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Capitão Nascimento foi fazer Ciências Sociais na USP ou na UnB e já está pronto para ser militante do PSOL. Que pena!

E o Capitão Nascimento, hein? Coitado! Foi cursar Ciências Sociais na USP ou na UnB, virou um crítico do “sistema”, já pode ser militante do PSOL e se transformar num burocrata da sociologia esquerdopata brasileira. Aposentado, sugiro que peça uma bolsa de estudos ao CNPq e escreva uma dessas teses que vêm sempre acompanhadas de […]

Depois do curso de ciências sociais, Nascimento dá um tiro nos fatos

Depois do curso de ciências sociais, Nascimento dá um tiro nos fatos

E o Capitão Nascimento, hein? Coitado! Foi cursar Ciências Sociais na USP ou na UnB, virou um crítico do “sistema”, já pode ser militante do PSOL e se transformar num burocrata da sociologia esquerdopata brasileira. Aposentado, sugiro que peça uma bolsa de estudos ao CNPq e escreva uma dessas teses que vêm sempre acompanhadas de dois portos. José Padilha, aliás, fez quase isso com “Tropa de Elite 2″:  grudou um rabicho no título: “O inimigo agora é outro”. É quase um manual de instrução para o espectador distraído. Sim, diretor, a gente acabaria entendendo a mensagem. Saí do cinema com a nítida impressão de que Padilha cedeu à patrulha politicamente correta e resolveu corrigir os supostos excessos do filme anterior — justamente os elementos que o tornavam interessante.

Fui assistir, como se nota, à segunda etapa das aventuras do já lendário, no cinema brasileiro ao menos, Capitão Nascimento. Padilha é um craque no seu ofício. A exemplo de “Tropa de Elite”, o sem rabicho, este filme é tecnicamente impecável, embora com um roteiro mais cediço porque muito óbvio. Wagner Moura, em quem se concentram todas as atenções dos espectadores, faz justiça à fama de excelente ator. A personagem, no entanto, é que perdeu graça e relevo. As amarguras e perplexidades do policial atormentado da primeira aventura vivem agora a fase da “revelação das causas”, assim como um anjo vingador que perdesse a inocência. O que era uma narrativa crua, sem moralismos ou esquematismos, tornou-se agora uma teoria sobre o poder e sobre o crime. Como tal, produz-se uma boa e polêmica peça para debate nos bancos universitários,  mas, lamento dizer, um mau filme. Vamos por partes.

Patrulha
Vocês certamente não ignoram o esganiçado debate que “Tropa de Elite”, o um, provocou. A esquerdalha toda desceu o porrete no filme, classificando-o, imaginem só!, de “fascista”. Alguns disfarçavam o mal-estar centrando suas restrições no excesso de violência exibido na tela. Outros lastimavam que Nascimento, um homem decente, sim, mas violento e nem sempre seguidor das regras, tivesse caído nas graças do público, que se dispensaria, assim, de pensar nas “causas” — olhem “as causas” aí — da violência. O incômodo, apontei à época, na verdade, era outro: aquele filme, com todas as letras e sem meios-tons, evidenciava que os consumidores de drogas da Zona Sul do Rio, muitos deles contumazes humanistas, eram financiadores da tragédia a que se assistia nos morros. A história fazia pouco da sociologia vagabunda que acaba romantizando a violência e enaltecendo o crime como, sei lá, uma forma de expressão. Padilha chegou a virar motivo de editoriais de jornais. Colunistas de política passaram a escrever sobre o seu filme. Houve mesmo quem dissesse que ele fazia uma abordagem “de direita”, uma vez que certa militância vigarista em favor dos direitos humanos era ridicularizada.

Terá sido por isso que gostei do primeiro e não gostei do segundo?, pergunto com ironia. Pode ser. Cada um diga o que quiser. Escrevi à época um artigo na VEJA. Transcrevo um trecho:
Nunca antes neste país um produto cultural foi objeto de cerco tão covarde como Tropa de Elite, o filme do diretor José Padilha. Os donos dos morros dos cadernos de cultura dos jornais, investidos do papel de aiatolás das utopias permitidas, resolveram incinerá-lo antes que fosse lançado e emitiram a sua fatwa, a sua sentença: “Ele é reacionário e precisa ser destruído”. Num programa de TV, um careca, com barba e óculos inteligentes, índices que denunciam um “inteliquitual”, sotaque inequívoco de amigo do povo, advertia: “A mensagem é perigosa”. Outro, olhar esgazeado, sintaxe trêmula, sonhava: a solução é “descriminar as drogas”. E houve quem não resistisse, cravando a palavra mágica: “É de direita”. Nem chegaram a dizer se o filme – que é entretenimento, não tratado de sociologia – é bom ou não.
Seqüestrado pelo Bonde do Foucault (já explico o que é isso), Padilha foi libertado pelo povo. A pirataria transformou seu filme num fenômeno. A esquerda intelectual, organizada em bando para assaltar a reputação alheia (como de hábito), já não podia fazer mais nada. Pouco importava o que dissesse ou escrevesse, o filme era um sucesso. Íntegra
aqui.

Sem poupar ninguém
Qual era, entendo, a grande sacada do primeiro filme? Ninguém era poupado: autoridades, polícia, consumidores de drogas, bandidos… Num país em que o que menos se faz é assumir, ou atribuir, responsabilidades individuais; em que o comportamento de autoridades é freqüentemente marcado ou pela conivência com o malfeito ou pela prevaricação, Capitão Nascimento se transformou num herói popular: incorruptível, implacável, eficiente, ele resolvia, nem sempre dentro da lei. Filme, como disse à época, é entretenimento, não um tratado de moral. Se puder ajudar a recolocar as coisas no seu devido lugar, tanto melhor. Eu acho que aquele ajudava. Na caricatura que fazia do discurso edulcorado de esquerda, que santifica o crime e o transforma numa espécie de rebeldia primitiva, ainda pré-política, o que é besteira, “Tropa de Elite” evidenciava o fundo falso daquele humanismo tosco e, na prática, a sua crueldade.

Mas o crime no Rio mudou, poderia dizer Padilha. É, mudou! Mas a leitura que “Tropa de Elite 2″ faz da realidade tornou-se mais óbvia, fácil e errada. É, antes de tudo, velha! Um terço da fita, por aí, conta como Nascimento acabou contribuindo, efetivamente, para expulsar o narcotráfico das favelas — é ficção, leitor. Expulsos os traficantes, chegaram as milícias, que nada têm de fantasia, e o “inimigo” passa, então, a ser outro. Só que, desta feita, mais poderoso porque articulado com o poder político. Pois bem.

A facilidade
Nascimento está separado da mulher — a relação já era ruim no primeiro filme por causa da profissão do rapaz. Alguns anos se passaram. O filho do casal é agora adolescente. Ela casou-se de novo. E justamente com um certo Diogo Fraga, ativista de direitos humanos, que acaba se elegendo deputado. Fraga é, em muitos aspectos, o antípoda do capitão, a quem considera um troglodita. São adversários públicos. O militante está preocupado com as raízes sociais da violência e tem a certeza de que a culpa é do tal “sistema”. Se certo ativismo do miolo mole, disfarçado de defesa dos direitos humanos, era objeto de caricatura no primeiro filme, neste, está com a razão teórica. Nascimento não divide apenas a mulher e o filho com Fraga. Os dois também dividem o filme.

Fraga está entre aqueles que acreditam, contra todas as evidências, que o Brasil tem presos demais e que isso, no fundo, é uma expressão da luta de classes. Numa de suas palestras, chega a fazer uma conta marota, de lógica apenas aparente — como é típico das esquerdas. Pega a taxa de crescimento da população brasileira e confronta com a taxa de crescimento da população carcerária. Em seguida, estima que as duas seguirão constantes e conclui, para o riso cúmplice dos idiotas que o escutam, que, num prazo dado, a seguir aquela tendência, toda a população brasileira estará encarcerada. É coisa de vigaristas. Peguemos uma comunidade de 100 pessoas no ano “x”, onde não houvesse um só preso. No ano seguinte, alguém comete um delito e vai para a cadeia. Este salto de “zero preso” para “1 preso”, então, já estaria condenando todo o grupo porque ele teria demonstrado uma tendência infinita de crescimento.

Desta feita, na fita, Fraga não é o idiota útil, não! Ele vai se revelar, na verdade, o sábio. A luta de Nascimento contra o crime, no primeiro e no segundo filmes, no fim das contas, se revela uma grande inutilidade porque a verdade verdadeira da questão, fica claro, não está relacionada a indivíduos e suas escolhas. Os consumidores de drogas, absolvidos, desapareceram da história; os traficantes, ainda estupidamente violentos, são apenas uns molambos humanos, massa de manobra de outros espertos; a polícia, ainda notoriamente corrupta, também não deixa de ser instrumentalizada. Todos ali, heróis e bandidos, são peças manobráveis de um jogo muito mais pesado: o tal “sistema”. Não por acaso, num dado momento da fita, Padilha volta a sua câmera para o Congresso Nacional, onde estaria, então, a origem de tudo.

Reações
Foi divertido ler a reação da “crítica” ao segundo firme. Alguns que malharam o primeiro gostaram do que viram agora. Seria um trabalho mais maduro, sem “os excessos” do primeiro. Há até quem diga que “Padilha aprendeu” a verdade. Eu, como notam, faço, de certo modo, o contrário. Será tudo, então, pura ideologia? Vamos ver. Esse papo de “sistema”, vênia máxima, é de quando eu tinha 14 anos e era militante trotskista. Já lá se vão 35 anos. Deixei de ser esquerdista, entre outras razões, quando percebi que “o sistema” que estaria na raiz dos descalabros que Padilha narra — e de todas as injustiças que as esquerdas dizem querer corrigir — também está na raiz da popularização dos antibióticos, dos celulares e da comida barata.

O “sistema”, em suma, não é nada! Vivo aqui falando mal do poder, acho até que é uma obrigação do jornalismo, mas o fato é que aquele Congresso que aparece como a causa de todos os males, ainda que pareça absurdo dizê-lo, contribui para o Brasil melhorar. Sem ele é que as coisas costumam ficar complicadas. E certamente há muitos corruptos lá dentro. Não há lei eficiente o bastante que consiga proibir o indivíduo de delinqüir. Ela tem é de ser eficiente para punir os que a transgridem — e nisso, com efeito, costumamos ir muito mal. Mas não há, reitero, remédio para quem escolhe o caminho do crime;  em qualquer grupo social, trata-se de uma escolha.

Assistindo ao filme, vocês verão que o tal “sistema” sempre dá um jeito de se reciclar. Ou bem todas aquelas injustiças, supostas causadores da violência, de que tanto fala o tal Fraga, são equacionadas, ou não há solução. E isso, bem, isso é simplesmente mentira! O Estado de São Paulo, por exemplo, tem hoje a menor taxa de homicídios por 100 mil habitantes do país, quase um terço da nacional, um quarto da do Rio, quase um sexto da de Pernambuco. Ora, além das escolhas pessoais, há as escolhas de certas políticas públicas. E dentro do tal sistema!

Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), que disputou a Presidência, poderia ser o líder espiritual de “Tropa de Elite 2″. Nos debates do primeiro turno, qualquer que fosse a questão que lhe propunham — saneamento, meio ambiente, economia ou educação —, com seu ar professoral e de um jeito meio destrambelhado de velhinho maluquinho, ele dizia, “em nome dos trabalhadores”, escandindo as sílabas, separando-as com a mão: “O nome disso é de-si-gual-da-de. Sem resolver a de-si-gual-da-de, todas as soluções são falsas”.

Padilha não quer mais confusão. Bandidos, consumidores de drogas e, de certo modo, até a polícia corrupta, todos são vítimas do “sis-te-ma“. Não por acaso, Diogo Fraga foi inspirado no deputado Marcelo Freixo, do PSOL, para quem muitos do artistas de Tropa de Elite 2 fizeram campanha. Ele comandou uma sem dúvida meritória CPI contra as milícias no Rio. O que não torna, evidentemente, corretas as teses do PSOL. Padilha fez um segundo filme para, de certo modo, pedir desculpa pelo primeiro. E este também seduz multidões. Não deixa de ser uma evidência do seu talento.

Capitão Nascimento foi metralhado pela patrulha politicamente correta. Virou um fanfarrão de esquerda, apesar daquele seu ar atormentado. Uma pena!

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