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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

O que o senador Suplicy não escreveu e o que escreveu

Pois é… Dizem que pego no pé do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Bobagem! Eu não pego no pé de ninguém. Digo o que penso — pode acontecer, às vezes, de ser até a favor… “Mas nunca a favor da esquerda, né?” Huuummm… Vamos ver. Dilma é de esquerda? Ela assina a MP dos Portos, por […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h47 - Publicado em 26 fev 2013, 21h48

Pois é… Dizem que pego no pé do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Bobagem! Eu não pego no pé de ninguém. Digo o que penso — pode acontecer, às vezes, de ser até a favor… “Mas nunca a favor da esquerda, né?” Huuummm… Vamos ver. Dilma é de esquerda? Ela assina a MP dos Portos, por exemplo. Eu sou favorável. A favor de Dilma e da esquerda? Não! Da MP dos Portos, que privilegia a eficiência. Sigamos.

Recebi aqui uma mensagem atribuída ao senador Suplicy que desancava Yoani Sánchez em termos que me pareciam inaceitáveis. Eu discordo, e já deixei isso claro, da sua abordagem sobre a blogueira, mas entendi que ele jamais teria escrito aquele troço, que me pareceu indigno. Fosse de sua lavra, eu teria, com a velocidade de uma metáfora, avançado no pescoço dele.

Liguei pra ele para tirar a dúvida. Tudo tinha sido uma confusão. O jornal “O Dia”, do Rio, segundo ele me disse (e está lá no site), havia pedido a ele um pequeno texto sobre a visita da blogueira cubana. E fez a mesma encomenda a alguém muito mais à  sua esquerda —  o autor, então, das indignidades. Nota à margem: é a forma que a pluralidade toma nos nossos dias: esquerda X extrema esquerda. Que coisa! Adiante.

O jornal fez besteira e atribuiu ao senador o texto que não era dele. Assim, ofensas a Yoani que circulam na rede, atribuídas a Suplicy, não são de sua autoria. O texto do parlamentar petista é o que segue em vermelho. Leiam. Volto depois.
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A visita de Yoani Sánchez ao Brasil, como resultado da nova Lei de Migrações de Cuba, poderá se constituir num sinal muito importante para que o presidente Barack Obama caminhe para encerrar o embargo à ilha e enfim fechar a Prisão de Guantánamo. Eis por que considero erro grave as ofensas contra ela na passagem por Recife, Salvador, Feira de Santana, Brasília e São Paulo, não tanto no Rio, com a finalidade de impedir que expressasse seu ponto de vista sobre o que se passa em Cuba.

Enquanto alguns manifestantes tentavam impedir que ela falasse para número muito maior de pessoas que queriam ouvi-la, fazendo com que a visita acabasse tendo muito mais repercussão, ela o fez com tranquilidade, sem jamais ofender. Rebateu a denúncia de que seria gente da CIA, pois de outro modo nem poderia andar normalmente em Cuba. Explicou que sua viagem foi paga pelos que quiseram ouvir seu testemunho.

Para todos, como eu, que participamos da fundação do PT e que desde o início defendemos uma sociedade justa e com direitos à cidadania para todos, é fundamental que digamos aos amigos cubanos que lá se lute por democracia e liberdade de expressão. Ao ler as crônicas de Yoani sobre o cotidiano em Cuba, sobre o que se passa com o fornecimento de produtos e serviços ou, no campo cultura, observo que as suas críticas são muito menos ferinas do que os discursos que diariamente escuto os senadores da oposição no Brasil.

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Yoani foi convidada a visitar os EUA. Será a oportunidade para que Barack Obama e os congressistas possam ouvir os argumentos expressos por Yoani de por que não faz mais sentido continuar o embargo.

Senador pelo PT-SP

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Há coisas certas no texto, como a defesa da liberdade de expressão. E há coisas muito erradas. A visita de Yoani não guarda qualquer relação com a questão do embargo ou o fechamento da prisão de Guantánamo. Certamente sem querer,  o senador afirmou que considera um “erro grave” as ofensas a ela dirigidas porque, entende-se, ela seria uma espécie de símbolo ou porta-voz de ideias boas e/ou progressistas. Eu estou entre aqueles que acreditam que devem ter direito de falar mesmo as pessoas de cujas ideias discordamos.  O senador deve conhecer o que disse Rosa Luxemburgo quando percebeu que Lênin (sim, com o apoio de Trotsky) iria passar o trator sobre os que divergiam dele, ainda que favoráveis à revolução: “Liberdade é, apenas e exclusivamente, a liberdade dos que pensam de modo diferente”. Assim, ainda que Yoani viesse aqui defender o embargo, deveria ter sido ouvida com respeito. E, se fosse o caso, contestada.

Também não é verdade que as dificuldades de abastecimento vividas pelo povo cubano guardem relação com o embargo. Hoje, ele é mera questão simbólica. Cuba pode importar papel higiênico do Brasil se quiser, para ficar num exemplo abaixo da linha de cintura do prosaico, e os EUA nada poderiam fazer. O ponto é outro. Se o embargo acabar amanhã e persistir o modelo político e econômico em curso, nada muda na vida de ninguém.

“Pô, Reinaldo, por que você não critica a outra opinião, aquela que não era de Suplicy,  da qual você discorda na totalidade?” Porque não passa de um delírio estúpido, que justifica as violências de que ela foi vítima. Espantoso é que a grande imprensa dê curso a teses que tentam transformar manifestações fascistas em atos aceitáveis.

Está aí. Ajudei o senador a se livrar de absurdos que não escreveu e contestei parte do que ele de fato escreveu e falou. Nessa madrugada, fiz isso com FHC. É assim que as coisas funcionam na democracia.

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