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O acordo, a ocupação pacífica do Complexo do Alemão e o futuro

Como vocês estão cansados de saber a esta altura, a polícia entrou no Complexo do Alemão praticamente sem resistência. Bandido é bandido, mas não é burro. Resistir ao aparato que reúne PM (Bope), PF e Forças Armadas seria suicídio coletivo. Muita droga foi apreendida. Não se sabe ao certo o número de presos até agora, […]

Como vocês estão cansados de saber a esta altura, a polícia entrou no Complexo do Alemão praticamente sem resistência. Bandido é bandido, mas não é burro. Resistir ao aparato que reúne PM (Bope), PF e Forças Armadas seria suicídio coletivo. Muita droga foi apreendida. Não se sabe ao certo o número de presos até agora, mas não são muitos. Também é pequena a apreensão de armas, dado o arsenal já exibido pelos bandidos. A ocupação não rende um filme de ação, algo como Tropa de Elite 3. Acabou sendo chocha. Melhor assim em certo sentido. Do contrário, haveria muitas mortes: de bandidos, de militares e também de moradores. Depois de cantar o Hino Nacional, o Hino da Proclamação da República, o Hino à Bandeira e o Hino da Independência, a gente pode começar a pensar.

Esse desdobramento não é acidental. Desde o cerco ao complexo, as forças de segurança negociam com a bandidagem. O, como é mesmo?, “mediador social” (ou coisa assim) José Júnior, da ONG AfroReggae, foi uma das pessoas que fizeram o meio-de-campo. A “ocupação” só foi decidida depois de um acordo. Ficou estabelecido que as forças de segurança “invadiriam” a área sem resistência. Os bandidos ofereceram a passividade, e o Estado lhes deu o direito de tentar fugir. A região é gigantesca. Bem poucos trazem estampado no corpo a marca “sou bandido”, a exemplo de um tal Leandro Sedano, 20 anos. Ele mandou tatuar três vezes o nome de “Fernandinho Bera Mar” (sic) nos braços; numa das mãos, um folha de maconha; nas costas, a expressão “eu cheiro”. Ou seja: Leandro é um Zé Mané. O tráfico não confiaria a ele um papelote de cocaína para vender – ele cheiraria o pó… A polícia não tem o retrato de todos os traficantes, e ninguém  pode ser preso se estiver em casa, assistindo ao confronto Corinthians X Fluminense…

É claro que era preciso ocupar o Complexo do Alemão — aliás, é preciso levar Estado a todas as favelas do Rio. No que concerne à entrada no morro propriamente, o certo é isso que se vem fazendo agora, não o que se vinha fazendo antes. Essa política é, sim, desdobramento da anterior (aquela que não prendia ninguém), mas pelo avesso. As conseqüências negativas da escolha anterior forçaram a ação de emergência — embora esperada há pelo menos 20 anos pelos trabalhadores, que são reféns do narcotráfico, e pelo conjunto dos cariocas, que não suportavam mais ter sua rotina abalada pelos traficantes. Pensando a coisa toda só por suas conseqüências, talvez se possa dizer que há males que vêm para bem — se vierem. O que quero dizer?

Feita a ocupação, é preciso fazer o trabalho de investigação para prender os traficantes, O QUE NÃO FOI FEITO ATÉ AGORA NAS 13 FAVELAS PACIFICADAS. Em 11 delas, o tráfico opera normalmente. Mudou a logística, mudou o comportamento dos traficantes, direitos mínimos são garantidos pela Polícia, mas o comércio do bagulho segue normalmente. Soldados do tráfico, tornados desnecessários nas favelas aonde chegaram as UPPs, haviam se deslocado para as favelas nas quais a polícia ainda não está presente.

Pedem que, nos meus textos, eu dê tempo ao tempo. Ora, claro que sim! Só estou chamando a atenção para uma evidência: caso se repita no Alemão o que aconteceu nas 13 favelas já “pacificadas”, o tráfico será “civilizado”, e quase ninguém será preso, com uma apreensão de armas pequena, dado o arsenal da bandidagem. E a isso não se pode chamar exatamente “combater” o tráfico.

Fala-se na apreensão de até 20 toneladas de maconha só no Alemão! É um troço fabuloso! Dado o andar anterior da carruagem, toda essa mercadoria logo seria posta para circular, financiando esse ramo da economia que, estima-se, emprega 16 mil pessoas só no Rio de Janeiro. Como se nota, estavam certos todos aqueles que se perguntavam indignados: “Mas por que a polícia e as Forças Armadas não sobem os morros e tomam as fortalezas do tráfico?” Pois é… Por quê? Que bom que o tenham feito agora!

Os próximos dias e meses dirão até onde se preparou um espetáculo para turistas — como turística era a política anterior. Sem investigação, prisões em massa e o devido processo legal, nada feito!

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  1. Comentado por:

    BA-CANARANA

    Acho que é hora dos Brasileiros acreditar que chegou a hora de mudar essa Droga toda, vamos acreditar que a primeira Mulher presidente da Republica vai vazer sérios investimentos na politica de educação pública, acabando com esse sistema arbitrário que nos corrompe, levando nosso povo as intolerancias.

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  2. Comentado por:

    Edeluz Alves

    Beleza pura,no dizer do povo em questão.
    Voces fingem que trabalham,nos fingimos que fugimos e a “patuléia’como rotula o De Gasperi,finge que acredita.
    Palhaçada mesmo,com Sérgio Cabral no picadeiro e Beltrami no trapézio.Puro circo pra ingles ver e fingir que acredita.

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  3. Comentado por:

    Rosyanne Rodrigues

    Tudo bem. Bom ou ruim, o Estado está se fazendo presente.
    Ocorre que há um outro lado que ninguém (ou quase ninguém) comenta: O CONSUMIDOR!!!
    A verdade inafastável é que se não houvesse o CONSUMIDOR não haveria o tráfico. Por exemplo, se dependesse de mim, esses traficantes não ganhavam um tostão, simplesmente porque não consumo, nem nunca consumi drogas.
    E quem são os CONSUMIDORES? Via de regra, são as classes A e B, aquelas que detêm o maior poder de compra. São os filhos de papais e muitas vezes os papais. São a galera alternativa, formada por muitos, muitos, artistas. São jogadores de futebol, que regam suas festinhas com muita cocaína. São políticos, executivos, gente da chamada “alta”.
    Pois é. É esse povo o grande responsável pelo caos no Rio e em toda parte. É esse povo o responsável por cada inocente morto, por cada família oprimida, dentro e fora das favelas. São os CONSUMIDORES, aqueles que, quando lhes toca, se incomodam com a violência, se chocam quando um filho seu morre assassinado, quando seu carro é roubado…
    A essa turma, a sociedade deve dar a devida resposta.
    O CONSUMIDOR, dependente ou não, doente ou não, deve ser tratado como CO-AUTOR de tudo isso. Tem que parar de passar a mão por cima dessa turma e punir severamente. Tem que mudar a lei. A sociedade tem que se movimentar, tem que se indignar.
    Chega de tolerância. Chega, chega, chega.

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  4. Comentado por:

    Alfredo Andrade

    O crime organizado se combate com inteligência policial, legislação eficaz e mandados judiciais de prisão devidamente cumpridos. O circo montado no complexo do Alemão, que me perdoem os amantes do circo, teve importância, na medida em que tirou o Estado e a sociedade da inércia que reinava até então. No entanto, pretender que a operação, que tinha por objetivo, acredito eu, prender as centenas de traficantes que ali se encontravam (e por falar em saudade, onde anda você, onde andam seus olhos, que a gente não vê…)foi um sucesso, aí, meus caros, já é otimismo demais.

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  5. Comentado por:

    Janez Bond

    Penso que; isso tudo se resolveria se legalizassem o uso das drogas. Ah muita gente iria dizer que eu sou um drogado. Mas garanto que não sou. Não adianta combater o tráfico usando todo esse armamento, muitos inocentes morreriam, e o tráfico, a corrupção o manteria.
    Seria melhor que se legalizasse, deixariam com que os viciados se matassem e investissem na educação, na conscientização da população escolar que não se deve fazer uso dessa praga pois é uma doença, quem experimenta, tem sua vida limitada. Ah mas muitos pais que usam iriam servir de moldes para seus filhos, posso garantir que nenhum pai ou mãe queriam ver seus filhos viciados, de alguma forma iriam confessar que aquilo que ele faz é prejudicial.
    Enfim, não se combate o tráfico simplesmente acabando com o traficante e sim, impedindo que jovens se tornem usuários, e isso leva tempo, é questão de cultura, de formação.

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  6. Comentado por:

    Haissa Cardoso

    Concordo com a postagem a baixo.Penso que o uso de drogas deveria ser liberado. Todos têm consciência de que é prejudicial, mas usam. O uso, a venda só causa esse alvoroço todo por ser proibido.Tantas outras drogas como o cigarro, o alcool é liberado e convivemos bem com isso.Temos que, através de campanhas, influenciar na opinião de pessoas novas que ainda não tenham usado e não querer dizer não à “macaco velho”.

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  7. Comentado por:

    murdergiraffe

    Acho que deve ser legalizado também pois há drogas lícitas que fazem tão mal ou até pior que as ilícias e são comercializadas normalmente. A questão é que o Estado está sendo usado como um espião das nossas vidas, como se estivessimos num grande bbb e não para assegurar nossos direitos, fazer valer nossas vontades. Pode parecer um discurso antiquado e utópico, mas foi dos sonhos mais loucos que as revoluções mais fantásticas puderam ocorrer. Sem querer apelar para a religião, apesar de ser inevitável, temos livre arbítrio para decidir como conduzir nossa vida e precisamos ter o direito de exercer esse livre arbítrio! O homem quer cheirar, que cheire! (Contanto que não te obrigue a cheirar também!)
    E acrescento que acho um tanto hipócrita prender esses bandidos menores enquanto as cabeças do tráfico ainda operam, mas acredito que não deve ser do interesse do Estado acabar com tal negócio.
    um sonho impossível e um pessimismo incombatível…

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  8. Comentado por:

    valdir mendona

    eu acho que tudo isso é culpa das autoridades não só do rio rio como também os governo federais.
    por não botar fiscalizãções nas nossas fronteiras, para proibir rigorosamente a entrada de armas,drogas que vão direcionadas as favelas e os grandes centros aqui no brasil.

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