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DATAFOLHA 1 – Pergunta sobre impeachment de Temer está errada e obtém resposta igualmente errada

Será mesmo que o impeachment de Dilma, agenda que levou no dia 13 de março mais de 3 milhões às ruas, tem uma taxa de adesão praticamente igual à do impeachment de Temer, que nunca mobilizou ninguém? Com a devida vênia, a resposta é “não!” Essa é uma realidade criada apenas pela pesquisa

A Folha deste domingo traz números de uma pesquisa Datafolha sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff e de deu vice, Michel Temer, e sobre as preferências dos brasileiros numa eleição presidencial. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Petralhas os mais variados estão relinchando de satisfação de orelha a orelha, embora não haja razão para isso. Mas a gente aprende uma lição ao longo da vida: relinchar é um dado da natureza. Não peça a um burro que cante uma ária de “A Flauta Mágica”. Não vai acontecer.

O instituto fez a 2.779 eleitores, nos dias 7 e 8 de abril, a seguinte pergunta:
“Os deputados deveriam votar a favor ou contra o afastamento da presidente?”

Disseram que deveriam votar a favor 61% dos entrevistados. Há menos de um mês (17 e 18 de março), eram 68%. Afirmaram ser contra 33% — 27% no levantamento anterior. A diferença, hoje, é de gigantescos 28 pontos, mas era de 41 há três semanas, caindo 13.

Considerando que nada de muito espetacular aconteceu nessas três semanas, exceção feita ao conteúdo da delação da Andrade Gutierrez, que torna a situação de Dilma um pouco mais difícil, tendo a achar que o Datafolha errou antes ou agora. O percentual dos que acham que ela deveria renunciar caiu, em três semanas, de 65% para 60%.

Querem saber? Não tenho muita paciência para ficar brigando com números. Sempre fica parecendo chororô de quem não gostou do resultado. E este está a indicar que que os que cobram o afastamento de Dilma são quase o dobro dos que não o querem. Minha restrição à pesquisa não está aí. Parto do princípio de que a aferição de números é honesta — até porque uma ligeira queda nos pró-impeachment seria até explicável (ainda falarei a respeito). O busílis é outro.

Não faz sentido
Não faz sentido, a meu ver, o Datafolha indagar se as pessoas são favoráveis ao impeachment de Michel Temer. Trata-se de um erro brutal cometido pelo instituto, ao qual a Folha dá enorme destaque porque, suponho, encomendou o levantamento.

A propósito: disseram “sim” ao impeachment de Temer 58% dos entrevistados, e não, 28%. Dados esses números, a situação seria pior para ele do que para ela: o saldo negativo de Temer seria de 30 pontos; o de Dilma, de 28. Os mesmos 60% dizem que ele deveria renunciar.

Problemas os mais distintos se combinam. E trato deles:
1: impeachment de Temer por quê? O que há contra ele até agora, além de uma liminar destrambelhada, concedida por Marco Aurélio, obrigando a instalação da Comissão Especial, decisão que será certamente derrubada? Resposta: nada!

2: É quase certo que 100% dos brasileiros saibam quem é Dilma. Mas quantas pessoas, vocês avaliam, realmente sabem quem é Michel Temer? Sou capaz de apostar que seu índice de desconhecimento está bem acima de 50%. Logo, dizer-se a favor do seu impeachment nada mais traduz do que fastio à política e aos políticos, vistos como farinha do mesmo saco.

3: Há perguntas que não devem ser feitas porque o resultado está dado, e é bem possível que a gente, por bons motivos, não queira saber. Indague se a população é contra ou a favor a castração — a física mesmo, não a química — de molestadores. E quanto a cortar o braço de assassinos e traficantes? Na civilização, a gente evita fazer as perguntas erradas para não obter as respostas que serão, necessariamente, erradas.

4: Não estou comparado o vice a essas figuras execradas pela população, é claro! Só me parece que, dado o ambiente político, falar na “saída de todos” soa como uma posição simpática, embora irresponsável. Emprego exemplos extremos apenas para chamar atenção para o fato de que o “impeachment de Temer” — ou sua renúncia — é uma agenda cujas implicações só uma extrema minoria conhece. Ela só surge como maioria em pesquisa em razão do compreensível ódio à política.

5: “Ah, mas se você mesmo admite que a maioria desconhece Temer, como ele será presidente?” Porque é o que preconiza a Constituição. Vices costumam ser desconhecidos por natureza.

6: Vamos ver, então: praticamente 100% dos brasileiros conhecem Dilma. As lambanças em curso foram comandadas, obviamente, por seu partido. Temer não tem nada com isso. Delações premiadas ou a põem no centro do escândalo ou evidenciam que é relapsa. O vice, sabidamente, não participa da administração. Não há delações premiadas contra ele, mas há contra Dilma.

O vice também não pedalou, mas ela foi uma exímia bicicletista. A brutal incompetência do governo não deve nada a Temer e deve tudo a Dilma, Lula e aos petistas. Fica a pergunta: faz sentido que praticamente o mesmo número de pessoas peça o impeachment da presidente e do vice? Resposta: é claro que não!

Será mesmo que o impeachment de Dilma, agenda que levou no dia 13 de março mais de 3 milhões às ruas, tem uma taxa de adesão praticamente igual à do impeachment de Temer, que nunca mobilizou ninguém? Com a devida vênia, a resposta é “não!” Essa é uma realidade criada apenas pela pesquisa.

Também a avaliação do governo teria melhorado um pouquinho: há três semanas, 69% o achavam ruim ou péssimo; agora, 63%. Apenas 10% o viam como ótimo ou bom; agora, 13%. Os que dizem ser regular oscilaram de 21% para 24%.

Faz sentido
Faz sentido certa melhora dos índices do governo, ainda que os números sejam vexaminosos? Faz. Lula está em campanha eleitoral aberta, o governo partiu para a guerra, seus aparelhos estão assanhados, os militantes estão com sangue nos olhos…

O que realmente não faz sentido é a indagação sobre o impeachment ou renúncia de Michel Temer. A menos que seja para fortalecer uma tese ou uma agenda: a da realização de eleições.

Nota final
O Datafolha pergunta se o entrevistado é contra ou a favor da realização de novas eleições caso Dilma e Temer saiam. Dizem-se favoráveis 79%, e 16%, contrários. Também essa pergunta não procede, né? Não é questão de gosto. Se o duplo impedimento se der até 31 de dezembro de 2016, haverá eleições diretas. Se ele ocorrer em qualquer dia a partir de 1º de janeiro de 2017, seria o Congresso a escolher o comando.

No fim das contas, a pergunta real aí é outra, injustificável: “Você é a favor ou contra a que se cumpra o que está na Constituição?”.

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