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O Ibope cometeu erros monumentais e, até agora, não se explicou. Será que o eleitor é o culpado por suas falhas?

O Datafolha está para divulgar a sua pesquisa eleitoral sobre São Paulo. Vai referendar a do Ibope? Haverá diferenças significativas? Não sei. Nesta quarta, escrevi um pequeno post sobre os números do mais recente levantamento desse segundo instituto. E claro que há lá algumas notas de ironia. “Ah, quando o cara não gosta do resultado, […]

O Datafolha está para divulgar a sua pesquisa eleitoral sobre São Paulo. Vai referendar a do Ibope? Haverá diferenças significativas? Não sei. Nesta quarta, escrevi um pequeno post sobre os números do mais recente levantamento desse segundo instituto. E claro que há lá algumas notas de ironia. “Ah, quando o cara não gosta do resultado, sempre desconfia…” Ok. Não gostei. Sou transparente com os meus leitores. Faz parte do nosso compromisso e do nosso acordo. Digamos que um pouco da minha desconfiança decorra do meu gosto. Mas vamos chamar aquela Senhora a quem frequentemente convoco: a Dona Lógica! O meu gosto ou o meu desgosto mudam os números, mudam os fatos, tornam acertos os erros do Ibope, até agora sem explicação? O máximo que li foi um muxoxo culpando o eleitor. Já fiz esta comparação aqui: é como o médico que, incapaz de fazer um diagnóstico, responsabiliza o doente por sua incompetência.

Vamos ver. Em São Paulo, o erro foi grande. O Ibope apontou um triplo empate com 26% dos votos válidos. Celso Russomanno (PRB) ficou com 21,6%; Fernando Haddad (PT), com 28,98%, e José Serra (PSDB), com 30,75% dos válidos.

Em São Paulo, o erro foi importante, sim, mas não foi o mais vexaminoso. Em Manaus, os números são escandalosos. O Ibope apontou um empate entre Arthur Virgílio (34%), do PSDB, e Vanessa Grazziotin (32%), do PCdob. Empate? Vejam o que de fato aconteceu. Atenção: neste e nos demais quadros, aqueles pequenos números que aparecem no alto da barra lilás indicam a margem de erro superior e inferior do Ibope; os que aparecem na parte de baixo, o que foi apurado pelo instituto. Os números no alto da barra marrom são os das urnas.

A margem de erro era de três pontos para mais ou para menos. O Ibope não acertou nem o terceiro colocado. A comunista teve nove pontos a menos do mínimo que lhe atribuía o instituto. Virgílio teve 3,55 a mais do que o máximo. Havia uma diferença de 20,6 pontos onde o Ibope dizia haver… dois! O erro beneficiava, objetivamente, a candidata apoiada pelo Planalto e pelo petismo.  

A lambança em Salvador também foi gigantesca. Segundo o Ibope, o petista Nelson Pelegrino teria 43% das intenções de voto — podendo, então, variar de 40% a 46%, segundo a margem de erro. Ele obteve 39,73% — abaixo da margem mínima. ACM Neto, do DEM, aparecia no Ibope com 36% — e, pois, poderia ter entre 33% e 39%, mas ficou com 40,17%, mais de um ponto acima da margem máxima. Aí dirá alguém: “Pô, Reinaldo, só um ponto distante das margens…”. Pois é! Só que o petista ficou um ponto abaixo da mínima, e o democrata, um ponto acima da máxima, de sorte que a diferença que o Ibope apontou, de 7 pontos a favor de Pelegrino, era mesmo de 0,44 ponto a favor de Neto. O erro do Ibope foi, pois, de 7,44 pontos!

Também se viu o fiasco do instituto em Porto Alegre. José Fortunatti (PDT) teria, dizia a pesquisa, no máximo, 60% dos votos. Ele ficou com 65,22%. Já a comunista do Brasil, Manuela Dávila, teria um mínimo de 28%. Ela obteve nas urnas apenas 17,76%

Em Recife, o Ibope ficou na margem de erro no primeiro colocado, Geraldo Júlio (PSB), e no terceiro, Humberto Costa (PT). Mas errou no caso do tucano Daniel Coelho: seu máximo seria de 27%, e ele ficou com 27,65%.

Outro erro em Curitiba. Ratinho Júnior teria um mínimo de 35 pontos, mas ele ficou com 34,09%. Gustavo Fruet (PDT), que aparecia com um máximo de 24, conseguiu, de fato, 27,22% e foi para o segundo turno, onde, segundo o Ibope, estaria Luciano Duci.

Erro também houve em Natal. Carlos Eduardo, do PDT, teria, no mínimo, 48%, mas a realidade era bem outra: ficou com 40,42%. O Ibope ficou na margem de erro no segundo colocado: Hermano Morais, do PMDB. Mas voltou a errar no terceiro: Fernando Mineiro, do PT, aparecia com um máximo de 18%, mas ficou com 22,63%.

Em Cuiabá, erro de novo: Lúdio Cabral, do PT, deveria ter um mínimo de 44%, mas ficou com 42,27%. Já Mauro Mendes, do PSB, ficou na margem de erro, com 43,96%. Mas notem que, no Ibope, o petista tinha uma vantagem de 8 pontos sobre o oponente; de fato, ficou 1,69 ponto atrás.

Encerro
“O que isso quer dizer, Reinaldo? Que Serra está na frente e vai ganhar de Haddad?” Tomara que assim seja, mas não é o que estou afirmando. Estou demonstrando que o Ibope — e não é o único — pode cometer enganos monumentais. E estou também a dizer que esses erros não são irrelevantes.

É claro que eles interferem no jogo eleitoral. Podem mudar a decisão de muitos eleitores? É possível, mas não há dados objetivos a respeito. Uma coisa é certa: interferem nas campanhas, perturbam o planejamento dos partidos, bagunçam o coreto da arrecadação legal de recursos etc. “Então vamos proibir as pesquisas?” Não! Mas está mais do que na hora de pensar num disciplinamento, que nada tem a ver com censura à informação. Até porque é fato que a área já foi infiltrada pelo banditismo e pela pistolagem político-eleitoreira.

Mais: temo, adicionalmente, que erros ou “erros” de um instituto acabem induzindo o erro ou o “erro” de outros…

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