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Lula desqualifica, achincalha e sataniza as oposições. Mas pede que ela seja compreensiva com o governo Dilma!

O presidente Lula concedeu nesta quarta uma entrevista coletiva, ou quase isso. Foi um bate-papo, em que falou o que bem entendeu, com aquele seu jeito desabrido de sempre, a simpatia habitual, os gracejos dirigidos a jornalistas, que a todos encantam, as simplificações e, no fim, uma nota de inacreditável descortesia com José Serra —  […]

O presidente Lula concedeu nesta quarta uma entrevista coletiva, ou quase isso. Foi um bate-papo, em que falou o que bem entendeu, com aquele seu jeito desabrido de sempre, a simpatia habitual, os gracejos dirigidos a jornalistas, que a todos encantam, as simplificações e, no fim, uma nota de inacreditável descortesia com José Serra —  o que provocou, evidentemente, o riso dos jornalistas (depois faço uma notinha sobre esse particular). Comecemos pelo principal: o papel das oposições.

Embora Lula concedesse uma entrevista com o peito humildemente estufado de quem tivesse vencido o pleito por, sei lá, 83% a 17%, a verdade verdadeira é que teria bastado que 6,05% dos eleitores votantes mudassem de lado para que fosse tragédia o que agora é triunfo. “Teria bastado, Reinaldo! Mas não aconteceu…” Não! Eu não sou do tipo que conta a história que não houve. Só os fatos me interessam. Estou destacando um fato: a diferença de votos, dado o conjunto do eleitorado brasileiro, foi bem menor do que se alardeia. Nada menos de 44% dos eleitores resistiram a uma fantástica máquina eleitoral, especializada em moer reputações, no que Lula também é craque. Pois bem, o que diz o demiurgo sobre os oposicionistas?

“O que eu queria pedir à oposição é que, a partir do dia 1º de janeiro, contra mim não tem problema, podem continuar raivosos, podem continuar do jeito que sempre foram, mas, a partir do dia 1º de janeiro, que eles olhassem um pouco mais o Brasil; que eles torcessem para que o Brasil desse certo; que eles ajudassem o Brasil a dar certo; que, cada vez que tome uma atitude, ao invés de prejudicar o presidente, eles prejudiquem a parte mais pobre da população que precisa do governo e que precisa das políticas públicas do governo. Então eu espero, eu não vou falar aqui em unidade nacional, porque essa é uma palavra já queimada, já mal usada, mas eu queria apenas pedir a compreensão, é que, dentro do Congresso Nacional, a nossa oposição não faça contra a Dilma a política que fez comigo, a política do estômago, a política, eu diria, da vingança, a política do ‘trabalhar para não dar certo’. Eu acho que a oposição tem um outro papel, e ela pode fazer isso, até porque a oposição governa estados importantes da federação, e sabe que a relação institucional entre estados e o governo federal tem que ser a mais harmoniosa possível porque senão todos perdem

Comento
Como se lê, segundo Lula, a oposição hoje é raivosa, não olha para o Brasil, torce para o país dar errado e atua para prejudicar a população pobre. E ele espera mudança. Trata-se, obviamente, de um discurso autoritário, que sataniza os adversários. É uma clamorosa mentira histórica afirmar que foi esse o comportamento das oposições durante o seu governo. Ao contrário: o que hoje qualquer pessoa razoável tem claro é que faltou justamente “opor-se”. É o que se tem escrito neste blog, como sabem, desde sempre. Abaixo, há um editorial do Estadão e um artigo do professor Marco Antonio Villa que tratam justamente do tema.

Se vocês virem o filme inteiro, perceberão que, dado o formato da entrevista, os jornalistas interrompiam a fala de Lula o tempo todo — Dilma até chega a dar uma bronquinha na turma —, mas se calaram durante esse discurso. É quando Lula fala absolutamente sozinho. Só no fim da peroração antioposionista um jornalista indaga:

“E como seria essa oposição, presidente?”

E ele responde —Dilma sorri com ironia, como  se a pergunta fosse idiota:
“Eu não posso dizer como é que vai ser a oposição. Aí já seria demais, né? Na minha opinião, em primeiro lugar, a oposição tem de continuar oposição; não pode perder a característica de oposição. Agora, tem de saber diferenciar o que é o interesse nacional, que envolve o povo brasileiro, e o que é que é a política partidária. Eu não esqueço nunca que, por conta disso, essas pessoas tiraram R$ 40 bilhões anuais, que se formos levar em conta o mandato inteiro, dá mais de R$ 160 bilhões anuais da saúde. E todo mundo sabe, qualquer prefeito, qualquer governador, sabe que é preciso ter dinheiro para a saúde, se a gente quiser dar um atendimento de qualidade, se a gente quiser melhorar a vida do povo brasileiro.”

O governo Lula ficou cinco anos com a CPMF —  E O PT VOTOU CONTRA A CPMF NO GOVERNO ITAMAR E NO GOVERNO FHC —, o que não impediu a Saúde de caminhar para o caos. Não faltou dinheiro. Faltou foi competência. De resto, cumpre lembrar que o imposto caiu COM VOTOS DOS GOVERNISTAS TAMBÉM. A oposição, sozinha, não tinha o número necessário para derrubá-lo. Mas isso, acreditem, é o de menos. Mais adiante, ao falar sobre o Congresso, Lula deixou claro que o governo CONSEGUIU APROVAR TUDO O QUE QUIS NO CONGRESSO, EXCEÇÃO FEITA À PRORROGAÇÃO DA CPMF.

Ainda comentarei outros aspectos da entrevista. Saúdem o jeito bonachão de Lula os que quiserem; aplaudam a sua “maestria política” os que acharem conveniente. Eu reitero: Lula não tem o menor respeito pela oposição e ignora a essência da democracia. E continua a ser um mistificador: esse comportamento da oposição a que ele se refere simplesmente não existiu. Nunca! Essa oposição de que ele fala, aí sim, é a que PT exerce aqui em São Paulo, por exemplo. Essa oposição a que ele se refere é a que ele próprio fez ao governo FHC.

Lula não tem cura. Ao pedir que as oposições tenham uma relação harmoniosa com o governo Dilma, ele as desqualifica, achincalha e sataniza. Abaixo, segue o vídeo com a íntegra. Assistam quando sobrar um tempinho. Dura quase meia hora. Continuarei a escrever a respeito.

http://video.globo.com/Portal/videos/cda/player/player.swf

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