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Campanha anti-Aids no Brasil está errada. Ou: É mais difícil vencer uma distorção ideológica do que vencer um vírus

A epidemia de Aids cai no mundo, mas cresce no Brasil. Alguém está surpreso? Eu não estou. Não se controla a difusão de certas doenças só com medidas médicas. A profilaxia cultural e comportamental é tão ou mais importante. E, nesse particular, o Brasil tem uma política patética. O programa de combate à doença criado […]

A epidemia de Aids cai no mundo, mas cresce no Brasil. Alguém está surpreso? Eu não estou. Não se controla a difusão de certas doenças só com medidas médicas. A profilaxia cultural e comportamental é tão ou mais importante. E, nesse particular, o Brasil tem uma política patética. O programa de combate à doença criado no país na gestão do então ministro da Saúde, José Serra, premiado internacionalmente e que serviu de modelo ao mundo — e não vai nisso nenhuma megalomania — é permanentemente agredido por militâncias políticas as mais variadas, com amplo apoio de setores da imprensa, que confundem informação com preconceito, orientação técnica com moralismo estreito. Afinal, sabem como é, somos todos progressistas.

Não se tem mais notícia de contaminação por HIV por transfusão de sangue. Mesmo num sistema de saúde que oferece um serviço ainda precário aos pobres, esse tipo de difusão da doença foi zerado. Por menos informações que tenham hoje as pessoas, contam-se nos dedos os que desconhecem o mecanismo básico de transmissão da doença, que, no Brasil, cresce mais entre os jovens de 15 a 24 anos — curiosamente os que mais têm acesso à educação.

Quem são esses jovens? Quais são seus hábitos? Qual é a sua orientação sexual? Médicos que trabalham no Sistema Público de Saúde não teriam dúvidas em afirmar que parte importante é formada por homossexuais; outra parte relevante contraiu a doença compartilhando seringas. Isso quer dizer que essas pessoas escolheram ficar doentes? Claro que não! Seria um absurdo e uma estupidez afirmar isso. Mas isso quer dizer, também, que esses dados têm de ser levados em conta quando se formula uma política pública de saúde — e nós temos um programa de assistência a doentes que é pago por toda a sociedade.

As campanhas oficiais contra a difusão da Aids estão essencialmente erradas. E não é de hoje. A camisinha segue sendo a principal barreira material contra a difusão do vírus. Mas ela é pouco eficaz quando não existe a barreira moral. E falo em moral em sentido amplo, que remete às escolhas pessoais — não o moralismo estridente e de fachada. O estímulo ao sexo irresponsável, homo ou heterossexual, é uma das raízes da proliferação ainda brutal da doença. Pensem, por exemplo, no que se transformou a Vila Madalena, em São Paulo, nos dias da Copa. Todos vimos: venda de drogas e de álcool a céu aberto, ausência completa de poder público, leis básicas da civilidade e da civilização jogadas no lixo. Todos assistimos a filmes e imagens: quantos, naquele embalo, vão se lembrar da camisinha?

Ainda me lembro de uma propaganda oficial do Ministério da Saúde em que dois rapazes se conhecem num bar. Na sequência, aparecem na cama. Um deles acorda e toma um susto. Só se tranquiliza quando vê no criado-mudo o invólucro rompido da camisinha. Pergunto: era campanha contra a Aids ou a favor do sexo irresponsável? Quem não consegue nem mesmo se lembrar se usou ou não o preservativo está mesmo protegido? A propaganda oficial, feita pelo Estado, deve, na prática, estimular a que se leve para a cama uma pessoa que se acabou de conhecer? Campanha do Ministério da Saúde para o Carnaval de 2012 — vejam vídeo — repetia o erro, aí com um casal heterossexual.

Não existe controle da Aids com estímulo ao pé-na-jaca. Há dois fatores patogênicos aí: o HIV, que a camisinha controla, e as escolhas individuais, que ou são responsáveis ou não são, pouco importa a orientação sexual de cada um. Digam-me: alguém acredita que, na cracolândia da droga livre, em São Paulo, a preocupação com o HIV esteja entre as prioridades? Quem não é capaz de fazer escolhas morais consegue se proteger de uma doença?

Em 2013, ainda na gestão de Alexandre Padilha, o Ministério da Saúde elaborou um cartaz em homenagem a um tal “Dia Internacional da Prostituta”, que alguns comemoram no dia no dia 2 de junho. Uma senhora posa para a fotografia, com ar orgulhoso, ao lado da frase: “Eu sou feliz sendo prostituta”. No pé da peça publicitária, a logomarca do governo Dilma. Alguém acha que é por aí?

cartaz prostituta

Uganda
Um país na África é extremamente bem-sucedido no combate à Aids: Uganda. Em vez de insistir apenas na camisinha, como fazem as organizações internacionais, a política oficial investe na mudança de comportamento. Desde 1986, o governo adota a política batizada de ABC: A de abstinência, dirigida aos jovens solteiros; B de “be faithful” (seja fiel), para os casados; C de “condom”, camisinha, para quem não seguir as anteriores. Sim, Uganda é também o país que conta com leis odiosas de discriminação dos homossexuais. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, até porque, no país, como no resto da África, a Aids se disseminou especialmente entre os heterossexuais.

Bento 16
Em 2009, o então papa Bento 16 foi a Camarões. Falando sobre a Aids, um flagelo naquele continente, afirmou que a distribuição maciça de camisinhas não era o melhor programa de combate. E disse que o problema poderia até se agravar. A estupidez militante logo entendeu, ou fingiu entender, que Sua Santidade contestara a eficiência do preservativo para barrar a transmissão do vírus. Bento 16 não tratava desse assunto, mas de coisa mais ampla. Referia-se a políticas públicas de combate à expansão da doença. Apanhou de todo lado. De todo mundo. No Brasil, noticiou-se a coisa com ares de escândalo. Os valentes nem mesmo investigaram os números no Brasil. A contaminação continuava, como continua, em alta.

Quem saiu em defesa do que disse o então papa? Edward Green, uma das maiores autoridades mundiais no estudo das formas de combate à expansão da Aids. Ele é diretor do Projeto de Investigação e Prevenção da Aids (APRP, na sigla em inglês), do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento, de Harvard. Pois bem. Green concedeu uma entrevista sobre o tema. E o que ele disse? O PAPA ESTAVA CERTO. AS EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS CONFIRMAM O QUE DIZIA SUA SANTIDADE. Ora, como podia o papa estar certo? Vamos sonegar essa informação aos leitores!

Em entrevista aos sites National Review Online (NRO) e Ilsuodiario.net, Green afirma que as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África. Na verdade, ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsuodiario, assumiu claramente a posição do papa — e, notem bem!, ele fala como cientista, como estudioso, não como religioso: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da Aids. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação’ — literalmente, nas palavras dele ao NRO: “Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.

A estupidez e a irresponsabilidade podem ter alcance mundial. Agora, a OMS, a agência da ONU para a saúde, deu um alerta mundial sugerindo que homossexuais masculinos passem a tomar preventivamente os coquetéis anti-Aids. Ninguém precisa ser especialista em lógica para adivinhar o que vai acontecer. Como disse Green, a tecnologia de redução de risco acabará, obviamente, expondo as pessoas a mais riscos. Infelizmente, já há quem, em razão dos coquetéis, considere a Aids apenas um mal crônico. E isso é mentira. Ela ainda mata milhares de pessoas mundo afora, todos os anos.

Ocorre que é mais difícil vencer uma distorção ideológica do que um vírus.

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