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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

CORO DOS CONTRÁRIOS

Bem, não poderia ser diferente. A questão do aborto de anencéfalos — na verdade, do aborto ele próprio — divide opiniões. E talvez eu tenha publicado, não contei, mais opiniões contrárias à minha do que favoráveis. Acontece com mais freqüência do que se pensa, embora os tontons-maCUTs da reputação alheia digam que só publico as […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 19h05 - Publicado em 25 ago 2008, 17h21
Bem, não poderia ser diferente. A questão do aborto de anencéfalos — na verdade, do aborto ele próprio — divide opiniões. E talvez eu tenha publicado, não contei, mais opiniões contrárias à minha do que favoráveis. Acontece com mais freqüência do que se pensa, embora os tontons-maCUTs da reputação alheia digam que só publico as que concordam comigo. Não! O que não aceito é corrente e ocupação militante do espaço de comentários. Como recebo entre 1.500 e 2.500 por dia, preciso selecionar. E seleciono.

Sim, vetei mais de centena. Textos extremistas de ambos os lados, mas a tentação de silenciar o “outro”, no conjunto que recebi ao menos, é bem maior entre os defensores do aborto, de anencéfalos ou não. A razão é simples, e já abordei a questão no meu texto: eles se dizem do lado da “razão”. E, se estão do lado da razão, então estão certos. E, se estão certos, como é que há gente que ousa pensar o contrário? Não parece tudo coerente e lógico?

Interessante, em especial, é o argumento-determinação que proclama: “Se vocês têm uma religião, guardem-na para si”, como se tal dimensão da vida e da cultura devesse viver na clandestinidade. E notem que não me refiro a um choque de essencialidades entre a religiosidade e o racionalismo. No caso, estamos falando de uma religião que convive muito bem com o estado democrático. Não ocorre a estes indagar qual é a autoridade da Igreja Católica para fazer lista de desaparecidos, por exemplo. Mas acham que ela deve silenciar na questão do aborto porque diria respeito à sociedade leiga.

Um leitor chamado Márcio, está lá publicado, escreve no seu comentário, gentil e educado, o seguinte: “Vamos todos participar dos debates, mas com argumentos, com lógica, com aceitação de opiniões contrárias. Como julgar intolerante quem professa tolerância religiosa? Aí está um jogo de palavras”. Obrigado pela chance, Márcio.

1 – Os católicos (sempre eles!) não aceitam os argumentos das pessoas favoráveis ao aborto, é verdade. E o contrário? Acontece?
2 – Os contrários ao aborto podem, no máximo, dizer o que pensam. Responda, Márcio: os meios divulgadores de opinião são majoritariamente a favor ou contra o aborto?
3 – Aí você indaga: “Como julgar intolerante quem professa a tolerância religiosa”? É mesmo? Mas que tolerância? Os católicos não estão sendo chamados de obscurantistas justamente porque defendem a sua fé? Seremos tolerantes com os que têm religião desde que eles não se manifestem, é isso? Desde que vivam a sua religião cercados por muros, apartados da sociedade?

Ora, estou experimentando a coisa ao vivo e em cores. Leiam o texto que escrevi. De caso pensado, fui bastante suave, com uma contundência bem menor do que a habitual. Não obstante, a avalanche de xingamentos dos “civilizados” impressiona. E, quase invariavelmente, eivados de rancor anticatólico. Esses “iluministas” têm muito a aprender sobre preconceito. Não estranha que os jacobinos tenham transformado a eliminação física dos inimigos numa variante do humanismo…

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Para encerrar, comento a observação de um leitor, publicada em um dos posts. Ele me dá uma lição e um pito: “A moral tem de acompanhar a evolução da ciência”. Afinal, considera, não há a previsão de aborto para anencéfalos na lei porque não dispúnhamos antes dos meios técnicos para identificá-los. Parece uma tese simpática. Então vou pensá-la à luz desse saudável progresso científico que se vislumbra na tese.

Pois é… Logo saberemos — alguma coisa já é possível hoje — as doenças genéticas a que os bebês estarão predispostos, eventuais doenças que colherão as crianças caso venham a nascer etc. A porta do aborto eugênico estará destrancada. Ao meu leitor, observo que a questão moral antecede o que possa haver aí de ciência. Para mim, a eugenia era condenável quando feita às cegas — e tanto pior se praticada quando já se pode enxergar um pouco mais.

A cegueira moral é ainda mais nefasta com o aporte da ciência, que é uma técnica.

Ah, sim: claro que posso estar errado. Mas parece que o que incomoda muita gente é o fato de haver quem, opondo-se ao aborto, possa, ainda assim, escrever o que pensa.

É, é um absurdo mesmo! Onde já se viu uma democracia que não é limitada pela última palavra da ciência a respeito, não é mesmo?

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