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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Cuidado! Os amigos dos pobres e dos bichos estão em ação

Na sexta-feira passada, tinha uma consulta à tarde no Hospital Albert Einstein. Não dirijo, como sabem. Nunca nem liguei um carro — hoje, basta apertar um botão. Não tive essa curiosidade. Vai que aquele troço dê um solavanco… Um desafeto pode indagar: “Como pode tentar lidar com ideias um idiota como você, que não consegue, […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 04h36 - Publicado em 21 jan 2014, 21h00
Táxi no corredor da Rebouças; avenida congestionada, área de ônibus livre — inclusive dos... ônibus!

Táxi no corredor da Rebouças: avenida congestionada, área de ônibus livre — inclusive dos… ônibus!

Na sexta-feira passada, tinha uma consulta à tarde no Hospital Albert Einstein. Não dirijo, como sabem. Nunca nem liguei um carro — hoje, basta apertar um botão. Não tive essa curiosidade. Vai que aquele troço dê um solavanco… Um desafeto pode indagar: “Como pode tentar lidar com ideias um idiota como você, que não consegue, ao mesmo tempo, cuidar de dois pedais, mover o volante e olhar para a frente e para um retrovisor central e dois laterais?”. Pois é, leitor inimigo… Já bati o carro só de escrever… Não tem jeito! É uma tarefa para humanos acima da minha medíocre condição. Admiro sinceramente as pessoas que dirigem. Adicionalmente, tenho uma miopia fabulosa (vai ficando menor com a idade, mas ainda é robusta). Enfim, eu poupo os outros da minha falta de jeito e de talento. “Menos quando escreve”, insiste o petralha viciado em mim, hehe…Retomo. Tinha uma consulta às 19h30 no Einstein. Decidi sair daqui às 18h. Minha mulher, um desses humanos superiores capazes de conduzir aquela máquina, se ofereceu para me levar. “Não, vou de táxi por causa do corredor da Rebouças, ou vamos demorar mais de duas horas para chegar lá.” E assim fiz.

Fui bem-sucedido. Rampa do Pacaembu livre; a Rebouças toda parada, como sempre, mas os corredores de ônibus fluíam. O táxi deslizou por ele. Não atrapalhamos um único coletivo, nada! Cheguei a meu destino em 25 minutos. No meu próprio carro, dado o congestionamento, não teria levado menos de duas horas. “Por que não vai de metrô?” Porque ele ainda não chegou ao Morumbi. “E de ônibus?” Seriam necessários pelo menos quatro — oito com os da volta. Síntese: se e quando os táxis não puderem mais circular no corredor, haverá, em casos assim, um carro a mais na rua — o meu. Como eu, há milhares de outras pessoas.

Existem 35 mil táxis em São Paulo. O motorista que me levou ao hospital afirmou que faz, por dia, 12 corridas. Mas disse não ser dos que mais trabalham. Afirmou que há quem só pare depois de pelo menos 20. Operarei com uma média modesta: 10. Fazem-se pelo menos 350 mil corridas por dia. Segundo ele me diz, em metade das vezes, transporta dois passageiros; mais raramente, três. Nos fins de semana, por causa das baladas, é frequente conduzir até quatro. Pergunto: o táxi não é também, a seu modo, transporte coletivo? Se e quando forem proibidos de circular nos corredores, será que donos de carro migrarão para o ônibus e pronto? Não! Haverá mais carros na rua, extremando os problemas de trânsito.

Mas não tem jeito. A Prefeitura falsifica a realidade ao afirmar que se trata de uma exigência do Ministério Público. É? Sim, o órgão ameaça representar contra a Prefeitura porque os gênios de Fernando Haddad fizeram um estudo demonstrando que os táxis deixavam mais lentos os ônibus. Basta circular de táxi nos corredores para perceber que isso é falso. Digamos, no entanto, que verdadeiro fosse: mais lento quanto? A depender do percentual, melhor arcar com essa lentidão do que com o acréscimo de milhares de carros nas ruas.

Fosse uma questão apenas técnica, de conciliação das várias necessidades de São Paulo, o certo seria permitir que táxis circulassem não só nos corredores, mas também nas faixas — inclusive vazios, para que pudessem chegar com mais rapidez aos clientes. Quando puder, leitor, se ainda não o fez, vá a Nova York ou a Buenos Aires. Veja o número de táxis que há nessas cidades e depois compare com São Paulo, Rio, qualquer outra capital brasileira. Houvesse vontade de resolver problemas em vez de criar proselitismo ideológico e luta de “ricos” contra “pobres”,  Haddad daria um jeito de, primeiro, fazer com que donos de carro migrassem em maior número para os táxis. Para milhares de pessoas, o “custo tempo” é muito mais importante do que o “custo dinheiro”.

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Mas não! Haddad, que hoje hostiliza os donos de automóveis, apesar de seu partido estimular a compra de carros, decidiu hostilizar também os motoristas de táxi e os usuários do serviço. Eis o PT: essa gente é especialista em promover a guerra de todos contra todos.

Os bichos
Para chegar ao Einstein, no caminho que faço, tenho de passar pelo Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo. Havia lá um grupo de uns 15, 20 militantes, com cartazes. Eles cobravam que o governador Geraldo Alckmin sancione uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa — na esteira daquela barbaridade cometida contra o Laboratório Royal —, que proíbe o teste em animais de produtos cosméticos, de higiene pessoal e de perfumes e seus derivados. “Também os de higiene pessoal?” Também! Parece que o essa área do saber é considerada mera frescura…

Que se note: a indústria cosmética quase não usa mais bichos. Na maioria das vezes, os testes são mesmo feitos in vitro. No Royal, diga-se, os animais eram usados apenas para testar remédios. Aquela gente em frente ao Palácio só estava lá protestando, firme e saudável, em razão de alguns bichinhos que serviram à ciência. O governador tem até quinta para sancionar ou não a lei. Parece-me evidente que se trata de uma questão federal, não estadual. Até porque, a depender das restrições que se criem, empresas deixarão São Paulo, desempregando pessoas, para se instalar em outros estados.

Higiene pessoal, cosméticos, perfumes… Será isso tudo supérfluo? A depender da decisão que se tome, também nessa área, o único resultado será a punição de pessoas. Que diferença faz empregar um animal em São Paulo ou em outro estado qualquer? Mas faz toda a diferença para quem vai perder o emprego, não? Sem contar que há, obviamente, um apelo obscurantista nessa história. Mas essa gente sabe que o espírito estúpido do tempo está a seu favor. Essa militância já chegou à imprensa.

Novo encontro
Passei pela minha consulta; fiz lá as minhas negociações com o Jairo Hidal (“haja paciência”, ele deve pensar!) e desci até o andar onde param os táxis. Aquele mesmo grupo que estava no Palácio do Bandeirantes havia decidido ir até o hospital para usar o banheiro, beber água, essas coisas… A turma usava com muita destreza um espaço particular, certa do seu “direito” de impor tanto ao público — o conjunto dos paulistas — como ao privado (o hospital) as suas vontades, as suas necessidades, a sua visão de mundo. Seja para defender bichos ou para fazer xixi, comportam-se como soberanos.

“Que ironia!”, pensei (enquanto aguardava o táxi, que não chegou; peguei outro na rua). “Esse hospital deve salvar centenas de vidas por dia porque pesquisadores que aquela gente certamente acha desprezíveis souberam estabelecer uma hierarquia entre o homem e os outros animais. Não eram torturadores; não eram sádicos, não eram maus; ao contrário: queriam salvar vidas.”

Líquidos expelidos e ingeridos, lá se foram os amigos dos bichos, certos de ter cumprido a sua missão: anunciar ao mundo a sua bondade e a maldade alheia. Outros, nem tão bonzinhos, continuarão a fazer pesquisas para preservá-los de suas próprias convicções, curando-os de doenças e preservando-lhes a vida. Peguei meu táxi de volta, pelo corredor — eu, um usurpador do direito natural dos pobres, segundo o Ministério Público e Fernando Haddad. Afinal, eu sou mau. Eles são bonzinhos.

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