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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Dilma, segundo o marketing, gosta de debater literatura, cinema e música!

No post anterior, vocês lêem trechos da resolução do PT. O partido está mandando um recado à sociedade — e, segundo alguns, seria dirigido também a Dilma: este é o terceiro mandato do PT, e quem começou a transformação foi Lula. É evidente que o partido, e o próprio Apedeuta, que manda lá, se previnem […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 12h52 - Publicado em 10 fev 2011, 19h01

No post anterior, vocês lêem trechos da resolução do PT. O partido está mandando um recado à sociedade — e, segundo alguns, seria dirigido também a Dilma: este é o terceiro mandato do PT, e quem começou a transformação foi Lula. É evidente que o partido, e o próprio Apedeuta, que manda lá, se previnem da eventual, mas remotíssima, possibilidade de que Dilma viesse a ensaiar algum vôo solo. Isso é praticamente impossível, ainda que ela quisesse, porque não existiria base partidária que suportasse tal intento. É por isso que a análise de Jabor (posts abaixo) não passa de uma bobagem.

Na resolução dos seus 31 anos, ornada com as empulhações de sempre, não escapa ao PT o esforço, que é real, de certos setores da imprensa de transformar Dilma numa princesa, enquanto Lula é “despromovido” à condição de sapo. Grandiloqüente e meio paranóico como sempre, o partido considera que se trata de uma “orquestração da direita”. Huuummm… Tolice! O partido governa com Sarney, Renan Calheiros e os patriotas do PR, mas se quer um esquerdista puro-sangue. Não que uma esquerda autêntica representasse um ganho moral, deixo claro.

Existe o esforço da marquetagem para construir uma Dilma independente? Existe, sim! O próprio PT deu sinal verde para isso, mas quer evitar exageros. Nesta quinta, uma reportagem no Estadão sobre os 31 anos do PT deu o que pensar. O repórter João Domingos avisou:
De acordo com informação de auxiliares da presidente, ela procura não fazer distinção entre um ministro petista e um de outro partido e procura se ater mais aos objetivos traçados para as pastas do que se inteirar das últimas ‘fofocas’ partidárias.”

Fica, assim, evidente que “auxiliares da presidente” são a fonte da reportagem, certo? Logo, o que se lerá é fruto da consideração e da construção de pessoas empenhadas em plasmar a imagem da Dilma estadista — ou “rainha”, como quer João Santana. O trecho acima já dá o que pensar: ela se ocupa com “objetivos traçados”; por contraste, Lula gostava das “fofocas partidárias”.

As diferenças, segundo os “auxiliares”, não seriam só essas. Leiam este outro trecho muito impressionante:
“Ao contrário de Lula, que fazia festa toda a vez que se encontrava com velhos militantes petistas, Dilma não age assim. Até porque não teve origem no PT, mas no PDT de Leonel Brizola. Lula gostava de falar de pescarias, futebol e do tempo de sindicato. Dilma prefere falar de artes, literatura e música. Gosta um pouco de futebol, mas não a ponto de gastar o tempo nas intermináveis e acaloradas discussões que o assunto costuma gerar.”

Como se vê, a candidata que, num famoso vídeo do YouTube, não consegue dizer o nome do livro que está lendo foi alçada à condição de intelectual, posição a que seu antecessor jamais aspirou. Muito pelo contrário: sempre fez questão de transformar a própria ignorância numa categoria de pensamento e numa sabedoria superiormente rústica. Antes do treino intenso, Dilma demonstrava um domínio da Inculta & Bela inferior ao do Apedeuta. Agora, parece rivalizar com Padre Vieira.

Desagrado
Áreas do petismo não gostam dessa abordagem, que sabem nascer no entorno da própria presidente. A construção de uma Dilma com vontade própria, que não seja mero mamulengo, é necessária, mas comporta alguns riscos. Lula é muito vaidoso. No íntimo, está um tanto infeliz. Mas estaria em qualquer caso. Ele também acha que esse é o terceiro mandato do PT — e, pois, seu terceiro mandato.  E, vamos convir, Dilma não exstiria sem ele. Ainda que os mistificadores do dilmismo estivessem quietinhos, o Babalorixá estaria um tanto ressentido.

Ocorre, queridos, que essas contradições são coisas de pura superfície. Que importância podem ter? Hoje certamente ouviremos a voz de Lula na comemoração dos 31 anos do partido, quando receberá a chave da legenda, voltando a ser seu presidente de honra. Ficará claro, na festa, quem é o chefe onde Dilma é apenas a convidada de honra. E ela sabe disso. Quais são as chances de essa tensão, que é só estrutural — ainda em busca de um conteúdo —, render alguma coisa? A minha resposta: nenhuma!

“Ah, Reinaldo, então quer dizer que tudo é a mesma coisa, que é tudo igual?” As coisas só são iguais a si mesmas. Diferenças existem. A questão é saber se elas são uma lanterna na proa ou na popa. E eu estou entre aqueles que acreditam que elas iluminam mais o passado do PT do que o futuro. Como imagem pública, Dilma está construindo uma personagem. Isso tem lá o seu interesse. Politicamente, continua a não existir sem Lula.

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