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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

De furiosos e esperançosos

O Estadão publica hoje um excelente artigo do colunista David Brooks, do New York Times, sobre as eleições nos EUA. Ao lado do meu amigo Caio Blinder, a quem saudei ontem num post publicado às 19h51, é um homem que compreende profundamente a política americana. Caio e Brooks são leituras complementares — nem um nem […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 21 Feb 2017, 09h25 - Publicado em 3 Nov 2010, 22h48

O Estadão publica hoje um excelente artigo do colunista David Brooks, do New York Times, sobre as eleições nos EUA. Ao lado do meu amigo Caio Blinder, a quem saudei ontem num post publicado às 19h51, é um homem que compreende profundamente a política americana. Caio e Brooks são leituras complementares — nem um nem outro se ofenderiam com a parceria. O nosso colunista explica por que a esmagadora vitória republicana não é o fim do mundo para Obama do ponto de vista democrata. E Brooks faz o mesmo do ponto de vista republicano. Segundo Brooks, também os adversários do presidente terão de se haver com a realidade, e a vitória expressiva — a maior da oposição em mais de 60 anos nas eleições intermediárias — também impõe responsabilidades.

Brooks escrevia ainda antes de saber o resultado da eleição, humilhante, sim, para o governo Obama. Pode-se ler — publico a íntegra no post abaixo — o que segue:
Dois anos atrás, quando os democratas voltaram ao poder, os moradores de Washington sentiram no ar uma faísca de eletricidade. Livros de fotos celebrando a aurora de uma nova era foram publicados.
Hoje o clima é diferente. É possível que os republicanos obtenham maioria no Congresso, mas todos estão escrevendo a respeito da fúria, e não da inspiração. (Nota aos jovens jornalistas: as vitórias democratas sempre são atribuídas à esperança; as vitórias republicanas são fruto da fúria.) A principal mudança ocorreu no campo dos possíveis vencedores. Dois anos atrás, os democratas entregaram-se ao romantismo. Este ano, os republicanos parecem modestos e cautelosos.

Atenção!
Chamo a atenção dos senhores para o que vai em negrito: a mensagem que Brooks transmite aos “jovens jornalistas”, embora esse tipo de “juventude” a que ele se refere não tenha a ver só com idade: nada impede que um homem maduro pense como uma adolescente. Adiante. Dá-se de barato, então, que republicanos excitem a “fúria”, e os democratas, a “esperança”, de sorte que uns se tornam monopolistas de uma coisa, e os outros, da outra. Aí está nada menos do que a semente do pensamento totalitário. Como tenho escrito aqui tantas vezes, o que legitima o governo é a oposição.

O valor principal da democracia está em se poder dizer “não”. Os pleitos dos republicanos são tão legítimos quanto os dos democratas. E deve ser considerado corriqueiro, não um anátema, que pessoas prefiram uns aos outros. Inaceitável é apostar que um dos lados da contenda deva ser “extirpado”, como pregou o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva num palanque em Santa Catarina. Inaceitável é tratar a oposição como Lula o fez na entrevista de hoje — escrevi vários posts a respeito.

Nos EUA, Obama colhe o fruto da insatisfação da maioria da população com as políticas públicas implementadas pelo governo. Pode-se até achar injusta a reação do povo, mas certamente ela não é ilegítima. Uma coisa é não gostar da escolha da maioria — como eu não gostei, por exemplo, aqui no Brasil; outra, distinta, é transformá-la na expressão do mal. Ou será que o povo que elegeu Obama há dois anos reproduzia vontade dos anjos, e o que vota nos republicanos, a do capeta? Será o “bom povo” o que vota de acordo com o que a gente quer, e o “mau” o que vota contra as nossas “esperanças”? Ora…

Sei bem onde acaba esse tipo de progressismo; sabemos todos. Reitero: espero que as oposições no Brasil tenham como exemplo e norte o comportamento dos republicanos nos EUA — e não sei, evidentemente, se Obama será reeleito ou não. Que exemplo é esse? Conseguirão reproduzir aqui o conteúdo das contendas de lá? É claro que não! Torço para que tenham a coragem de enfrentar a máquina oficial sabendo que, ao fazê-lo, quem se fortalece a democracia, que tem na possibilidade de alternância de poder um de seus princípios. E o povo julga se faz ou não a troca de guarda.

O que não é possível é transformar essa possibilidade numa ameaça de “retrocesso”. Quem assim procede não gosta de democracia; quer é ditadura. Os mais espertinhos tentam buscar uma síntese entre esses extremos: pretendem usar a democracia para, por intermédio dela, satanizar os adversários, buscando referendar sua ditadura nas urnas. E é desses que devemos mais nos guardar porque fazem um jogo cínico, oblíquo e subterrâneo.

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