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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Inflação – Não terá chegado a hora de os economistas dizerem um “Deixem-me pensar…”? Ou, então, de chamarem as coisas pelo nome?

Escrevi outro dia aqui sobre inflação e juros e levei algumas porradas, especialmente porque não sou economista. O jornalismo é mesmo uma função ingrata. Se não existe, é evidência de que se vive numa ditadura; existindo, leva chapuletada (emprego a grafia do “Grande Dicionário Sacconi; palavra estranhamente ausente nos outros dicionários) de todo lado: dos […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 18 fev 2017, 08h26 - Publicado em 10 abr 2013, 19h53

Escrevi outro dia aqui sobre inflação e juros e levei algumas porradas, especialmente porque não sou economista. O jornalismo é mesmo uma função ingrata. Se não existe, é evidência de que se vive numa ditadura; existindo, leva chapuletada (emprego a grafia do “Grande Dicionário Sacconi; palavra estranhamente ausente nos outros dicionários) de todo lado: dos economistas (sempre), dos advogados (quase sempre), do PT (que quer chamar a polícia), do Caetano Veloso… Mas a gente segue firme, né?, “empobrecendo a teoria” (como acusou um crítico), mas ajudando a garantir a democracia. Então vamos ver.

Os alimentos continuam a pressionar a inflação, como informa reportagem da VEJA Online. Fosse só isso, tudo certo. Mesmo uma economia em deflação, como a do Japão, pode sofrer um choque de oferta — se não de tomate, daquela raiz-forte insuportável que se deve comer junto com outras coisas insuportáveis… Passa. Caso a inflação “tomatística” persista, o jeito é parar de comer tomate. O preço vai cair.

O problema é que a elevação de preços se espalhou em alguns setores da economia. É só o tomate ou a cebola? Não! O índice de 12 meses, em março, chegou a 6,59%, acima, portanto, da banda superior da meta. Nove desses 12 meses referem-se ao ano de 2012, quando o PIB brasileiro cresceu modestíssimos 0,9%. Tem-se, portanto, uma situação indesejável de baixo crescimento com inflação alta. Ou não se tem?

Agora eu volto lá aos economistas. Desafio os especialistas da Casa das Garças (que reúne muita gente boa e intelectualmente honesta), da Casa dos Tucanos, da Casa dos Falcões, da Casa dos Canarinhos a me demonstrar que a receita para baixar a inflação que está aí é a elevação de juros.

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Notem bem: eu não estou contestando que elevação de juros concorra para baixar a inflação, como não contesto que um dos efeitos do antibiótico é baixar febre quando o paciente contraiu uma infeção bacteriana — a febre cai porque se mata o agente patogênico, e o corpo não precisa mais se proteger dele com a elevação da temperatura. Mas não traz esse efeito no caso da infecção virótica. Sim, esta pode debilitar o paciente e facilitar o ataque bacteriano, e o antibiótico pode ser um elemento apenas associado ao tratamento.

Eu leio com muita atenção o que dizem os economistas que sustentam que o governo não tem usado adequadamente o instrumento que tem à mão para baixar inflação: a elevação de juros. Mas aí eu tento entender como os juros altos concorreriam para baixar o preço do tomate — o fato conjuntural — ou para baixar aqueles outros preços que se insinuaram numa economia que cresce uma merreca, E NÃO ENCONTRO A EXPLICAÇÃO.

A única coisa que conseguem dizer é que a elevação dos juros demonstraria que o governo “é intolerante com a inflação e está atento”. Perfeitamente! Esse governo até poderia ganhar uma medalha de Honra o Mérito por sua intolerância e civismo, mas não baixaria inflação — não a que está aí. Um país que cresce 0,9% está, por acaso, com a economia muito aquecida, precisando dar uma desaceleradinha? Se, numa trajetória de juros declinantes, o país quase fica no zero a zero, qual é, exatamente, a receita que se está propondo?

Problema novo
Quando menos, seria preciso admitir que se está diante de uma situação se não inédita, pouco corriqueira na economia brasileira. E ninguém sabe direito o que fazer — nem garças, nem tucanos, nem falcões. Coisa boa não é. País que cresce 0,9%, com inflação alta e baixo investimento está precisando do antibiótico dos juros? Vamos prender, como o policial Louis do filme “Casablanca”, os suspeitos de sempre?

Fora do universo dos tomates e das cebolas, parece que a política contínua de reajuste dos salários mais baixos acima da inflação — a rigor, isso vem lá do governo FHC, com o início da política de recuperação do mínimo — estimulou, como era o esperado, o consumo. E todos aplaudiram e exclamaram: “Isso é bom!”. O serviço da empregada que virou manicure, como diz Delfim Netto, ou que vai à manicure, é atingido pela elevação da taxa de juros? Resposta: pode até ser, mas seria preciso elevar a taxa Selic em, sei lá, 500 pontos, criando uma recessão brutal e pronto! Aí as pessoas perdem a vontade de comer tomate e de abrir salão de cabeleireiro.

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E, como nota um especialista com quem acabei de falar, a sorte é que o Brasil dispõe de mecanismos que limitam a taxa de inadimplência — os Serasas da vida. Não fosse assim, a coisa teria saído do controle há muito tempo.

Houve barbeiragem? Houve. Numa economia alavancada no consumo, o governo atuou para desvalorizar o real, taxando a entrada de dólares no país, o que é, em princípio, desejável para a indústria e para a preservação dos empregos. Tudo certo, tudo bem. A questão é que essa variável não é inócua e encarece, por exemplo, os insumos agrícolas. Passado algum tempo, a indústria se encontra na mesma areia de antes e se ficou com um passivo inflacionário. 

O governo se encalacrou, perdeu a noção de conjunto e não sabe como intervir. Ocorre que tenho notado que boa parte de seus críticos também não tem a resposta, não para o curto prazo ao menos. Se a saída for a elevação de juros, aí tem de ser um troço assim troglodita, carnificina mesmo, jogando a economia na recessão. Quero ver quem vai ter a coragem de fazer isso ou mesmo de propor isso.

“Qual é a resposta, Reinaldo?” Ah, eu não sei. Ainda estou em busca de uma boa. O que não dá mais é para considerar que “inflação alta se combate com elevação dos juros”. É fato! Quando ela tem características que responderão à elevação dos juros. Ninguém consegue demonstrar que é o caso da nossa. “Mas e se a gente induzir o paciente ao coma enquanto se tenta descobrir a causa da febre?” Ah, aí eu acho que a temperatura cai. Mas quem vai combinar com os russos? Paciente em  coma não grita nem protesta. Já os russos…

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Encerro assim: continuo a esperar que alguém evidencie o liame lógico entre a elevação de juros e a queda da inflação para a economia que está aí, não para aquela dos livros-texto. Sim, eu também acho que o Banco Central tem de atuar de modo independente, pensando principalmente na inflação. Mas cumpre não ideologizar essa questão, porque também está para ser demonstrado que um BC só é independente quando eleva juros, não é? Ele não poderia ser independente para, por exemplo, olhar o cenário e constatar: “Elevar a taxa agora, apesar dos pedidos, é inócuo”? Afinal, pessoas e instituições também podem ser independentes quando não fazem aquilo que nós consideramos ser o certo, certo?

Prepare-se para apanhar, Reinaldão! Se duvidar, até do Caetano Veloso!

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