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O silêncio de Dilma é a sinfonia que se propaga no vácuo da política

O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva aviltou de tal modo o decoro da Presidência da República, inclusive e muito especialmente para fazer a sua sucessora, que, agora, o simples fato de ELA não ser ELE confere à atual mandatária uma aura de superior delicadeza com as instituições. Se Lula estava sempre pronto a […]

O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva aviltou de tal modo o decoro da Presidência da República, inclusive e muito especialmente para fazer a sua sucessora, que, agora, o simples fato de ELA não ser ELE confere à atual mandatária uma aura de superior delicadeza com as instituições. Se Lula estava sempre pronto a proferir um impropério qualquer contra a lógica, a história, a ciência e até a boa educação, Dilma faz de seu silêncio uma melodia que desafia as leis da física do poder e se propaga no vácuo da política. A estratégia marqueteira para criar a rainha da Inglaterra está, sem dúvida, dando certo. Dona Dilma Primeira, a Muda, é muito elogiada por todas as coisas que não diz. Não deixa de ser um feito notável. Candidata beneficiária da bravata, da bazófia e da mistificação buliçosas e altissonantes, a agora presidente se beneficia do mutismo.

Mas ela também fala de vez em quando, como fez ontem no Congresso. E como! Um discurso enorme (íntegra aqui), sobre o qual já escrevi alguns posts. E o que foi que ela disse de relevante? Nada! O que se viu ali foi um desfile de intenções, sem eixo nem prioridade. Parecia estar disputando eleições. Ontem, jornais na televisão estampavam em caracteres na tela: “Dilma promete política para o salário mínimo”. Errado! A política já existe. Ela defendeu a sua manutenção. E disparou generalidades sobre áreas da administração. Parece que o redator do discurso pegou a lista dos ministérios e decidiu falar um pouco sobre tudo. A mensagem não tem eixo. Se todos aqueles temas são prioritários, então nenhum é, daí a expressão, que tem a sua graça, a que ela recorreu: “prioridade central” (é a educação). Ok.  Deve ser aquela cercada de “prioridades periféricas”…

Há trechos na fala um tanto espantosos porque iluminam o passado recente, o presente e o futuro e dizem muito sobre Dilma, sobre o governo de que ela foi a gerentona e de que é agora comandante, sobre as oposições e até sobre a imprensa que cobre política. Com a tranqüilidade soberana de quem dissesse “hoje é quarta-feira”, Dilma anunciou que, “no Programa Minha Casa, Minha Vida, está prevista a construção de 2 milhões de novas habitações, até 2014, envolvendo investimento de R$ 278,2 bilhões.” Rigorosamente a mesma promessa feita durante a campanha eleitoral. Do primeiro milhão, o governo  só entregou 15%. Assim, até 2014, a tarefa é construir os dois milhões da promessa eleitoral mais as 850 mil que ainda não saíram do papel.

No caso das UPAs, e já escrevi a respeito (aqui), chega-se ao paroxismo da parolagem. A presidente simplesmente cortou 50% das mil que haviam sido prometidas até 2014 (leia post). Das 500 com as quais Lula havia acenado até 2010, foram entregues apenas… 91! E Dilma passou o facão sem constrangimento, naquele tom suavemente altivo que a nossa monarca está desenvolvendo.

Reformas
A imprensa deu bastante destaque às tais reformas — falo dos sites; não li ainda os jornais enquanto escrevo —, mas basta ver o peso que a questão teve no discurso como um todo para constatar que não se trata exatamente de “prioridade central” (?). Dadas as 3060 palavras, 2766 precederam a expressão “reforma política”, que veio acompanhada de “reforma tributária”. É bem possível que o governo ensaie propostas para os dois temas. Tudo vai depender do andamento do jogo. Se for só para dar um palanque para a oposição, por que Dilma o faria para valer? Reclamo da sociedade? Convenham: se as oposições esperam esse debate para ter uma bandeira, estão realmente perdidas. Nas ruas, só se fala de outra coisa. Ademais, não cumpre reclamar que o governo “não tem proposta”. A oposição tem?

Dilma mandou sua “mensagem”. Agora pode voltar a seu silêncio decoroso, que a tantos tem encantado, experimentando o gosto de governar sem oposição. Trabalho quem dá é o PMDB do deputado Eduardo Cunha (RJ). Numa entrevista publicada ontem no Estadão, um dos principais (!) parlamentares da base aliada chamou o partido da “presidenta” de ladrão.

Mera briga de companheiros de jornada, de sócios de empreitada. Eu acredito em tudo o que um diz do outro…

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