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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Gaspari erra feio na conta e na cota

Elio Gaspari relata em sua coluna de hoje o que considera uma experiência bem-sucedida de cotas raciais. Escreve: “Falta pouco para a formatura da primeira turma de administração da Unipalmares, criada em 2003. São 160 alunos, 140 dos quais negros. Em março realizarão seu baile de formatura, com traje a rigor, no Jóquei Clube de […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 20h21 - Publicado em 30 set 2007, 09h23
Elio Gaspari relata em sua coluna de hoje o que considera uma experiência bem-sucedida de cotas raciais. Escreve: “Falta pouco para a formatura da primeira turma de administração da Unipalmares, criada em 2003. São 160 alunos, 140 dos quais negros. Em março realizarão seu baile de formatura, com traje a rigor, no Jóquei Clube de São Paulo. É uma história de sucesso na qual não entrou dinheiro da Viúva, da igreja ou dos sindicatos. Desde sua fundação, pela ONG Afrobrás, ela se dispõe a ter 50% de alunos negros. (Contra 1,3% em São Paulo e 2,3% no Brasil.) Todos os seus vestibulares têm cerca de 80% de candidatos negros, com três inscritos para cada vaga. Hoje a Unipalmares tem 2.000 alunos, mais uma faculdade de Direito. (São Paulo tem 368 desembargadores, nenhum negro.) A mensalidade custa R$ 260, e a instituição mantém um inédito programa de emprego.” (íntegra aqui).

Com números certos ou errados, sou contra cotas. No caso do texto de Gaspari, há números errados — o que é muito comum nesses casos. Explico. A Unipalmares considera “negros” todos aqueles chamados “afrodescendentes” — e isso inclui os mestiços, que compõem o segundo grupo mais numeroso do Brasil no que diz respeito à cor da pele: só perdem para os brancos, que são a maioria. Segundo Gaspari, a Unipalmares se dispõe a ter 50% de alunos negros. E compara para nos chocar: eles seriam apenas 1,3% em São Paulo e 2,3% no Brasil. Digamos que esses números estejam certos (tenho dúvidas), observem: ele não põe na conta os mestiços. Entenderam? Um pardo é “negro” na Unipalmares (e isso é bom para ela), mas não é negro na USP (e isso é ruim para a universidade). O discurso racialista vive dessas distorções. O mestiço é pau pra toda obra. Se entrou na universidade sem o auxílio de qualquer maracutaia bolsista, vira branco; se não conseguiu passar no vestibular, vira negro e excluído.

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