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Os novos ditadores

Começo com uma provocaçãozinha: antigamente, os ditadores eram mais sinceros. Ou bem acatavam a democracia ou bem lhe davam um pé no traseiro. E eram raros os que procuravam fingir alguma forma de simpatia pelo regime democrático. Quando ficavam com o saco cheio de eleições, acabavam com elas. E pronto. Em muitos países africanos e […]

Começo com uma provocaçãozinha: antigamente, os ditadores eram mais sinceros. Ou bem acatavam a democracia ou bem lhe davam um pé no traseiro. E eram raros os que procuravam fingir alguma forma de simpatia pelo regime democrático. Quando ficavam com o saco cheio de eleições, acabavam com elas. E pronto. Em muitos países africanos e asiáticos ainda é assim. Nos comunistas, também não há essa frescura de eleições livres — os comunas gostam de liberdade eleitoral onde ainda não são poder.

Hoje em dia, vemos a notável desfaçatez com que líderes da América Latina que nascem populistas avançam depressa para a tentativa de consolidar ditaduras: Chávez na Venezuela; Rafael Correa no Equador; Evo Morales na Bolívia. Mas não é um mal só deste continente. Vejam lá a Rússia de Putin — naquele caso, um misto de nacionalismo com a inequívoca cara do velho estado soviético, só que agora adaptado ao molde de mercado.Também o novo czar russo manobrou o aparato democrático para lhe dar uma vitória que corresponde a nada menos de 80% da Duma (considerados dois partidecos que o apóiam).

Não podendo se reeleger como presidente — se é que não vai mesmo tentar mudar a Constituição —. Putin organizou uma máquina eleitoral que vai lhe garantir o cargo de primeiro-ministro e lhe dá condições de “eleger” o seu substituto na Presidência. A rigor, prepara-se para se eternizar no poder. E sem dar um tiro — ao menos nesse caso. Imaginem uma Chechênia anti-russa votando no partido do “czar” com uma maioria superior a 99% dos votos!!! As evidências de fraude são escandalosas. Mas quem se atreve a contestar o novo ditador?

Vivemos dias um tanto bárbaros. Os países nos quais a democracia está realmente consolidada e onde ninguém ousa questionar os seus princípios — EUA, Japão e aqueles antes chamados de Europa Ocidental — vivem as suas próprias crises: ou de ameaça de recessão (no caso dos EUA) ou de baixo crescimento (no caso dos outros) e, curiosamente, dependem da estabilidade desse mundo periférico. Há muito está combinado que não se vai cobrar democracia à China — este um caso escandaloso de ditadura. E também não se vai bulir com a Rússia.

Mesmo nos países antes sob a chamada influência americana, testam-se formulas particulares de democracia, como se o regime fosse uma obra aberta, que pudesse ir perdendo características essenciais sem, no entanto, jamais deixar de ser democracia. Chávez foi derrotado no referendo, é verdade, mas que se note: ainda tem poder para fazer, por meio de decreto, boa parte do que queria fazer por meio da nova Constituição. Uma parte ao menos da oposição que enfrenta nasce de desgarrados do próprio chavismo, para os quais a democracia não tem a menor importância.

Mesmo no Brasil, a tentação existiu e existe. Está aí o PT a debater a tal “constituinte” para fazer a reforma política. Do nada, a questão do terceiro mandato de Lula se impôs ao processo político. Rejeitado pela maioria dos brasileiros, tentou-se jogar o “boato”, imaginem vocês, no colo das oposições. Estas, por sua vez, ao menor sinal de convicção, são logo tachadas de golpistas, sonegadoras e inimigas do Brasil. E quem o faz é justamente uma máquina partidária que não pretende se desgarrar do estado, ainda que perca as eleições.

A principal característica dos novos ditadores é rejeitar os instrumentos a que recorriam as ditaduras. Ao contrário: precisam do concurso das urnas e do endosso das maiorias para construir suas tiranias. E nem se ocupam de incendiar o Reichstag ou de marchar sobre Roma. O seu trabalho consiste em ir desmoralizando as instituições e mudando-as um pouco por dia.

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