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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Bento XVI e o “Senhor que parecia dormir”. Papa estava apenas citando os Evangelhos. Ou: Da sogra de Pedro à Barca de Pedro

Deus dorme? Vamos ler o Salmo 121: Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra. Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda. É certo que não dormita, nem dorme o guarda […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h47 - Publicado em 27 fev 2013, 17h30

Deus dorme? Vamos ler o Salmo 121:

Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro?
O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra.
Ele não permitirá que os teus pés vacilem; não dormitará aquele que te guarda.
É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel.
O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita.
De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua.
O SENHOR te guardará de todo mal; guardará a tua alma.
O SENHOR guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre
.

O Deus de que se fala acima é o “Pai”, o “Senhor dos Exércitos”. Como se vê, não dorme.

Está causando barulho mundo afora a afirmação de Bento XVI, em sua despedida. Ao relatar as muitas dificuldades que encontrou ao longo de oito anos de pontificado. Afirmou que, à vezes, o “Senhor” parecia dormir. Leiam:
“Foi um trecho do caminho da Igreja que teve instantes de alegria e de luz, mas também momentos difíceis. Senti-me como São Pedro e os apóstolos no barco, no Mar da Galileia. O Senhor nos deu muitos dias de sol e brisa leve, em que a pesca foi abundante. E momentos em que as águas estiveram agitadas, e o vento, contrário, como em toda a história da Igreja, em que o Senhor parecia dormir. Mas eu sempre soube que naquele barco estava o Senhor e que o barco não era meu, nem de vocês, mas Dele, que não o deixa naufragar. É Ele que o conduz, certamente através também dos homens que escolhe, porque os quer. Esta foi e é uma certeza que nada pode ofuscar.”

A imagem é forte, mas não surpreendente. Trata-se de uma das mais conhecidas passagens dos Evangelhos. Transcrevo, por exemplo, os versículos 14 a 32 do capítulo 8 de São Mateus (destaques meus):

Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, viu a sogra deste acamada e ardendo em febre.
Mas Jesus tomou-a pela mão, e a febre a deixou. Ela se levantou e passou a servi-lo.

Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes;
para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.
Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem.
Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.
Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.
E outro dos discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai.
Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos.
Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram.
E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia.
Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos!
Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança.
E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho.
E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?
Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande manada de porcos.
Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos.
Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou, despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, e nas águas pereceram
.

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Voltei
O que dorme acima, em meio à tempestade, é o “filho de Deus”, que também é Deus, segundo a crença católica. E, como se nota, dormia mais para ser didático — e expor, pelo exemplo, a força da fé — do que para descansar. O papa, como fica evidente, fez alusão a essa passagem, também relatada no capítulo 4 do Evangelho de São Marcos (versículos 35 a 40) e no capítulo 8 do Evangelho de São Lucas, versículos 22 a 33. O texto de Lucas acabou ficando mais famoso porque é ali que os demônios se identificam como “legião”.

Uma das perífrases para designar a Igreja é justamente a “Barca de Pedro”.

De volta a Mateus
Bento XVI admite que enfrentou grandes tormentas e, a exemplo de Pedro e dos apóstolos, certamente sentiu medo. Mas, diz, não duvidou de que ali estava o Senhor. Jesus tinha poder sobre os elementos da natureza. O papa não tem. O seu modo de acalmar a tempestade foi renunciando ao pontificado para poder purificá-lo — e isso se fará enquanto ele está vivo e gozando de pleno vigor intelectual.

Quero voltar a São Mateus. É preciso que os demônios que se insinuaram na Igreja sejam exorcizados dos homens, migrem para os porcos e, então, se lancem no despenhadeiro. O modo como Bento XVI decidiu realizar esse prodígio foi impedindo que as intrigas vaticanas, à sua revelia, acabassem decidindo um conclave quando ele não pudesse fazer mais nada.

Publiquei ontem dois textos contra o celibato sacerdotal obrigatório. É uma coincidência feliz para mim que Bento XVI, na sua despedida, tenha feito alusão à tormenta do Mar da Galileia. No Evangelho de São Mateus, como se lê, antes que todos tomassem o barco, Jesus realiza alguns prodígios — entre eles, cura a “sogra” de Pedro, o primeiro ocupante do trono da Igreja. Só tem sogra quem tem cônjuge, não é mesmo?

A Igreja enfrenta hoje grandes tormentas decorrentes da exigência que seus sacerdotes sejam celibatários como Jesus. Estaria livre de parte considerável delas se eles fossem casados, como Pedro. De resto, assim foi nos quatro primeiros séculos de vida da Igreja.

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