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O CÂNCER NO PALANQUE: UM “CASE” DE COMUNICAÇÃO

É evidente que esse carnaval todo com a saúde de Dilma Rousseff não foi planejado como conspiração — “A gente inventa um câncer pra ela”. A ministra, efetivamente, tem a doença, ninguém sabe ao certo com que grau de gravidade (espero que pequeno), e terá de fazer um tratamento. Mantenho algumas ortodoxias, que petistas talvez […]

É evidente que esse carnaval todo com a saúde de Dilma Rousseff não foi planejado como conspiração — “A gente inventa um câncer pra ela”. A ministra, efetivamente, tem a doença, ninguém sabe ao certo com que grau de gravidade (espero que pequeno), e terá de fazer um tratamento. Mantenho algumas ortodoxias, que petistas talvez considerem conservadoras, antiquadas até, mas continuo a considerar que não ter câncer ainda é melhor do que ter. Continuo a torcer para que ela esteja realmente curada e continuo a achar a exploração política do caso de “mau gosto” (apud Serra e Dilma).

Pois bem. As acidentalidades ou espontaneidades acabam aí. A partir daquela entrevista coletiva de sábado, já estávamos no terreno do marketing político, e era ele a explicar a presença ostensiva de Franklin Martins no hospital Sírio-Libanês. Ainda ali, vá lá, fez-se uma abordagem serena do caso, embora um tanto longa, mas aceitável se considerarmos que uma simples nota oficial poderia alimentar as mais variadas especulações. Ocorre que era a primeira etapa de um “case” de comunicação social, de que o próprio vazamento, tudo indica, foi o passo inicial. Tendo sido ou não, a obrigação de quem tinha a notícia, o “furo”, era publicá-lo, é claro.

Começava, assim, um espetáculo midiático, de que o governo está absolutamente no controle, sobre como faturar politicamente com um fato desagradável, que diz respeito à vida privada. Os petistas nem são neófitos nisso. Eventos da biografia de Lula já foram bastante romantizados. A doença, percebeu-se depressa, conferia a Dilma uma qualidade de que sua imagem pública é um tanto carente: aquela aparente humanidade bonachona e compassiva de que o Apedeuta é um emblema. Digo que é “aparente” porque pobre daquele que “O Cara” resolver demonizar em palanque. Lula é muito mais um homem inteligente do que um homem bom. Mas o povo não sabe disso.

Faltavam a Dilma qualidades de, digamos assim, “mãe dos pobres” — assim como Lula é o pai. Ela era tão-somente a mãe do PAC, algo muito impessoal, frio, que não vinha rendendo os necessários dividendos eleitorais. Ninguém inventou uma doença para Dilma — isso é uma bobagem. A invenção é outra. Trata-se de uma personagem: UMA MULHER DOENTE, CURADA PELA CORAGEM. Essa é a peça publicitária, sobre a qual os próprios petistas falam com destemor; mais do que isso: tratam do assunto com uma falta de vergonha que é muito característica.

Não há nada de conspiratório nisso, não. As teorias conspiratórias nunca têm base factual; alimentam-se justamente da falta de provas. Nesse caso, as provas estão todas aí: na fala de Lula, pedindo oração ao povo; na fala de Fernando Haddad, afirmando que ela sairá ganhando com isso; na fala de Marco Aurélio Garcia, quem mais pensou explicitamente os lucros eleitorais; na fala da própria Dilma, que tem aproveitado o “carinho” do povo para fazer digressões generalistas sobre a “generosidade” e o “carinho” do brasileiro. Nesse conjunto, nada há de acidental, nada há de espontâneo. São decisões que levam em conta informações, vamos dizer, científicas sobre o comportamento da sociedade.

Neguei aqui, algumas vezes, a chamada “humanização pelo sofrimento” ou o “sofrimento como fonte de revelação”. Apanhei de todo lado. Muita gente gosta dessa idéia e a toma como um dos núcleos do cristianismo (“Você, cristão, negar isso…”) etc. Ora, o que neguei é esse marketing do sofrimento. Cada homem sabe o mal ou os males que estreita no peito, que o levam à angústia. Essa experiência, que pode conduzir ao amadurecimento e a um entendimento elevado da vida — desde que não se perca no caminho — é absolutamente individual, dispensa esse circo de horrores das disputas políticas, essa exposição em praça pública. Dilma continua a ser quem era. E o que quer que possa eventualmente melhorar em razão da doença, creio, não serve ao consumo político.

Muitos hão de elogiar a competência e o pragmatismo com que se fez do limão uma limonada. Cada um na sua, não é? Dado o meu universo de referências, acho que o trato político-publicitário da doença é só um mergulho no vale-tudo para ganhar a eleição. Mais um. Para esses valentes, não há territórios interditados na disputa pelo poder. Em 2002, Lula chorou diante das câmeras de Duda Mendonça ao falar da morte da primeira mulher. O choro, naquele caso, não diferia em nada das lágrimas de um ator, que, muitas vezes, recorre mesmo à memória emotiva para conferir verossimilhança à cena e comover a platéia. A desfaçatez com que os petistas exploram a doença de Dilma, a começar de Lula e da própria ministra, só não nos impressiona mais porque acabamos, no fim das contas, comparando os petistas consigo mesmos.

Nessa ética muito particular que o partido desenvolveu, um petista sempre estimulará o outro a dar o próximo passo. Sim, eles sempre podem ir um pouco mais longe. E a campanha, oficialmente, ainda nem começou.
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