiano.
(…)
O senhor acredita, como Bento XVI, que o relativismo é um dos grandes problemas do nosso tempo?
Existe um relativismo positivo, que nos ajuda a não cair na tentação de considerar nossas ideias e soluções definitivas. Mas, quando o relativismo passa a significar a perda de valores absolutos, que dão sentido à vida, ele adquire carga negativa e se transforma em problema num mundo em que os pontos de referência parecem perdidos. Obviamente, para um cristão, os valores absolutos estão radicados em Deus e na própria visão da pessoa humana.

O catolicismo tem um passado de 2000 anos. Quais seriam as condições para que ele tenha um futuro de outros dois milênios?
Acho que o catolicismo precisa, acima de tudo, ser fiel a si mesmo e a Deus — e, nessa fidelidade, procurar soluções para problemas que variam conforme a época. Para tanto, é necessário fazer as perguntas certas, o que é muitas vezes mais difícil do que encontrar respostas.
(…)

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