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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Entrevista de Afif é uma coleção de despropósitos e, no limite, acena para a ditadura dos supostos homens virtuosos

No post anterior, vocês leem a entrevista que, atenção!, o vice-governador de São Paulo e ministro da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, concedeu à VEJA.com. É função demais para um nome só, não é? Afif renunciou ao salário do primeiro cargo e escolheu o do segundo. Embora não precise de dinheiro — é […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h17 - Publicado em 9 Maio 2013, 17h13

O vice-governador Guilherme Afif Domingos e o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (News Free/Folhapress)

No post anterior, vocês leem a entrevista que, atenção!, o vice-governador de São Paulo e ministro da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, concedeu à VEJA.com. É função demais para um nome só, não é? Afif renunciou ao salário do primeiro cargo e escolheu o do segundo. Embora não precise de dinheiro — é um homem rico —, fez uma escolha pragmática nesse caso: escolheu o maior. Não quis correr o risco de ficar com o menor e ser acusado de demagogo, acho… Pragmático.

A imprensa pode usar o seu exemplo e dispensar, doravante, o “vice”, chamando-o apenas pelo cargo para o qual é pago. O surrealismo da política brasileira andava a precisar de um emblema: por que não Afif, membro daquele partido que Gilberto Kassab já definiu como “nem de esquerda, nem de direita nem de centro”? O agora ministro acha essa clivagem ultrapassada. Ele deve ter razão: o Brasil tem uma democracia única no mundo porque, por aqui, as pessoas ou estão no governo ou estão fora dele. Se estão, elas tentam nos convencer de que é só para nos ajudar e para promover o bem geral. Que bom!

Afif acha que “política não se faz com o fígado”. Não, não! É preciso ser, ele ensina, “pragmático e raciocinar com a cabeça”. Tá. Segundo entendi, raciocinar com o fígado é ser de oposição; raciocinar com a cabeça é ser de situação. O bilioso se opõe; o pensador é poder. Dá para compreender por que Afif já foi malufista, por exemplo. Raciocinava com a cabeça. E é com a cabeça que o próprio Maluf raciocina quando, ex-ícone de certa direita brucutu, se transforma em aliado do PT. Aliás, se há coisa que os poderosos sempre souberam fazer no Brasil é “raciocinar com a cabeça”. O país pode ir à breca, mas eles se dão bem.

Olhem para a educação, para a saúde, para a infraestrutura, para a segurança pública… De tanto raciocinar com a cabeça, o país ficou assim…

O, digamos, “pensamento” de Afif tem desdobramentos realmente muito interessantes se transformamos a sua “opção pragmática” num conceito, numa forma de ver a política. Ora, ele aceitou o ministério, a gente entende, porque acredita que pode colaborar com o governo petista — embora não tenha sido essa a vontade do eleitor. Se a presidente se mostra disposta a abraçar as suas ideias, bem…

Digamos que todos os políticos fizessem assim… Afif se transforma num apóstolo do fim da democracia. Assim, não só as ideologias seriam coisa do passado, como também o regime democrático. No seu modelo, não há espaço para oposição — pra quê? Ainda que esse governante viesse a se revelar um déspota, mais pragmático seria virar conselheiro do tirano, tentando melhorá-lo, do que se opor a ele, tentando derrubá-lo.

Junto com a democracia, no modelo de Afif, morre também a política como organização da sociedade para interferir nas políticas de estado. Ela se torna uma arte dos senhores da guerra, daqueles que detêm os instrumentos — porque sempre o detiveram — para intervir. A única forma possível do “ser político” é a adesão.

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Aliás, essa constatação não deriva de nenhum voo interpretativo deste escriba. Ele próprio revela ser essa a leitura. Posto diante da pressão para renunciar ao cargo de vice em São Paulo, ele recusa de pronto a hipótese e diz ser isso mera questiúncula da rixa entre o PSDB e o PT, da qual ele não participaria porque, afinal de contas, é um “construtor de pontes”. Assim, desaparecem os partidos e os políticos como reservas ou depositários de valores em torno dos quais a sociedade se organiza.

Ora, é claro que isso é inédito no mundo. E já disse alguém que coisa que não floresceria em nenhum outro solo ou é jabuticaba ou é besteira. Poderia o autor da frase ter oferecido uma terceira hipótese: oportunismo.

Participei certa feita de um longo debate, que avançou por alguns horas, noite adentro. Tentava me convencer o interlocutor de que, na verdade, os “conservadores” é que estão mudando o PT à medida que resolveram ter uma postura colaborativa com o partido, tirando-o da tacanhice esquerdista e empurrando-o para o terreno do pragmatismo.

Dizer o quê? Noto que essa leitura também parte do princípio de que a política morreu — e, portanto, toda divergência seria falta de inteligência. Observo que essa leitura de certa “direita” supostamente pragmática coincide com a extrema esquerda: o PSOL e o PSTU, por exemplo, não pertencem à base do governo porque o consideram, creiam, ou dominado ou muito influenciado pela direta. Leitura que dá razão prática e conceitual tanto à direita como ao PSOL deve estar errada por princípio. E, finalmente, observo que o que interessa nas disputas políticas é saber quem detém a hegemonia do processo, como bem lembrou Gilberto Carvalho quando indagado sobre o apoio de Maluf a Fernando Haddad em São Paulo. E é claro que a hegemonia dessas alianças de gato com rato está com o gato.

Finalmente, noto que nada disso sai barato para o país. Ao contrário: custa caríssimo. Eis aí: temos uma presidente popular, liderando um país emperrado, que tem feito escolhas danosas. Não obstante, ao verificar o tamanho da base governista, a gente tem a impressão de ser governado por uma burocracia de eficiência chinesa, mas liderada por um misto de Schopenhauer com Palas Athena.

A entrevista de Afif, com quem já tive breves e cordiais conversas — é um homem inteligente e nada sei (nem mesmo ouvi falar) que o desabone moralmente —, é uma coleção de despropósitos. Sua visão de mundo, levada ao limite de suas potencialidades, resulta numa ditadura de homens virtuosos.

E toda ditadura é necessariamente viciosa. E a mais viciosa delas é a ditadura do suposto consenso.

Para encerrar
Vejam a foto lá no alto. À frente, o novo ministro; atrás, meio desfocado, o operador desta “nova política”: Gilberto Kassab. O PSD foi o principal beneficiário da decisão do Supremo que garantiu tempo de TV e verba do fundo partidário a novas legendas. Agora que conseguiu o queria, Kassab é um dos patrocinadores do projeto indecoroso que coíbe a formação de novos partidos e quase garante a Dilma o monopólio no horário eleitoral gratuito. Pragmatismo? Nada disso, novo ministro! Trata-se é de um golpe moralmente mixuruca. Pragmatismo não é sinônimo de oportunismo. E para arrematar: ainda que Afif venha a fazer um bem imenso às micros e pequenas empresas, está fazendo um mal imenso à democracia.

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