Clique e assine com 88% de desconto
Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Blogueiro que terá de se retratar de ofensa racial tenta debochar da Justiça. É inútil! Os fatos são os fatos. Ou: A lógica elementar é implacável!

– Paulo Henrique Amorim terá de pagar uma indenização de R$ 30 mil a uma entidade indicada pelo jornalista Heraldo Pereira. – Paulo Henrique Amorim terá de eliminar de seu blog os posts em que ofende Pereira com expressões de cunho racista. – Paulo Henrique Amorim terá de publicar em seu blog uma retratação. – […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 18 fev 2017, 17h55 - Publicado em 24 fev 2012, 06h45

– Paulo Henrique Amorim terá de pagar uma indenização de R$ 30 mil a uma entidade indicada pelo jornalista Heraldo Pereira.
– Paulo Henrique Amorim terá de eliminar de seu blog os posts em que ofende Pereira com expressões de cunho racista.
– Paulo Henrique Amorim terá de publicar em seu blog uma retratação.
– Paulo Henrique Amorim terá de publicar a mesma retratação em dois jornais: Folha de S.Paulo e Correio Braziliense.
E, no entanto, fiel a seu estilo e a seu proverbial amor pela verdade, Paulo Henrique Amorim se diz vitorioso.

– Não tivesse havido a ofensa, por que a retratação?
– Não tivesse havido a ofensa, por que a indenização?
– Não tivesse havido a ofensa, por que a exclusão dos tais posts?
– Não tivesse havido a ofensa, por que o anúncio obrigatório nos jornais?

Que tipo de leitor acreditará na sua pantomima?
Que tipo de leitor, diante desta imagem, duvidará, lembrando Groucho Marx, do que seus olhos vêem para acreditar em Paulo Henrique Amorim? Grocho era um humorista profissional.
Ele e seus amigos debocham uma vez mais da Justiça, mas o que vai aqui é insofismável.

sentenca-heraldo-paulo-henrique

Leitores me enviaram ontem um texto de um certo Leandro Fortes. Parece que trabalha na Carta Capital. Não sei porque não leio “blogueiros progressistas” — enviam-me links de vez em quando, mas quase sempre estou muito ocupado. O rapaz sai em defesa daquele que vai ter de se retratar nos seguintes termos:
“Paulo Henrique Amorim, assim como eu e muitos blogueiros e jornalistas brasileiros, nos empenhamos há muito tempo numa guerra sem trégua a combater o racismo, a homofobia e a injustiça social no Brasil. Fazemos isso com as poderosas armas que nos couberam, a internet, a blogosfera, as redes sociais.”

Bem, meus caros, terei de relembrar ainda uma vez como Amorim decidiu “combater o racismo” no caso de Heraldo Pereira. Assim:
“Heraldo é negro de alma branca”;
“[Heraldo] não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde.”

Fortes tenta emprestar um sentido “progressista” à expressão “negro de alma branca”. Leiam.
O termo é pejorativo, disso não há dúvida. Mas nada tem a ver com racismo. A expressão “negro de alma branca”, por mais cruel que possa ser, é a expressão, justamente, do anti-racismo, é a expressão angustiada de muitos que militam nos movimentos negros contra aqueles pares que, ao longo dos séculos, têm abaixado a cabeça aos desmandos das elites brancas que os espancaram, violentaram e humilharam. O “negro de alma branca” é o negro que renega sua cor, sua raça, em nome dessa falsa democracia racial tão cara a quem dela usufrui. É o negro que se finge de branco para branco ser, mas que nunca será, não neste Brasil de agora, não nesta nação ainda dominada por essa elite abominável, iletrada e predatória – e branca. O “negro de alma branca” é o negro que foge de si mesmo na esperança de ser aceito onde jamais será.

Que graça! Fortes acredita que o “anti-racismo” pode recorrer, às vezes, a “expressões cruéis” e “pejorativas”. Isso poderia render um tratado sobre a delicadeza dessa gente “progressista”. O título do artigo, aliás, é um mimo da elegância: “Racista é a PQP, não PHA”. Ele deve ter achado uma sacada e tanto esse jogo de maiúsculas sobre coisas tão minúsculas: “PQP-PHA”. Quem sou eu para censurá-lo?

Esse vôo condoreiro do rapaz, essa linguagem inflamada, levou-me a supor, sei lá, que talvez fosse negro, um militante da causa, que conhecesse de perto a discriminação. Não é, não! Fui ver sua foto no Google. É branco. Ele só é mais um daqueles esquerdistas que AMAM MAIS AS CAUSAS DO QUE OS HOMENS. No post de ontem em que caracterizei o que chamo de racismo de segundo grau, acho que captei a alma profunda de Fortes e de seus amigos. Cumpre relembrar (em azul):

Já o racismo de segundo grau é coisa mais complicada. Embora seus cultivadores se digam inimigos da discriminação e aliados de todos os grupos que lutam pelos direitos das minorias, não compreendem – e, no fundo, não aceitam – que um negro possa ser bem-sucedido em sua profissão A MENOS QUE CARREGUE AS MESMAS BANDEIRAS QUE ELES DIZEM CARREGAR!
Eis, então, que um profissional com as qualidades de Heraldo Pereira os ofende gravemente. Sim, ele é negro. Sim, ele tem “uma origem humilde”. Ocorre que ele chega ao topo de sua profissão mesmo no país em que há muitos racistas broncos e em que a maior discriminação ainda é a de origem social. E chegou lá sem fazer o gênero do oprimido reivindicador, sem achar que o lugar lhe pertencia por justiça histórica, porque, afinal, seus avós teriam sido escravos dos avós dos brancos com os quais ele competiu ou que a luta de classes lhe roubou oportunidades.
Sabem o que queriam os “racistas de segundo grau”, essas almas caridosas que adoram defender minorias? Que Heraldo Pereira estivesse na Globo, sim, mas com o esfregão na mão e muito discurso contra o racismo na cabeça. Aí, então, eles poderiam dizer: “Vejam, senhores!, aquele negro! Por que ele não está na bancada do Jornal Nacional?” Ocorre que Heraldo ESTÁ na bancada do Jornal Nacional. E sem pedir licença a ninguém. Enquanto alguns negros, brancos, amarelos ou vermelhos choramingavam, o jornalista Heraldo Pereira foi estudar direito na Universidade de Brasília. Enquanto alguns se encarregavam de medir o seu “teor de negritude militante”, ele foi fazer mestrado – a sua dissertação: “Direito Constitucional: Desvios do Constituinte Derivado na Alteração da Norma Constitucional”.

Fortes, a gente nota, se mostra disposto a ensinar a Heraldo Pereira como se combate o racismo. Releiam o seu texto. Parece que ele não considera Heraldo um negro de verdade, pra valer. Afinal, se fosse, teria sobre o racismo as mesmas idéias do branco Leandro Fortes, certo?

Publicidade

Estou cada vez mais convencido de que fui ontem de uma precisão cirúrgica ao definir esses “progressistas” (em azul):
Quando se classifica alguém como Heraldo de “negro de alma branca” – e já ouvi cretinos a dizer a mesma coisa sobre Barack Obama porque também insatisfeitos com a sua pouca disposição para o ódio racial -, o que se pretende, na verdade, é lhe impor uma agenda. Atenção para isto:
– por ser negro, ele seria menos livre do que um branco, por exemplo, porque estaria obrigado a aderir a uma determinada pauta;
– por ser negro, ele teria menos escolhas, estando condenado a fazer um determinado discurso que os “donos das causas” consideram progressista;
– ao nascer, portanto, negro ele já nasceria escravo de uma causa.
Heraldo os ofende porque diz, com todas as letras e com sua brilhante trajetória profissional: “Sou o que quero ser, o que decidi ser, o que estudei para ser, o que lutei para ser. Eu escolho, não sou escolhido! Sou senhor da minha vida, não um serviçal daqueles que dizem querer me libertar”. Heraldo os ofende porque não precisa que brancos bem-pensantes pensem por ele.

Em tempo — Um conselho a Fortes, que deve ser uma das crias de Mino Carta: no patrão, tinha certo charme — discriminatório, diga-se —  essa história de atacar as “elites iletradas” do Brasil. Italiano, Mino sempre olhou para os brasileiros como, sei lá, um florentino encarando a bugrada, embora seja indisfarçável o tempero siciliano de seu caráter. Fortes, ora vejam, além de pretender ensinar a Heraldo como ser um negro de verdade, também quer ser as luzes da elite iletrada à qual ele necessariamente pertence.

Lógica implacável
Vivemos tempos, alertei ontem, em que os ditos “progressistas” serão sempre progressistas, mesmo quando reacionários, e em que os ditos “reacionários” serão sempre reacionários, mesmo quando progressistas. Afinal, os esquerdistas decidiram privatizar o humanismo, embora a morte em massa como fator de progresso social seja uma tese… de esquerda!

A lógica desconstrói os joguinhos de baixa retórica de Amorim e de seus amigos de forma simples e definitiva. Digamos que aquele senhor só estivesse querendo criticar as idéias e o trabalho do jornalista Heraldo Pereira. Digamos ainda que Heraldo fosse branco e de origem abastada. Seu crítico teria de recorrer a outros expedientes para desqualificar o seu trabalho que não “negro de alma branca”. Também não teria escrito que “[Heraldo] não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde.”

Mas quê… Resolveu se fixar justamente em características do outro que nada têm a ver com o seu trabalho e com a sua trajetória profissional, como a cor da pele e a origem social — um duplo preconceito! Se Heraldo só pôde ser atacado naqueles termos porque negro, então o atacado foi, antes de tudo, o negro. Não há escapatória.

O deboche de Amorim não muda os fatos. Só nos leva a supor que fez o acordo para não se complicar, mas que não se emendou. Que se cumpram as leis do país!  Nem mesmo os “blogueiros progressistas” têm licença para praticar racismo e injúria racial contra “indivíduos negros” porque se dizem defensores da “categoria dos negros”.

Publicidade

Afinal, quem são esses defensores dos negros incapazes de respeitar um negro?

Publicidade