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Moças e moços livres de todo o Brasil, uni-vos! Ou: Por que a liberdade é superior ao pão. Ou: Professores da área de humanas, tirem essa barbicha ou esse saião que eu quero vocês sérios!

Sinto que chegou a hora de fazer um texto de mais fôlego sobre o processo de libertação que teve início das universidades brasileiras. Acho que sairemos todos ganhando. Vocês é que vão dizer. Peço que leiam até o fim. Se gostarem, espalhem o texto por aí. Tenho me batido aqui já há alguns dias na […]

Sinto que chegou a hora de fazer um texto de mais fôlego sobre o processo de libertação que teve início das universidades brasileiras. Acho que sairemos todos ganhando. Vocês é que vão dizer. Peço que leiam até o fim. Se gostarem, espalhem o texto por aí.

Tenho me batido aqui já há alguns dias na crítica à violência que as correntes de extrema esquerda submetem a maioria dos estudantes das universidades brasileiras, especialmente nas instituições públicas. Um ou outro leitores chegaram a reclamar que estou dedicando tempo excessivo à questão. Discordo! Creio que tenho feito algo mais amplo do que debater se a chapa A ou a chapa B sairá vitoriosa num embate eleitoral. Eu estou escrevendo sobre a liberdade. Hoje, quero me aprofundar no tema um tanto mais do que nos dias anteriores. Aproveito também para responder a uma indagação freqüentemente feita por leitores que gostam e que não gostam de mim: “Como foi que você migrou da esquerda na juventude para as opiniões de agora? Como chegou aí?” Vamos ver.

Na USP, a maior universidade do país, as ações da extrema esquerda ganharam, como vimos, a mímica do terrorismo, com burguesotas e burguesotes encapuzados a estocar gasolina na reitoria e a fabricar coquetéis molotov. A invasão do prédio foi promovida por uma miríade de “revolucionários” que talvez pudessem aspirar à condição de vanguarda em meados do século retrasado. Eles se dividem em correntes, partidos e seitas, e as razões das dissensões internas, não raro, estão ainda na Rússia revolucionária de 1917. O centro de suas especulações teóricas e de sua formação intelectual nada tem a ver com o Brasil de 2011, tampouco com os estudantes de verdade. Usam o aparelho universitário e a representação estudantil para o mero exercício da retórica revolucionária.

Não agem de modo diferente alguns de seus professores, aboletados naquilo que é, afinal, uma função pública, sustentada pelo dinheiro do contribuinte, para fazer pregação contra a organização do estado que lhes garante o sustento e o discurso. Não que a crítica reformista ao estado seja inaceitável. Mais do que aceitável, ela é desejável. Mais ainda: trata-se de um imperativo da universidade. Mas essa minoria de extremistas entre alunos, professores e funcionários da USP e de boa parte das universidades não quer reformar o sistema. Ao contrário: no fundo, acha que reformas criam obstáculos adicionais à revolução — aquela que nunca haverá. Seu propósito é exacerbar tensões para… construir o socialismo!!!

Tenho dado notícias da formação de chapas que não estão comprometidas com o suposto horizonte revolucionário e que repudiam a tomada dos órgãos de representação das universidades por seitas e partidos políticos. E tenho sido, como sabia que aconteceria, satanizado a valer nas redes sociais. Mas também há milhares de pessoas que se sentem algo amparadas pelas minhas afirmações, análises, opiniões. Julgavam-se quase sozinhas. Jamais endossaram os métodos da extrema esquerda, mas não encontravam um canal para que pudessem expressar sua indignação.

O movimento “caça-Reinaldo” (“cassa-Reinaldo” também serve) é violento, ameaçador, truculento mesmo. Falam em “bater”, “esfolar”, “quebrar a cara”, “te dar uma lição”. De tal sorte que tive de tomar medidas para a minha proteção e segurança. É que eu rejeito aquela que eles consideram a pauta “progressista”. Porque julgam ter a verdade e porque se consideram heróis do humanismo, os que a eles se opõem só podem ser representantes do atraso e ter motivos escusos para pensar de outro modo. Quando perceberam que seriam derrotados no processo eleitoral da USP, por exemplo — que reconheciam como legítimo enquanto achavam que podiam vencer —, deram um golpe, prorrogando seus próprios mandatos, à moda de qualquer ditador vagabundo da América Latina da década de 70.

Intimidam, fazem piquetes, promovem arruaças, invadem, depredam, silenciam opositores, ameaçam… Não obstante, gritam: “Reinaldo Azevedo fascista!” É uma piada! Ontem, recebi, como viram, uma mensagem do autor daquele ignominioso panfleto que sugere atos violentos contra os maconheiros da USP e que traz a imagem do corpo de Vladimir Herzog, morto no DOI-CODI depois de torturado.

Ele está bravo comigo porque acho que ele merece cadeia. E acho porque seu panfleto nojento faz uma ironia sórdida com o cadáver de um homem que foi torturado. A tortura é um crime tipificado, inafiançável e imprescritível. Não creio que a liberdade de expressão abrigue esse tipo de coisa. Felizmente, o cara não gosta de mim. Também não gosta de Nietzsche, que supõe entender. Afirma ele a meu respeito:
“És apenas a antítese do super-homem de Nietzsche: um careca frango, fraco, uma tripa seca esquálida, incapaz fisicamente de defender a si mesmo em qualquer situação, e cuja existência é uma ofensa pras leias da natureza. Se ponha no seu lugar, pateta!”.

Também os guevaristas de extrema esquerda da Unirio, de um certo “Coletivo Vamos à Luta”, acham que sou uma pessoa detestável:
“Azevedo quer resgatar o perfil dos estudantes dos tempos da ditadura militar. Onde supostamente o interesse ‘cívico’ deveria comandar o espírito das entidades estudantis, regada na moral e bons costumes da marcha da família, com Deus pela liberdade.”

Como vocês podem notar, não sirvo para a causa dos trogloditas do fascismo. Como vocês podem notar, não sirvo para a causa dos trogloditas do comunismo. Eles têm razão! SIRVO APENAS À CAUSA DA LIBERDADE. Como deixei claro aqui no sábado, o comando do DCE não quis enfrentar o autor daquela baixaria. Quem chamou a coisa pelo nome fui eu. E, então, ele se voltou contra mim. Essa união de extremistas contra a liberdade de opinião, contra a liberdade de expressão, contra as liberdades públicas, contra o liberalismo e contra o individualismo tem história, não é?

Como você chegou aí, Reinaldo?
Cheguei aqui quando percebi, felizmente muito jovem, que não era exatamente “socialismo” que eu queria. Eu gostava mesmo era da liberdade. E fui descobrindo que a liberdade, que eu tanto prezava, não tinha, para os esquerdistas e para as esquerdas, a menor importância. Ao contrário: constatei, escandalizado, que a literatura política esquerdista é farta em textos que se encarregam de justificar a opressão. Se o velho conservadorismo o fazia em nome de alguns interesses objetivos transformados em abstrações imobilistas — “lei”, “ordem”, “decoro”, “bons costumes”, “pátria”, “nacionalismo” —, as esquerdas esmagavam o homem, muito especialmente os pequenos, em nome da libertação da… vítima!!! E não tenho a menor dúvida de que a esquerda, nesse particular, consegue ser ainda mais imoral do que a direita mais escancaradamente reacionária. Esta, ao menos, não espera contar com a colaboração da vítima na consecução de sua própria desgraça.

Inexiste marxismo militante sem a consideração de que a “consciência” do oprimido será necessariamente “falsa consciência” se sua ação não estiver afinada com os interesses de sua classe. Expresso-me em termos que me parecem ainda mais exatos e consoantes com a teoria: para os ditos marxistas, a consciência do oprimido será sempre falsa consciência se sua ação não estiver afinada com o horizonte histórico de sua classe. E o que é esse horizonte histórico? Cai do céu? Nasce na árvore da vida? Nasce, para usar uma expressão do próprio Marx, da “árvore dos acontecimentos”? Não! Quem define o seu conteúdo são os próprios revolucionários, organizados num partido. Não duvidem: cada um daqueles bobalhões que integram partidecos de esquerda nas universidades está certo de que conhece o “horizonte histórico” da classe operária e dos oprimidos, em nome dos quais julgam falar.

O modelo é muito parecido com o das religiões, que tendem a distinguir aqueles que conhecem a palavra revelada daqueles que não conhecem. Para as esquerdas, ou os homens aderem à sua causa e seguem a sua pauta ou são seres que estão à margem da marcha da história. Quando aquelas almas truculentas organizam um piquete para impedir a entrada de estudantes ou de professores num prédio, acreditam ter o direito de impor a sua vontade à maioria, ainda que ela queira o contrário, porque ou se vêem enfrentando os reacionários, que criam obstáculos à marcha revolucionária, ou se consideram os iluminadores, cuja tarefa é revelar aos próprios oprimidos qual deve ser a sua “verdadeira consciência”.

Debate ideológico
Não por acaso, meus queridos, com as exceções que sempre existem, os cursos da nossa querida “Fefeleche”, da USP (e é assim nas faculdades de humanas do Brasil inteiro), são quase sempre variações em torno do mesmo tema: na Filosofia, na História, nas Ciências Sociais, na Geografia e até nas Letras, a esmagadora maioria dos professores — e os alunos sabem que estou dizendo a verdade — está quase sempre empenhada na, como vou chamar?, “desconstrução do discurso ideológico”. É como se o mundo fosse uma maquinaria infernal, uma tramóia de potentados, a criar falsas narrativas que fizessem a realidade girar em falso para enganar incautos, cabendo-lhes, então, a tarefa do deslindamento, do desvelamento, da revelação. Isso também é muito freqüente nas escolas de jornalismo. Os alunos são treinados para tentar “desconstruir” a ideologia de seus chefes ou dos veículos nos quais vão trabalhar. Antes que a garotada consiga fazer um lead direito e possa organizar uma apuração, não incitados a “caçar” intenções sub-reptícias.

Muito bem! Foi contra esse fundamentalismo estúpido que me rebelei há muitos anos e do qual, felizmente, me libertei, passando a enxergar, então, um mundo novo: nem melhor nem pior, mas outro, em que os indivíduos respondem por suas escolhas; em que não me julgo portador da verdade revelada com que medir a consciência alheia; em que a vontade do outro é, afinal, a vontade do outro, e não me cabe ser juiz de sua escolha ou da pureza de suas opções. Ele que arque com as conseqüências da alternativa que abraçou! É absolutamente legítimo que eu tente convencê-lo, mas será sempre uma violência, numa democracia, tentar impedi-lo de fazer alguma coisa ou forçá-lo a fazê-la se não há uma lei que a tanto o obrigue.

Bem fundamental
Sim, meus caros, a liberdade é um bem fundamental e inegociável. E é uma lástima que ela seja tão desprezada, maltratada, ignorada, violentada justamente nas universidades. É uma lástima, mas não uma surpresa. É no ensino universitário que se encontra o maior número de esquerdistas por metro quadrado. Alguns bobalhões hão de dizer que a esquerdização é diretamente proporcional à informação. Bobagem! O problema é que o marxismo surge e se consolida num período em que as teorias de engenharia social eram muito influentes. E certa casta de intelectuais chamou para si a tarefa de desenhar um novo homem — daí que, acreditem!, há quem chame o marxismo de “ciência”. No mundo inteiro, sem exceção, essa onda passou. Por alguma razão, a universidade brasileira é a última a cultivar esse atraso e a infernizar a vida dos jovens com seus delírios.

Há dias, na Folha, um grupo de seis professores, liderados pelo “psolista” Chico de Oliveira, vituperava contra uma universidade aberta para as empresas e para o mercado!!! Vejam que absurdo, não é mesmo? Onde já se viu a USP fazer o que fazem Harvard, Oxford ou o MIT, lá onde o comuna Noam Chomsky dá aula: dialogar com o mercado?!?!?! Não pode! Chico de Oliveira, teórico do PSOL, quer uma universidade empenhada em fazer revolução. Como não dá e como ele sabe que a revolução não vai acontecer, ele se contenta com uma universidade cheia de psolistas… Já está bom!

Pão e liberdade
Há dias, num debate, o escritor Fernando Morais, que já se declarou um bolivariano, partidário de Hugo Chávez, brindou os que o ouviam com uma de suas rotineiras indignidades. Ao defender ainda outra vez o regime cubano — os Irmãos Castro são os maiores assassinos por 100 mil habitantes da moderna história latino-americana —, contestou a fala do outro debatedor, que citou Nelson Rodrigues: “Prefiro liberdade ao pão”. Com a vigarice intelectual característica da esquerda, apimentada por outra de que só ele é capaz — é bem verdade que Morais foi um esquerdista que ganhou o direito a uma vida estável nos braços do quercismo!!! —, deu a resposta que, historicamente, serviu para o assassinato de 25 milhões na União Soviética, de 70 milhões na China, de 3 milhões no Camboja, de 100 mil em Cuba (só para não esquecer). Afirmou então: “Vá perguntar para uma mãe que está enterrando um filho de quatro anos o que ela prefere.”

Que bom que eu não estava presente. Ou teria vomitado nele! O pão sem liberdade, seu clown dos tiranos, é o pão da humilhação, é o pão da sujeição, é o pão da indignidade, é o pão das ditaduras, é o pão da vilania, é o pão da chantagem. “Mas o que é a liberdade sem pão?”, podem gritar a moça e o moço que são reféns desses “revolucionários” pendurados na universidade pública, que acenam aos jovens com suas utopias do século 19 e depois vão brigar por seus qüinqüênios (ainda cheio de tremas…) com a agudeza burocrática dos guarda-livros…

Sou tentado a afirmar, para escândalo de muitos, que uma liberdade realmente digna do nome traz consigo, necessariamente, o pão. Mas aí seriam necessários outros tantos quilômetros de texto. Então prefiro uma saída oferecida pela lógica elementar, que um comunista folgazão e pançudo, que adora as conquistas do capitalismo, como Fernando Morais, é incapaz de reconhecer: quem é livre pode lutar por pão, mas quem come o pão que a tirania amassou pode ser condenado a ainda mais sujeição.

Encerro
A minha repulsa, como se nota, aos trogloditas das universidades públicas, sejam professores, alunos ou funcionários, ou àquele fascistóide que produziu aquele cartaz ignominioso não decorre só do meu ânimo para a polêmica. Eu realmente acho inconcebível que alguém outorgue a si mesmo ou a seu grupo o direito de impor ao outro uma vontade, uma agenda ou uma pauta ao arrepio dos direitos fundamentais garantidos pela Constituição e pelas leis que regem a democracia brasileira.

Moças e moços das universidades brasileiras, apeiem do poder, pelo voto, esses que os oprimem. Vocês não têm nada a perder a não ser os grilhões. Vocês não estão condenados a suportá-los. Todos estamos condenados, isto sim, à liberdade. E o seu exercício, acreditem, não é assim tão fácil.

NÓS SOMOS AQUELES QUE LUTAM PELA LIBERDADE QUE SE FAZ PÃO!

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