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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Economist, 170, dá aulas à Igreja Católica, 2000. Ou: E se o vilão também cumprir a sua função na história?

A Economist decidiu dar algumas aulas de gestão e marketing empresarial à Igreja Católica. A realidade imita o humor. O melhor vídeo de todos, a meu ver, do pessoal do “Porta dos Fundos” é “Brainstorm”, aquele em que um desses publicitários “modernos” resolve que está tudo errado com a Igreja Católica, com a Bíblia, com […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h41 - Publicado em 12 mar 2013, 19h55

A Economist decidiu dar algumas aulas de gestão e marketing empresarial à Igreja Católica. A realidade imita o humor. O melhor vídeo de todos, a meu ver, do pessoal do “Porta dos Fundos” é “Brainstorm”, aquele em que um desses publicitários “modernos” resolve que está tudo errado com a Igreja Católica, com a Bíblia, com Cristo… Se o “Irmão Carmelo” quer atrair fiéis de volta, diz o rapaz, tem de mudar tudo, a começar do Cristo. Vale a pena ver. Volto em seguida.

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Alguns católicos ficaram ofendidos. Bobagem! O alvo da ironia não é a Igreja, mas o “publicitário moderno”, o sem-noção, aquele que quer vender não o produto, mas suas “ideias geniais”. Não que os atores e humoristas não possam ser críticos também da Igreja, ora essa! Por que não? Volto à Economist.

Antes de mais nada, deixo claro que sou fã da revista, especialmente nestes tempos em que, com as exceções de sempre, a grande imprensa anda covarde e chata, tornando-se mera caudatária das fofocas influentes das redes sociais, patrulhada pelo politicamente correto. Se alguma minoria influente decidir que matar criancinhas protege o planeta da destruição, então que se imolem os infantes. Boa parte dos veículos abriu mão de ser um farol para guiar seus leitores ou telespectadores (e quem não gostar que escolha outro) para ser mera biruta a indicar para que lado sopra o vento. Convenham: desse jeito, não se faz nem piada. Todo humor tem um fundo dissertativo, eletivo, que aponta para escolhas. Todo humor, na verdade, é moralista. Lema do busto de Arlequim: “Ridendo castigat mores” — literalmente, “rindo, castigam-se os costumes”. Mais precisamente: “Rindo, moralizam-se os costumes”. Adiante.

Desde 1843, quando foi fundada, a Economist tem um ponto de vista. De resto, busca a excelência do texto, tem senso de ironia e defende os valores democráticos e liberais. Já é antiga o bastante para ter previsto, por exemplo, que não haveria a menor possibilidade de o tal “carro” substituir os cavalos. Também previu o fracasso da televisão. Tudo isso confere charme à revista. Mil vezes esses erros à covardia da imprensa moderna.

No tempo de eu ser menino (recorro a uma construção arcaizante para dar noção do tempo), dizia-se algo assim do Estadão. É… Não deixo de ter saudade (pensando exclusivamente na qualidade do produto jornalístico) do tempo em que havia uma caricatura a meu ver positiva do veículo. Reproduzindo o que seria um suposto editorial do jornal, alguém dizia: “Como advertimos o Vaticano…”. Sei lá se, algum dia, o Estadão advertiu o Vaticano… Mas eu gostava dessa ideia, que remetia à corajosa assertividade que tinha esse jornal.

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A Economist advertiu, sim, o Vaticano! Seguindo a sua tradição, decidiu dar algumas aulas à Santa Sé. A Igreja tem de se comportar, diz a revista, como se fosse uma empresa privada. Precisa punir funcionários relapsos, preocupar-se com a sua imagem pública, ser agressiva no marketing (olha o “Porta dos Fundos” aí…), renovar suas estratégias todos os anos, não a cada século…

Graaande Economist! Do alto de seus 170 anos, a revista dá uma aula sobre como deve se comportar, então, uma empresa que tem… dois mil anos! Reitero: antes essa doce arrogância do que a pasmaceira nem-nem que tomou conta da imprensa ocidental, sempre servil à ONG da primeira esquina. Se a Economist acha que pode ensinar como deve agir a Igreja para durar no tempo, por que não?

Dividida na unidade
Em tempos de Vatileaks e Wikileaks, tendemos a ter uma ideia um pouco tola do que seja transparência. Ela é útil e necessária, é evidente, até o limite da sobrevivência da própria instituição. Quantas sobreviveriam realmente num aquário de vidro transparente?

Lembro esse aspecto porque esse conclave já tem um vilão, o secretário-geral do Vaticano, Tarcisio Bertone. Ora é tratado como um promotor de maldades, ora como um encobridor delas. O próprio papa Bento XVI tinha autoridade para tornar públicos os documentos mais escabrosos, e não seria Bertone a impedi-lo. Das duas uma: ou há certo exagero aí ou parte dos escândalos pode mesmo afetar a própria estrutura da Igreja. Terão de ser corrigidos, jogando-se fora a água servida, mas preservando o Menino Jesus, não é? Não se deve jogar fora a criancinha junto com a água suja.

Falo só pensando na lógica: por mais que Bertone, aos olhos do mundo, fique bem na figura do vilão, é necessário verificar se ele é também um vilão quando se pensa nos interesses da Igreja. Interesses necessariamente malévolos? Não! A Igreja Católica ainda é a maior rede de assistência social do mundo. Não é preciso ser crente para constatar que o principal compromisso é, e é mesmo!, com os que mais sofrem.

Não sei quem será papa, mas não esperem que o futuro Pontífice vá promover uma razia na Cúria. Não vai. Se o fizesse, não estaria preparado para o cargo. Ainda que o escolhido venha a ser mesmo Angelo Scola, que é favorito e desafeto de Bertone, o passo seguinte será a busca da unidade.

Convenham: a Igreja Católica poderia dar algumas dicas à Economist para que esta sobreviva dois mil anos, não é? Mas um dos charmes e da força da revista é achar que pode ser o contrário. Aborrecido, de verdade, é o jornalismo que virou mero funcionário burro das causas influentes.

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