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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

O assassinato do coronel — Pode ter sido a extrema-direita? Pode! Mas por que não a extrema-esquerda? O que eu acho? Crime comum!

Já escrevi brevemente a respeito, mas volto ao ponto. O coronel Paulo Malhães, 76, que confessou ter torturado pessoas — e, a meu juízo, fantasiou um pouco, mas não entro no mérito agora —, foi morto. A chácara em que morava foi invadida. Algumas coisas foram roubadas, inclusive dois computadores. Fala-se abertamente em queima de […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 15 fev 2017, 09h18 - Publicado em 26 abr 2014, 07h28

Já escrevi brevemente a respeito, mas volto ao ponto. O coronel Paulo Malhães, 76, que confessou ter torturado pessoas — e, a meu juízo, fantasiou um pouco, mas não entro no mérito agora —, foi morto. A chácara em que morava foi invadida. Algumas coisas foram roubadas, inclusive dois computadores. Fala-se abertamente em queima de arquivo. Acho essa hipótese tão plausível como a de vingança de grupos de extrema-esquerda. Vale dizer: as duas coisas me parecem… implausíveis.

Então haveria ainda um grupo ativo, organizado e operacional o bastante para praticar esse tipo de coisa? Que se investigue tudo, mas a hipótese me parece fantasiosa. Convenham: se considerarmos os grupos ativos nos chamados anos de chumbo, mais organizados, hoje em dia, estão os ex-extremistas de esquerda — alguns deles no poder — do que os que participaram da repressão, não é mesmo? “Ah, mas só extremistas de direita fariam isso; os de esquerda nunca!” Epa! Aí, não!

De resto, eventuais remanescentes da repressão matariam o coronel por quê? Ele não entregou nomes. Quando tratou do mérito da tortura, fez raciocínios horripilantes e muito pragmáticos sobre a “eficiência” do método. “Ah, mas levaram os computadores; pode ser que houvesse informações lá…” Se ele estivesse interessado em fazer alguma delação depois de morto, creio que tinha experiência o bastante para entregar o arquivo a alguém. Matá-lo, então, seria uma burrice porque apressaria a divulgação — o meu raciocínio é puramente lógico.

Mais: considerando os que participaram da linha de frente da repressão ilegal, bem poucos restam vivos, não é mesmo? Quantos poderiam ser prejudicados se ele falasse? Se a intenção fosse espalhar o terror e se esse grupo é organizado a ponto de planejar assassinatos, uma advertência mais clara seria atacar algum familiar próximo, não o próprio coronel. Pergunto ainda: então esse grupo seria operante e violento o bastante para eliminar um dos seus, mas não para atacar militantes de esquerda?

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Ora, se é o caso de entrar em conjecturas, posso inferir, por exemplo, que extremistas de esquerda que ainda estão por aí sabem que dificilmente haverá a revisão da Lei da Anistia. Mais: há muita gente descontente com a baixa voltagem desse tema. A população nem sequer sabe exatamente o que é essa tal Comissão da Verdade. Por que não, então, matar o coronel, já que a hipótese da queima de arquivo será a mais influente? Por que não criar um evento para demonstrar que os “inimigos” ainda estão entre nós?

Se eu fosse obrigado a fazer uma escolha, diria que a possibilidade de ser uma vingança da esquerda é maior porque faria mais sentido. Mas, de fato, acho que Malhães foi apenas vítima de bandidos comuns. Sua morte pode até estar relacionada ao depoimento que deu, mas de outra maneira. Ninguém sabia da sua existência. Levado para aquele banco oficioso dos réus, tornou-se uma figura nacionalmente conhecida. Dadas as suas vinculações com o antigo regime, podem ter imaginado uma figura ainda poderosa, eventualmente endinheirada — não parece que fosse o caso, considerando o lugar em que morava.

Nem tudo o que vem antes é causa do que acontece depois. Mas não vou tentar convencer ninguém. A hipótese da queima de arquivo é sedutora demais, não é mesmo? Tem mais cara de roteiro de filme policial. “E se você estiver errado, Reinaldo?” Sempre estou preparado para essa possibilidade.

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