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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Os tucanos e o Bolsa Família. Ou: Os “menos médicos” do Mais Médicos. Ou ainda: Contraio os olhos por causa da miopia, não do excesso de certezas

Recebo aqui um arrazoado, um tantinho mais furioso do que seria o desejável, de um leitor tucano que pede, sei lá por quê, para que não seja publicado. Também não quer ver nome divulgado. Ok e ok. Não sei se tem algum cargo em alguma seção do PSDB. Se tiver, mal nenhum. Eu recuso ofensas […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h04 - Publicado em 1 nov 2013, 18h39

Recebo aqui um arrazoado, um tantinho mais furioso do que seria o desejável, de um leitor tucano que pede, sei lá por quê, para que não seja publicado. Também não quer ver nome divulgado. Ok e ok. Não sei se tem algum cargo em alguma seção do PSDB. Se tiver, mal nenhum. Eu recuso ofensas e supostos leitores que integram correntes de patrulhamento na Internet. Não é proibido ter opinião. Adiante. Está bravo comigo. Diz que critico, na Folha e aqui, a ausência de propostas do PSDB, mas observa que ignorei projeto de lei do senador Aécio Neves (MG), pré-candidato do partido à Presidência, que incorpora o Bolsa Família à LOAS (Lei Orgânica do Assistência Social). Ele me dá uma bronca: “Você vive cobrando a institucionalização de procedimentos; quando um tucano faz isso, você não reconhece? E se fosse o Serra?”.

Bem, começo ignorando a última pergunta. Enquanto tucanos insistirem nesse tipo de não argumento, não antevejo um bom futuro. Passo para a questão que realmente existe. A VEJA.com, site em que está hospedado meu blog, tratou do assunto. Eu, propriamente, não. Se o tivesse feito, é certo que alguns tucanos não teriam gostado, como não gostarão agora, do que vou escrever.

Se a proposta tem o mérito de acabar com a conversa mole de que este ou aquele, se eleitos, vão extinguir o programa (os petistas vivem fazendo terrorismo eleitoral) — e tem —, a ideia, como norte de política pública, não me agrada. O assistencialismo deixa de ser uma ação suplementar e passa a ser incorporado como um valor. Não gosto disso e dou graças a Deus por não disputar eleições — porque sei que não é uma tese muito popular.

Ocorre que os que escrevem sobre política — e não fazem política — não precisam defender ideias que contem com o assentimento de muitos. Tenho, ademais, algumas dúvidas se a medida é eficaz no que concerne ao embate político-eleitoral propriamente. Embora o Bolsa Família seja, como sabem os que sabem, não mais do que a reunião de programas que vigiam no governo FHC, o fato é que o PT é o criador da marca (não do programa), e não será difícil a Lula investir na contrapropaganda: “Agora estão tentando pegar o que é nosso…”.

Veja bem, meu caro tucano que não quer ter seu nome revelado, essa me parece ser uma agenda reativa, não ativa. É, reconheço, uma forma de fazer política que evita o confronto. É um jeito de ver as coisas. Como gostaria que o PT perdesse as eleições — algum segredo nisso? —, espero que os desdobramentos sejam positivos. Torço, em suma, para estar errado.

Menos médicos
Tenho cá pra mim, nas minhas “vertigens visionárias” (do tempo em que Caetano ficava “nu com a sua música”, em vez de vestir uma máscara de black bloc), que as opções políticas se conformam num balanço de afirmação e negação. E as duas coisas são necessárias. A pura negação é ressentimento e vira expressão de ódios. A pura afirmação vai tornando os atores políticos indistintos. Todos acabam falando uma espécie de linguagem do consenso, que, no fim das contas, não quer dizer muita coisa.

A Folha traz hoje uma uma reportagem de Flavia Foreque e Felipe Coutinho com uma informação que me parece muito grave. Reproduzo trecho (em vermelho):
Um grupo de 48 profissionais que já atua no Mais Médicos foi reprovado no Revalida, exame federal para reconhecer o diploma de medicina obtido no exterior. Eles estão entre os 681 selecionados para a primeira rodada do programa, criado pelo governo federal para enviar médicos para atuar na atenção básica prioritariamente no interior do país. No total, 1.440 candidatos formados no exterior não passaram para a segunda fase do Revalida. Desses, apenas os 48 que fazem parte do Mais Médicos poderão exercer a medicina, já que o programa não exige o reconhecimento do diploma de fora do Brasil. Essa é a principal polêmica envolvendo o programa. Os reprovados podem também exercer a profissão caso consigam validar o diploma em universidade com processo próprio de revalidação.
(…)

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É muito sério! O que se informa acima é que 7% dos 681 selecionados foram reprovados na tal prova. O número já é escandaloso, mas a coisa é certamente pior do que parece: segundo entendi, esse universo de 681 inclui diplomados no Brasil e no exterior. Que percentual representariam esses 48 se considerados apenas os diplomas oriundos de fora? O que a reportagem constatou é que, no grupo, APENAS UM foi aprovado na primeira fase da prova.

Há mais: entre os 1.140 candidatos que não passaram para a segunda fase do Revalida, só poderão exercer a medicina os que participarem do Mais Médicos. Ou por outra: a competência que não conseguiram demonstrar num exame específico lhes foi conferida cartorialmente pelo governo — DESDE QUE PARA ATENDER OS DESERDADOS DE BANÂNIA. Em último caso, há um certo dar de ombros: “Ah, para pobre, está bom assim…”. Ou ainda: “Para quem não tem nada, qualquer coisa serve…”.

Procurei nesta sexta uma reação do PSDB ou da dupla Eduardo Campos-Marina. Se existiu, não consegui encontrar em lugar nenhum. “VOCÊ É LOUCO, REINALDO? O MAIS MÉDICOS JÁ É UM PROGRAMA POPULAR. OUTRO DIA, NUM PROGRAMA JORNALÍSTICO DA GLOBO, OS MÉDICOS FORAM APLAUDIDOS!” Meninos, eu vi!

Não posso, no entanto, ignorar que já se inventou muita novidade em política, mas nenhuma que anulasse a necessidade de a situação exaltar os acertos e a oposição apontar os erros. Sem isso, fica difícil criar uma marca; fica quase impossível dar uma feição a uma candidatura.

Nessa minha perspectiva, incorporar o Bolsa Família à LOAS é, à diferença do que pensa aquele meu leitor meio furioso, bem menos eficaz, até para a educação política, do que chamar a atenção para o fato de que o governo Dilma está disposto a dar mais médicos para os brasileiros a qualquer custo, ainda que eles sejam, às vezes, “menos médicos” do que deveriam.

Mas fique tranquilo, amigo, torço mesmo para dar certo, se isso o conforta. Falo sério. Ocorre que o compromisso com os leitores do blog e da Folha é dizer o que penso. Ainda que os tempos andem um tanto hostis a essa prática.

PS – O missivista disse que me acha arrogante e reclamou até do fato de que, segundo ele, contraio os olhos quando falo, num sinal, assevera, de “desprezo pelo interlocutor”. Caramba!!! Quando me vejo em vídeo, até acho que arregalo os olhos demais… Fazer o quê? Em todo caso, informo: se contraio os olhos, meu caro, é por causa da miopia, não por causa das minhas certezas. 

 

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