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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

CADÊ BÜLENT YILDIRIM? OU: OS JORNAIS AINDA QUEREM SABER PARA QUE SERVEM OS BLOGS?

Este é um texto mais sobre jornalismo, ideologia e escolhas editoriais do que sobre Israel. Acompanhem. * Os grandes jornais passam por uma grande reformulação. Todos decidiram colar na Internet. Excelente! Renderam-se à realidade. Mas não basta uma adesão formal. É preciso um pouco mais. Se não tiverem A CORAGEM DA REAL PLURALIDADE, de nada […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 15h10 - Publicado em 1 jun 2010, 17h27

Este é um texto mais sobre jornalismo, ideologia e escolhas editoriais do que sobre Israel. Acompanhem.
*
Os grandes jornais passam por uma grande reformulação. Todos decidiram colar na Internet. Excelente! Renderam-se à realidade. Mas não basta uma adesão formal. É preciso um pouco mais. Se não tiverem A CORAGEM DA REAL PLURALIDADE, de nada vai adiantar. Vão continuar a repetir online os erros que já cometem em letra impressa — entre eles o de reproduzir uma nova voz única: os supostos consensos globais.

Ainda querem saber para que servem os blogs? Os blogs de verdade, não os arremedos que estão surgindo e que nada mais são, na maioria das vezes, do que subprodutos do que vai em letra impressa? Então conto pra vocês.

Procurei hoje o nome de Bülent Yildirim nos jornais brasileiros. Não achei. Ou melhor: ele aparece em um texto — já digo em qual. Yildirim é o chefão da ONG turca IHH, ligada, no presente, ao Hamas e, tudo indica, no passado, aos jihadistas, incluindo a Al Qaeda. É a entidade que realmente organizou a tal flotilha. A ONG Free Gaza, da falastrona Greta Berlin, é só uma entidade que lava, com nome em inglês, a outra entidade de fachada do Hamas.

Quem noticiou isso ontem? Um blog. O meu. Está num post AH, ESSES HUMANISTAS!!! OU: QUERO LIDERAR UMA EXPEDIÇÃO HUMANITÁRIA AO IRÃ , publicado às 13h59. É um fato, não um chute. É uma realidade, não uma escolha ideológica. Pode-se ter sobre o bloqueio à Faixa de Gaza a opinião que se tiver. Eu, por exemplo, acho que ele faz sentido. Há quem não ache. Pode-se divergir a respeito. Mas não dá para ignorar o que é fato sobre a tal flotilha: uma armação do Hamas. Republico a foto de uma das muitas vezes em que Yildirim (à esquerda) se encontrou com Ismail Haniya, um dos terroristas que tiranizam os palestinos em Gaza.

yildirim

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Onde é que Yildirim aparece nos jornais brasileiros? Num texto de Giora Becher, embaixador de Israel no Brasil. Curiosamente, ou nem tanto, seu artigo aparece sob a rubrica: “Análise/Outro Lado”. “Outro Lado” de quê? Na sua busca obsessiva pelo “equilíbrio”, a Folha revelava “o lado”, certo? E o lado do noticiário da Folha e de todo mundo era, naturalmente, anti-Israel. E é no “outro lado”, então, que escreve o embaixador:
“Durante a madrugada de 31 de maio, soldados da marinha israelense embarcaram em uma frota de seis navios que tentavam violar o bloqueio marítimo em Gaza. Militantes a bordo do Marmara Mavi atacaram os soldados com armamentos como pistolas, facas e paus, ferindo-os e deixando dois soldados em estado grave e três em estado moderado.
Os navios que reagiram de forma pacífica à operação foram escoltados ilesos, como acontecera anteriormente com navios que tentaram violar o bloqueio marítimo.
O ataque contra os soldados israelenses foi premeditado. As armas utilizadas foram preparadas com antecedência. Huwaida Arraf, um dos organizadores da flotilha, afirmou com antecedência ao evento: “Os israelenses vão ter que usar a força para nos parar”.
Bulent Yildirim, o líder do IHH (Fundo de Ajuda Humanitária) e um dos principais organizadores da frota, disse pouco antes do embarque: “Vamos resistir, e a resistência irá vencer”.

Os militantes incitaram a multidão embarcada gritando “intifada!”, relembrando a revolta dos palestinos na Cisjordânia e na faixa de Gaza em protesto à ocupação israelense entre 1987-1993 e novamente no ano 2000.
É preciso ressaltar que o grupo organizador das embarcações tem orientação antiocidental e radical. Juntamente com as suas legítimas atividades humanitárias, apoia redes islâmicas radicais como o Hamas e elementos da jihad global, como a Al Qaeda.
(…)
Os organizadores da frota deixaram claro que seu alvo principal era o bloqueio marítimo. Greta Berlin, porta-voz da frota, disse à agência de notícias AFT, em 27 de maio, que “esta missão não é sobre a entrega de suprimentos humanitários, mas [sobre] quebrar o cerco de Israel”.
(…)
Se, por um lado, os organizadores afirmam ter preocupação humanitária com os moradores de Gaza, por outro eles não têm preocupações semelhantes com o destino do soldado israelense sequestrado Gilad Shalit e se recusaram a fazer uma chamada pública para permitir que ele fosse visitado pela Cruz Vermelha em Gaza. Aqui

Outro lado?
Outro lado??? “Outro lado”, no jornalismo brasileiro, acabou se transformando, na prática, em “desculpa de culpado”. Quase vale por um: “Você é um tranqueira, mas tem o direito de dizer suas últimas palavras”. É uma espécie de “últimas palavras” antes da execução. Tomei o exemplo da Folha porque o embaixador escreveu lá. Mas vale para todos os jornais — é até pior onde ele não escreve, é óbvio.

Pergunta – Yidirim participou da organização da flotilha ou não?
Resposta – Sim.
Pergunta – Ele é um dos chefões da operação ou não?
Resposta – Sim.
Pergunta – Ele é ligado ao Hamas ou não?
Resposta – Sim.
Pergunta – Os soldados foram ou não atacados?
Resposta – Sim.
Pergunta – Houve insistentes pedidos para a mudança de destino da flotilha ou não?
Resposta – Sim.

Se é assim, cadê essas informações na nossa imprensa — e, em certa medida, na imprensa mundial? Duvido que o jornalismo dos países islâmicos tenha feito algo muito diferente do que fez o nosso.

“Ah, mas o bloqueio a Gaza é injusto!” Ah, é? Então vamos discutir essa questão, em vez de negar as evidências do que se deu em alto mar.

Só para encerrar
Na Folha, o embaixador escreveu a “Análise/Outro Lado”. E há também uma “Análise/Lado”, de Clóvis Rossi. Está lá:
“Em choques entre duas vontades de ferro, a maioria das vítimas será, sempre, do lado mais fraco.
É o que acontece na guerra permanente entre o Hamas e Israel: cada lado se mantém absolutamente inamovível em suas posições que, reduzidas a termo, significam aniquilar o outro. É óbvio que não pode haver acordo.
É igualmente óbvio que o lado mais fraco, o Hamas, aporta a maioria das vítimas, como ocorreu ontem no caso do ataque de Israel à chamada frota da paz.
Como aconteceu na invasão da faixa de Gaza, há um ano e meio.
No caso de ontem, os mortos e os feridos não eram propriamente do Hamas, mas militantes de ONGs simpáticas ao movimento palestino.”

Há aí, ao menos, a honestidade intelectual de reconhecer que se tratava de um bando (“bando”, digo eu) de simpatizantes do Hamas. Só tenho uma pequena correção a fazer, de grande importância na história recente do Oriente Médio. Nem sempre o mais forte vence (!?). Em 1967 e em 1973, Israel era inequivocamente mais fraco. Atacado nos dois casos, venceu. Por que venceu?

Como Israel queria a paz, estava preparado para a guerra. Como o outro lado só queria a guerra, nunca se preparou para a paz.

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