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Marina no Jornal Nacional: por que o mensalão para ela e não para Dilma?

A entrevistada do Jornal Nacional nesta terça foi a presidenciável Marina Silva, do PV. A exemplo do que fiz ontem com Dilma, analiso seu desempenho e o andamento da conversa. Comecemos pela questão geral, que nunca quer calar: ela foi bem ou foi mal? Como sempre, essa resposta pertence a 40 milhões de telespectadores. A […]

A entrevistada do Jornal Nacional nesta terça foi a presidenciável Marina Silva, do PV. A exemplo do que fiz ontem com Dilma, analiso seu desempenho e o andamento da conversa. Comecemos pela questão geral, que nunca quer calar: ela foi bem ou foi mal? Como sempre, essa resposta pertence a 40 milhões de telespectadores. A meu juízo, ela teve, até agora, a sua melhor performance na TV de quantas vezes eu a tenha visto, a despeito de suas respostas. Fez um discurso, desta feita, um pouco mais terreno. Falou com fluência e acho que se fez entender, dentro da sua linha de atuação, mais do que em qualquer outra oportunidade. Ter sido melhor do que em outras circunstâncias não quer dizer que Marina tenha fugido a seu estilo: aquela torrente de palavras em que o particular e o geral se misturam num abraço, sei lá, quântico… Mas a impressão que passou, creio, foi positiva.

Na introdução, Fátima Bernardes afirmou que a série de entrevistas trata de questões polêmicas envolvendo as candidaturas. Não creio que Marina tenha sido confrontada, como Dilma não foi, com o que há de realmente polêmico nas suas posições. A questão mais dura feita à candidata disse respeito ao mensalão, formulada mais ou menos nestes termos (não é transcrição): “A senhora deixou o PT por causa de divergências na área ambiental, mas não considerou a hipótese de deixar o partido quando se deu aquela crise moral do mensalão?” A resposta foi precária, ainda que vazada naquela linguagem caudalosa dos justos e bons. A pergunta é procedente em si? É. Mas encerro este parágrafo com algumas indagações dirigidas aos entrevistadores:
1
– que sentido faz indagar Marina sobre o mensalão e não tocar no assunto quando a entrevistada era Dilma Rousseff?;
2 – A ex-petista é convocada a falar sobre a lambança do partido que foi seu, e nada se indagou  à candidata do PT? Por quê?;
3 – Quer dizer que Marina, porque deixou o PT bem depois da crise do mensalão, é convocada a falar sobre o assunto, e a outra, que ficou no partido, é dispensada de se pronunciar?;
4 – Devo concluir que permanecer no PT é uma boa forma de não ser indagado sobre o mensalão, mas sair do partido expõe o ex-petista a tal questão?

Penso em respostas possíveis para essas questões, e nenhuma é boa. Se a boa existir, ainda não consegui pensar nela.

Bola da rede
De questão polêmica mesmo, parece-me, só essa foi feita. A polêmica certa para a candidata errada, não é? O resto foi um passeio — nos dois casos. Dilma teve duas bolas levantadas na rede: 1) Lula é seu tutor?; 2) seu temperamento é difícil? Agressivas na aparência, as questões deram à petista a excelente oportunidade de se defender de seus críticos em tópicos que dizem respeito à sua imagem de candidata. Não estou dizendo que o propósito tenha sido ajudá-la. Mas isso aconteceu.

O mesmo se deu com Marina. Uma das críticas correntes a seu respeito é que ela é a candidata de uma nota só: fala apenas de meio ambiente.  A outra é que atrasou licenças ambientais quando ministra. Ora, ela negou as duas coisas, podendo contestar ,diante de milhões de pessoas, o que costuma falar a um público muito menor. E não foi contraditada pelos entrevistadores — aliás, mais ela disciplinou Bonner e Fátima do que o contrário.

Não há rigorosamente nada de polêmico nisso. Num dos momentos da entrevista, a própria Fátima resolveu elaborar uma conclusão virtuosa em lugar de Marina: “Então a senhora está dizendo que, se for presidente, não vai atrasar uma hidrelétrica, provocando um apagão, por causa de questões ambientais…” Marina, inteligente que é, disse algo como: “É isso mesmo”. Ô se é! Marina não resumiria melhor. Aliás, ela nunca resume, né?

E a Polêmica?
Dilma não precisou falar sobre mensalão, Lina Vieira, dossiês, aeroportos, Farcs, inchaço da máquina, MST, atraso das obras da Copa do Mundo, descontrole de gastos ou destruição do Enem. Alguns preciosos minutos foram dedicados a seu temperamento de, como ela disse, “mãe do Brasil”. Ok! E Marina não precisou ser confrontada com a sua posição sobre o Código Florestal, por exemplo.

A proposta que ela defende —  e ela defende, não estou inventando — obrigaria a refazer floresta em área ocupadas pela agricultura ou pela pecuária há quase 200 anos. Ela se opõe ao que chama “anistia aos desmatadores”, o que jogaria na ilegalidade milhares de pequenos agricultores na Amazônia, não apenas os “latifundiários”, como se diz por aí. A maluquice, se aplicada, implicaria uma queda na produção agropecuária brasileira — o que atenta contra os pobres. Essa é uma questão concreta, que diz respeito à aplicação prática de suas idéias. Que ela seja a favor da água, do planeta limpo e da economia sustentável, bem. Quem é contra? A questão é como pôr isso tudo em prática.  Isso é polêmico.

Como “polêmica”, se quiserem, podem ser consideradas as questões sobre o aborto (Dilma também não foi indagada a respeito) ou a pesquisa com células-tronco embrionárias. E olhem que penso o mesmo que a candidata nos dois casos.

Respostas precárias
Marina ter ido bem na TV não quer dizer que tenha dito sempre coisa com coisa. Bonner lhe fez três questões procedentes: ela não está coligada com ninguém agora; como espera governar depois? A resposta chega a ser risível: segundo Marina, isso é bom porque ela não tem de se expor ao fisiologismo, como FHC teria se exposto ao do DEM, e Lula, ao do PMDB. Mas, insistiu o jornalista, conquistar os apoios depois  de eleita, então, não seria evidência ainda maior do fisiologismo? Por alguma razão, Marina acha que não… Vai entender. E como ela governará se o PV não tem quadros? Bem, aí ela disse que não governará apenas com as pessoas de seu partido. Vale dizer: fará as composições que está condenando nos outros.

A resposta é o mais puro nonsense. Até porque ignora o Poder do Congresso e a necessidade de apoio partidário, sem o qual não se governa.  Na televisão, no entanto,  isso tende a passar batido. Para uma larga maioria, a Constelação de Órion fica bem mais perto.

Logo de saída, ao responder se era apenas a candidata do meio ambiente, engatou ali o discurso do tudo ao mesmo tempo agora: Não! Numas 10 linhas, juntaram-se educação, aquecimento global, as enchentes, os aeroportos, as crianças, a sustentabilidade e, bem, quem mais entrasse ali caso ela não fosse interrompida por uma nova questão. O discurso natureba-holístico é a festa do Bolinha da ideologia: sempre cabe mais uma causa.

E só para encerrar: a sua resposta sobre por que ficou no PT mesmo depois do mensalão foi péssima — ainda que tal pergunta devesse ter sido feita a Dilma. Ah, ela não tinha nada a ver com aquilo nem tinha feito nada de errado. E preferiu ficar para lutar ao lado de milhares de bons etc. Tá bom. Isso significa que, até hoje, ainda não vê o mensalão como aquilo que o mensalão foi: uma estrutura montada para fraudar as votações no Congresso e para comprar partidos políticos, que financiou, com dinheiro ilegal, a própria campanha de Lula à Presidência. Não era um desvio, era um método. A resposta, sem dúvida, foi ruim. Mas seria interessante saber o que Dilma teria dito em seu lugar, não é?

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