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FHC está certo. Mas também nunca esteve tão errado. Ou: Ainda sem eixo, PSDB morde a isca lulista

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta segunda, no seminário “Minas Pensa o Brasil”, promovido pelo PSDB, que a presidente Dilma Rousseff “é ingrata” e que “cospe no prato em que comeu”. Disse mais, segundo leio no site do PSDB (transcrevo em vermelho): “É preciso que o PSDB seja o partido do carinho, o partido […]

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta segunda, no seminário “Minas Pensa o Brasil”, promovido pelo PSDB, que a presidente Dilma Rousseff “é ingrata” e que “cospe no prato em que comeu”. Disse mais, segundo leio no site do PSDB (transcrevo em vermelho):

“É preciso que o PSDB seja o partido do carinho, o partido do amor, é preciso ouvir o povo”, disse. A postura tucana, de acordo com o ex-presidente, serve de contrapartida à gestão petista, mais preocupada com o Produto Interno Bruto (PIB) do que com o atendimento aos cidadãos.

Ai, ai, ai… Vamos ver.

Este blog vai completar sete anos no dia 24 de junho. Ao longo desse tempo, está aí o arquivo, quantas vezes se apontou aqui o estelionato eleitoral do PT? Mil, duas mil, três mil? Sei lá. São 37.779 posts e 2.005.307 comentários publicados enquanto escrevo. E não me limitei apenas a acusar o estelionato — isto é, as muitas vezes em que o PT negou o seu próprio discurso e seu próprio programa. Também apontei com constância, regularidade e método a apropriação indébita — o roubo mesmo! — das propostas e de programa do adversário. Os petistas fazem isso com uma sem-cerimônia faminta, glutona, gulosa. Tomam o programa do outro, saem dançando no sapatinho e sobem no palanque. Logo no começo do governo Lula, escrevi, fazendo uma ironia, que os petistas ainda tentariam tomar para si o Plano Real. A ironia virou história. Não reivindicaram a marca porque aí já teria sido descaramento demais. Mas tomaram, sim, para si a bandeira da estabilidade. Querem outro exemplo, mais localizado? Dilma sequestrou o programa de ensino técnico que José Serra apresentou em 2010. O Bolsa Família, e isto é história, é a soma das bolsas concedidas no governo FHC. Tudo isso é apenas matéria de fato.

A regularidade da minha crítica, nesses anos, valeu-me a pecha de “tucano”, embora boa parte dos tucanos, justiça se lhes faça, fizesse questão de deixar claro, mais até do que eu próprio (que não dou bola para o que dizem a meu respeito), que eu não era, não! A maioria deles se quer mais “progressista” do que eu, à minha esquerda. Talvez até seja verdade. De toda sorte, de fato, não tenho vínculo nenhum com o partido, zero! Se certamente passou do milhar os textos em que acusei o estelionato do PT, é possível que, em quantidade idêntica, eu tenha apontado a anemia do discurso oposicionista. De fato, nunca soube zelar pela sua própria herança — e esse é apenas um dos aspectos do embate. Mas, sobretudo, se negou, em horas cruciais, a fazer política.

Pegue-se o exemplo recente da eleição para a Presidência do Senado. Todos sabiam que Renan Calheiros (PMDB-AL) venceria. O PSDB poderia ter feito qualquer coisa, menos trair o senador Pedro Taques (PDT-MT), que aceitou enfrentá-lo. E é evidente que houve traições, não é?

“Minas pensa o Brasil” em 2013? Ok. Mas o PSDB de Minas estava abraçado a seu principal adversário até outro dia na Prefeitura de Belo Horizonte, e isso era apontado como um novo jeito de fazer política. O arquivo de toda a imprensa está aí… Chegou-se mesmo a dizer que a polarização PT-PSDB refletia uma realidade paulista. Ainda me lembro de Ciro Gomes — que agora afirma que Aécio não está preparado para ser presidente — num agradável bate-papo com o então governador de Minas, a sustentar, no fim das contas, que o mal do Brasil era São Paulo; que a clivagem entre os dois partidos só interessava a este estado. Chegou-se mesmo a criar uma expressão para o cruzamento da vaca com o jumento: “Brasil pós-Lula”. À época, como vocês se lembram, cheguei a apontar a tentativa de se criar no Brasil o “Partido Único”, o PUN…

Questões relevantíssimas passaram pelo Congresso ao longo desses anos sem que se ouvisse das oposições, na esfera federal, mais do que uma voz entre administrativista e burocrática. Nos grandes embates, o PSDB, como PSDB, não compareceu para o debate. Não faz tempo, o estado de São Paulo — que é governado por um tucano, certo? — entrou no radar da pauleira petista por causa de um surto de violência e da correta política de combate ao crack. Se eu for escarafunchar, vou encontrar tucanos tentando tirar uma casquinha, criticando a gestão Alckmin…

Apear o PT
Todos sabem que considero uma necessidade democrática apear o PT do poder por intermédio das urnas. Acharia péssimo, se isso fosse possível, que uma Marina Silva o fizesse porque não troco obscurantismo por ainda mais obscurantismo. Se Aécio Neves ou qualquer outro puder fazê-lo, vou achar bom. Mas acho que as coisas estão começando muito mal, por um caminho estupidamente errado.

O seminário que, parece, serve de pré-lançamento da candidatura de Aécio se chama “Minas pensa o Brasil”.  Ok. “Minas”, tornada, então, uma categoria dotada de pensamento, tem um país na cabeça, é isso? O normal, se é para ficar nas prosopopeias, é que o Brasil pensasse Minas e… as demais 26 unidades da federação. FHC falou em “modernidade”, segundo li, na sua intervenção. A ideia de que uma onda comece num estado — eu sei que não há mar em Minas; estou metaforizando — e varra um país como um tsunami virtuoso, vênia máxima ao ex-presidente, um homem muito inteligente, é uma coisa velha. Essa entonação discursiva ficou no passado.

Nesse caso, está faltando que o sociólogo dê um puxão de orelha teórico nos seus aliados. Lula começou na política falando a linguagem da luta de classes para, depois, diluí-la na luta dos “nós” (eles) contra “eles” (nós). A sua geografia era, então, inicialmente, classista (afinal, o PT se dizia socialista) e passou a ser de “valores”, ainda que boa parte deles seja constituída de maus valores. Nesse caso, meus caros, não é sem lamentar que constato — e o faço há quase sete anos só neste blog (há muito mais tempo em outros veículos) —, os petistas deram um fabuloso olé em seus adversários. Sim, com estelionato eleitoral; sim, com mentiras; sim, com apropriação indébita… Com todas essas malandragens, não obstante, o partido não se descuidou de fazer política.

Um seminário em que “Minas pensa o Brasil”, promovido pelo PSDB, faz supor uma de duas coisas: ou toda Minas é hoje tucana, ou também pensam o Brasil os que tucanos não são. Na hipótese de que possam ser petistas — e os há, certo? —, ou estão fora desse pensamento ou perderam a sua, sei lá como chamar, “cidadania”. O PSDB pensando o Brasil, em Minas, talvez ficasse melhor, hipótese em que o leque de lideranças presente deveria ter sido ampliado.

Já sei que alguns vão mandar comentários me esculhambando e coisa e tal. Estou acostumado. Mas, se acho que desse mato não sai coelho, tenho de dizê-lo. Se a questão é “modernidade”, presidente Fernando Henrique Cardoso, não é possível que um estado pense o Brasil. Fico cá a imaginar um seminário chamado “São Paulo pensa o Brasil”… O mínimo que se diria é que os paulistas se querem donos do mundo.  Está errado.

Polarização
Constitui, ademais, erro grave, entendo, aceitar, neste momento, a pauta proposta pelo petismo. Aparecer nas páginas de política “polarizando” com o PT movimenta, quando muito, os setores interessados nos bastidores da política. Essa falsa gesta não mobiliza ninguém. As pilantragens teóricas do governo federal, que manipula, sem resistência e sem massa crítica, os números sobre a miséria promovem uma razia na inteligência.

Eis aí: o que pensa o PSDB sobre a suposta extinção da miséria no Brasil — renda per capita de pelo menos R$ 70 — e sobre a nova classe média, formada por pessoas com renda acima de R$ 300? Afirma-se isso por aí com uma espantosa sem-cerimônia. Esses pobres desgraçados desabrigados pela chuva ou tangidos pela seca, senhores, são, segundo as considerações oficiais, “classe média”! Um ou outro na imprensa ironizam os patamares de renda definidos para a classificação, mas os políticos pulam fora. Os tucanos nada dizem porque alguns de seus economistas compartilham das mesmas teses. Uma campanha eleitoral decente, entre outras coisas, teria de mostrar onde e como mora “a classe média” dos R$ 301 per capita e o “não miserável” dos R$ 70. Mas não vai acontecer.

As oposições não conseguem, insisto nesta tecla há anos, criar valores. Sem isso… Olhem como se dão as disputas nas outras democracias do mundo. Supor que se vai conseguir transformar numa ideia-força o dito “choque de gestão” de Minas, exaltado por FHC, segundo informa o site do PSDB, me parece ingenuidade. Melhor ensinar Schopenhauer para as massas.

Parece que baixou um Chalita rápido em FHC. Esse negócio de que o PSDB “tem de ser o partido do amor”, em contraposição à gestão petista, “mais preocupada com o PIB”, francamente, é bobagem. Coloco na conta do discurso feito para animar a militância. Até porque, fosse essa a clivagem, fosse mesmo uma disputa entre “o amor” e o “PIB”, eu seria petista de olhos fechados, pela simples, óbvia e boa razão de que, com PIB, a gente produz amor em penca, mas não há amor que consiga produzir PIB…

“Ih, Reinaldo está dilmando”
“Tá vendo? O Reinaldo é paulista, não gosta do Aécio, está Dilmando…” Fiquem calmos! Ainda que este “paulista” se atrevesse a “pensar o Brasil”, sou candidato apenas a ter leitores, hehe… Só votaria em Dilma Rousseff, já disse aqui, caso houvesse o risco do obscurantismo marinista chegar ao poder. Mas Deus certamente não vai me considerar digno de passar por essa provação. Votarei, com a exceção declarada, em quem se propuser a apear o PT do poder. Mas este sou eu.

Eu estou preocupado, isto sim, é com a falta de rumo do principal partido de oposição. Se eu achasse que esse discurso tem futuro, estaria mais tranquilo. Mas, sinceramente, acho que não tem. Hoje, entendo, dada a natureza do jogo, só a multiplicação de candidaturas tira de Dilma a eleição no primeiro turno.

Esse negócio de o PSDB morder a isca e apostar, desde já, na polarização só interessa a Dilma. Minas pode pensar o Brasil o quanto quiser. O problema é que tem gente que já está com o jogo mais avaçando e está “pensando”, ainda que à sua maneira torta e detestável, todo o Brasil, incluindo Minas…

Para encerrar: Dilma nem é ingrata nem cospe no prato em que comeu. Os seus ataques de agora a FHC são um método. Como eram um método os elogios feitos há dois anos. Ela o elogiou, independentemente da justeza, porque queria consolidar a imagem da soberana acima das mesquinharias. E agora começou a atacá-lo porque tem uma eleição pela frente.

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