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DE MARGINAIS E HERÓIS

Alô, alô! A hora é agora! É preciso despachar Laura Capriglione, repórter da Folha, para Salvador imediatamente. Algo acontece na terra do axé, e precisamos de um pouco de sociologia da violência por lá. Laura precisa desembarcar na capital da Bahia e gritar: “Aí, pessoal! Tira o pé do chão, que eu vou começar a […]

Alô, alô! A hora é agora! É preciso despachar Laura Capriglione, repórter da Folha, para Salvador imediatamente. Algo acontece na terra do axé, e precisamos de um pouco de sociologia da violência por lá. Laura precisa desembarcar na capital da Bahia e gritar: “Aí, pessoal! Tira o pé do chão, que eu vou começar a pensar…” Por que a minha reivindicação? Vamos aos fatores antecedentes.

Laura costuma ser a enviada especial da imprensa paulistana aos movimentos sociais que degeneram em violência, às vezes por culpa das vítimas, claro! Eu explico: baderneiros invadem a reitoria da USP, por exemplo, e emporcalham tudo, deixando o rastro de sua miséria intelectual e moral por onde passam. Ela vai lá e evidencia que, de fato, nada mais são do que cultores da utopia, sonhando com um outro mundo possível — eventualmente sem sabonete, detergente e bons modos… Ela é uma espécie de Rimbaud em prosa da classe média esquerdopata: empresta seu verbo ao desregramento sistemático dos sentidos dos Remelentos & Mafaldinhas. Quem é a vítima daquela gente? Os estudantes que querem estudar, a reitoria, o contribuinte, eventualmente a ciência e, é óbvio, até a polícia, que é satanizada como “a repressão”. Os marginais — não aqueles de Hélio Oiticica — viram seus heróis.

Ela também pode emprestar sua sociológica poética ao “povo popular”. No bairro de Heliópolis, em São Paulo, bandidos se aproveitaram da justa indignação da população com o assassinato da garota Ana Cristina Macedo e meteram fogo em ônibus e viaturas da Polícia e do Corpo de Bombeiros. Houve até uma convocação para o protesto com promessa de distribuição de cestas básicas.

Mas vejam só… Se há um monte de pobre junto, se eles protestam, se há um morto entre eles, bem,  há nesse “combo de oprimidos” o apelo inevitável da velha senhora que morreu anteontem: a luta de classes, aquela que Laura e até eu próprio acreditávamos que ainda vivia em 1980, 1981, quando éramos da Libelu. Mas a velhota já tinha morrido. Laura não sabia. E ninguém lhe contou até hoje. Se houver, então, incêndio de ônibus, de viaturas. Bem, aí é a chama da revolução… Foi uma festa de baixa sociologia espalhada pelos jornais. Até o ombudsman da Folha deu um pitaco no jornal, imaginem!, sugerindo que se buscassem as causas estruturais daquilo tudo — que, suponho, devem ser econômicas e sociais, né? Ele ainda vai acabar descobrindo Karl Marx até o fim do mandato…

Na favela, Laura constatou que a vítima era nordestina. E emendou: “Como ela, 91% dos habitantes de Heliópolis nasceram no Nordeste ou são filhos de nordestinos.” Huuummm…  Em Salvador, também deve ser assim, né??? Ouviu lideranças muito magoadas porque houve acusações de que traficantes instrumentalizaram o protesto. Leiam este trecho:
“Houve pessoas que pegaram carona na revolta legítima pela perda da nossa jovem? Houve. Mas foi a indignação que motivou o protesto”, afirma Antonia Cleide Alves, nordestina, presidente da União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco.

A dona Antonia Cleide confirma, como se estivesse negando, o que se afirmou: houve manipulação do protesto. A menos que considere que o povo, quando fica bravo, deve mesmo é meter fogo em carro de polícia e de bombeiro. O que Laura não informa — e quase não se informou em lugar nenhum — é que os ônibus não foram queimados porque os soldados estavam lá; os soldados só estavam lá porque se queimavam ônibus. Entenderam? E aí os patriotas aproveitaram para incendiar as viaturas também.

A favela de Heliópolis, até Gilberto Dimenstein confirma — ele, que é do mesmo jornal e adora esse negócio de “povo popular” e ONGs —, é uma das áreas públicas de São Paulo em que o Poder Público está mais presente. Assim, como é que Laura iria justificar a origem social da violência se a intervenção pública dos últimos anos desmoraliza a tese? Ela deu um jeito. Assim:
“Há uma divisão em Heliópolis que quem está fora nem imagina. Lá [refere-se ao núcleo mais organizado da favela], tem orquestra sinfônica, tem quadras de esportes, tem programas de profissionalização, tem lavanderia comunitária, tem artista de TV e o presidente Lula visitando. Aqui, não tem nada. Não tem creche. Não tem esgoto. Não tem espaço para as crianças brincarem.” A frase é de Olivia Silva Soares, 48, diretora da Associação Unidos de Vila Carioca, o núcleo miserável da favela.

Eu mesmo já havia escrito aqui que Heliópolis é um bairro com diferenças internas. Que se pode comprar por ali um barraco de R$ 8 mil ou uma casa de alvenaria de R$ 80 mil. Como os senhores leitores sabem, o mundo livre é mesmo assim. A igualdade só é possível debaixo do chicote socialista, distinguindo-se, claro, quem usa o chicote e quem usa o lombo; quem tem papel higiênico e quem usa as palavras impressas de Fidel Castro no Granma… Vocês sabem: em liberdade, a riqueza gera desigualdades; e a pobreza — surpresa!!! — também.  Há quem não vá aprender isto nunca, mas dou de novo a lição de Massinha I: a pobreza não é nem uma moral nem uma ética. Adiante.

Impedida de usar a ausência do poder público como causa da violência, mas forçada pelo seu aparelho mental a fazê-lo, ela, então, procedeu à divisão de Heliópolis em favela pobre e favela rica; em favela integrada e favela marginal; em favela conformada e favela conflagrada. Laura estudou física. Não é uma ignorante em lógica. Para que o seu “Eles não ligam para nós” fizesse algum sentido, embora continuasse falso, forçoso seria provar que a menina morta era do núcleo pobre, que os que protestaram eram do núcleo pobre, que os atos de violência se deram no núcleo pobre. Seria preciso, em suma, que houvesse, com  personalidade própria, uma favela dentro da favela.

No caderno de Cidades do Estadão, uma certa (ou certo, sei lá eu) Marici Capitelli inventou uma coisa chamada “Geração Heliópolis”. Trata-se de um amadorismo caprigliônico. Leiam:
“Eles podem ser chamados de geração Heliópolis, pois nasceram e cresceram na maior favela da cidade. Foi uma parte desses jovens na faixa dos 15 aos 20 anos que enfrentou anteontem a Tropa de Choque, queimou e depredou veículos. Ontem, eles estavam pelas esquinas onde cresceram, contando sobre o dia em que enfrentaram a Polícia Militar. Mais do que a morte da estudante, na noite de segunda-feira, a garotada disse que o confronto foi um ato de vingança contra a PM.”

Com a devida vênia e o respeito que tenho pela cobertura que o Estadão faz de política, trata-se de um parágrafo intelectualmente delinqüente. Os próprios líderes de moradores de Heliópolis admitem que houve gente se aproveitando da indignação. Não para Marici, que já julgou e deu o veredicto. O encantamento não despreza nem clichê publicitário: “Os adolescentes admitem que sentiram medo durante o confronto. ‘Lutamos pelos nossos direitos’, afirmou Jeferson. As mães não concordaram com a atitude dos filhos, que foram repreendidos em casa. Mas, para eles, a desobediência não teve preço.’”

Agora a Bahia
Em três dias, bandidos atacaram cinco postos da Polícia Militar em Salvador, meteram fogo em sete ônibus, atacaram a tiros um supermercado do estado da rede Cesta do Povo, feriram cinco civis e três PMs. Estaria tudo fora do controle por lá, ou esse tipo de “abordagem crítica” não interessa porque, afinal, Jaques Wagner não é candidato à Presidência da República? Estaria eu aqui tentando a acusar o governador, que é do PT, pela série de ataques?

Sendo Jaques petista, a chance de que eu discorde de sua abordagem seja lá do que for é enorme. Mas bandido é bandido em qualquer lugar do Brasil: em São Paulo, na Bahia, no Rio, em Minas…

Quando é que certo jornalismo vai se convencer de que não existem nem mesmo bandidos de esquerda – ainda que muita gente esteja certa de que todo esquerdista é, de algum modo, bandido? A idéia de que podemos encontrar, no mundo contemporâneo, bandoleiros primitivos que, mesmo sem saber, portam uma verdade essencial e que questionam, a seu modo, o establishment é só uma tara intelectual de quem acredita nas virtudes purgativas e curativas da violência.

É uma estupidez, uma burrice, uma crueldade mesmo, imaginar que o “povo”, o “bom povo”, sai por aí incendiando ônibus que ele próprio vai usar e viaturas de polícia. Laura está certa de que ela própria não faria isso; a (o) tal Marici também. E por que “o povo” de Heliópolis o faria? Será que eu, Laura e Marici sabemos distinguir o bem do mal, o certo do errado, o protesto aceitável do protesto inaceitável, mas não o povo da favela?

No fundo, essa gente tem é um profundo desprezo pelo povo e o trata como um amoral, capaz de qualquer barbaridade. Mas não duvidem: o “reacionário” sou eu; “progressistas” gostam de incendiários.

E não, não pego no pé de Laura. Não chego a ser o seu Petrarca, mas, à sua maneira, ela não deixa de ser uma de minhas musas…

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