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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Mesmo dizendo absurdos, Lula ainda acerta mais do que os jornalistas

O momento mais interessante da entrevista de Lula, por várias razões, foi este que segue, entre 18min47s e 22min55s. Leiam com cuidado. Um jornalista, chamando a própria questão de “perguntazinha”, indaga: PERGUNTA – Presidente, o quadro no Congresso agora vai ser um Congresso muito mais favorável à presidente Dilma do que foi com o senhor, […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 21 fev 2017, 09h26 - Publicado em 3 nov 2010, 19h11

O momento mais interessante da entrevista de Lula, por várias razões, foi este que segue, entre 18min47s e 22min55s. Leiam com cuidado. Um jornalista, chamando a própria questão de “perguntazinha”, indaga:

PERGUNTA – Presidente, o quadro no Congresso agora vai ser um Congresso muito mais favorável à presidente Dilma do que foi com o senhor, que [sic] o governo vai ter muito aliados tanto na Câmara quanto no Senado. O senhor acha que ela vai ficar menos refém de oligarquias do Nordeste, por exemplo?

RESPOSTA – Ô meu filho, eu vou dizer uma coisa pra vocês de coração! O Congresso é a cara da sociedade. Eu fico olhando vocês aqui: o Congresso é a média da cara de vocês. É isso [JORNALISTAS FAZEM UM MUXOXO DE DESAGRADO; PRESTEM ATENÇÃO QUE DILMA RI ALTO]. O Congresso é a média… É a síntese da sociedade brasileira. Tem gente de todo o espectro social, tem gente de todas as origens, tem de gente de todas as cores, tem gente de todos os estados. A gente tem o hábito de tentar menosprezar, muitas vezes por preconceito. As pessoas são eleitas. Cê tem um cidadão que é eleito com 10 milhões de votos, outro que é eleito com mil, com um milhão de votos. Quando eles chegam aqui, cada um vale um voto, não tem melhor ou pior. Um presidente da República, ele se relaciona com a força política eleita. Ele não se relaciona com a força política que ele gostaria que fosse eleita. Então, a companheira Dilma, a nossa futura presidente, ele vai ter de se relacionar com os 81 senadores que estão aí: do DEM, do PTB, do PT, do PMDB, do PSB, ou seja, ela não vai inventar. Ela não pode criar um novo partido e criar novos senadores. São os que estão aí. E todos têm direito a um voto. Ela vai se reunir com Congresso Nacional e com uma Câmara do mesmo jeito. Ela não pode dizer: ‘Não, eu não quero aquele deputado, tem de vim outro’. Mas foi ele que foi eleito. Ela vai ter de conversar. Ela vai ter de conversar com o companheiro do PC do B e vai ter de conversar com o Tiririca [PÕE E MÃO SOBRE O OMBRO DE DILMA, COMO A DESTACAR A IMPORTÂNCIA DE TIRIRICA]. Vai ter de conversar com o PP [DILMA DIZ BAIXINHO: ‘SITUAÇÃO E OPOSIÇÃO’] e vai ter de conversar com o PC do B, com a oposição e com a situação. Essa é a lógica do jogo. Sabe? O que ela vai ter melhor do que eu tive? Ela vai ter, teoricamente, uma bancada mais consolidada na Câmara dos Deputados e vai ter uma bancada mais consolidada no Senado. Certamente, nós teremos alguns senadores com menos raiva do que alguns que saíram. Só o fato de o cidadão não ter raiva, só o fato de o cara ser civilizado e, ao invés de gritar, conversar; ao invés de querer bater, negociar, isso já é meio caminho andado. É importante lembrar QUE NÓS APROVAMOS TUDO O QUE NÓS QUERÍAMOS NO CONGRESSO NACIONAL, com exceção da CPMF, que, embora a gente teve maioria, faltou um voto só para a gente ganhar a CPMF. Mas agora, essa nova safra de governadores que vão vir aí, eles vão dizer para vocês o que eles vão querer. E todo mundo sabe que vai precisar de dinheiro para a saúde. Se alguém souber da onde que é possível tirar dinheiro, que nos diga”.

Vamos lá
Há várias coisas a comentar. Comecemos pela pergunta. Como??? Quer dizer que um Senado menos oposicionista — afinal, é disso que se trata! — tornaria Dilma menos refém do que foi Lula das “oligarquias do Nordeste”? Desde quando as “oligarquias do Nordeste” atrapalharam o presidente? Elas estiveram com ele desde sempre, são suas aliadas. A grande base que Dilma terá no Congresso será formada justamente de parlamentares eleitos no… Nordeste, ora essa! Segundo essa lógica, Dilma será, isto sim, mais refém do que o próprio Lula.

Mas a resposta do Babalorixá é estupenda para o bem e para o mal. Para o “bem” porque, com efeito, o que ele fala faz sentido. O Congresso, é verdade, é uma síntese do país — aliás, Dilma e Lula também são. E com os jornalistas não é muito diferente, não. Mas eles fizeram um muxoxo de desagrado. Dilma riu alto, como a dizer: “É isso mesmo! Vocês não são muito melhores”. Considerando que ninguém teve a coragem de contestar minimamente os absurdos que o Babalorixá dizia, é forçoso admitir: ele está mesmo certo. Vejam o conjunto. FOI PRECISO QUE ELE PRÓPRIO DISSESSE QUE O GOVERNO APROVOU O QUE BEM QUIS NO CONGRESSO. Ora, se aprovou, então cadê aquela oposição sabotadora de que ele falara minutos antes? Lula admitiu por conta própria o que cumpria ao jornalismo interrogar, contradizendo-se — contradição que não foi apontada.

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Mas sigamos. Se o Congresso é a média do que vai na sociedade, então os oposicionistas que o compõem merecem ser tratados com o devido respeito — não fosse essa uma exigência da Constituição e do decoro. Mas não! Lula já havia satanizado os adversários, diante do silêncio cúmplice e freqüentemente sorridente dos jornalistas. Compreensivo, lembrou-se, então, de exaltar a rica fauna daquela Casa onde, no passado, ele enxergou 300 picaretas. E a única personalidade que citou como um dos exemplos do que pode ser o Congresso foi “Tiririca”, momento em que botou a mão no ombro de Dilma, como a lhe recomendar expressamente que tratasse o palhaço com o respeito merecido. A propósito: citar Tiririca como representante da média nacional, e dado que havia dito que os jornalistas presentes são expressão dessa mesma média, leva-nos a indagar: onde estariam os Tiriricas entre os jornalistas? É lógica elementar, não?

Se Tiririca merece o tratamento digno que se deve dispensar a todo parlamentar, com os oposicionistas, é diferente. Lula voltou a satanizá-los. Alguns deles, afirmou, agiam movidos pela raiva; não eram “caras civilizados”. A barafunda intelectual na relação imprensa-poder é tal hoje em dia que cumpre a um notório depredador do padrão democrático — porque Lula é isso — lembrar aos jornalistas a legitimidade do Congresso. Ao fazê-lo, no entanto, ele distingue os legítimos, que são os seus aliados, dos ilegítimos, que são seus adversários. Por absurda, a distinção mereceria questionamentos. Estes, não obstante, não são feitos porque Lula fala a um grupo que tem pelo Congresso mais desprezo do que ele próprio e que, visivelmente, considera-se moralmente superior àquela gente desprezível.

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