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A ministra Matilde Ribeiro tem de ser demitida e processada

Agora o rinoceronte arrombou a porta. A BBC Brasil entrevista a ministra Matilde Ribeiro, da Secretatia Especial de Política da Promoção da Igualdade. Lá pelas tantas, travou-se o seguinte diálogo: BBC Brasil – E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?Matilde Ribeiro – Eu acho natural que tenha. Mas […]

Agora o rinoceronte arrombou a porta.

A BBC Brasil entrevista a ministra Matilde Ribeiro, da Secretatia Especial de Política da Promoção da Igualdade. Lá pelas tantas, travou-se o seguinte diálogo:

BBC Brasil – E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
Matilde Ribeiro –
Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.
Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui

Vejam só. Se eu arrumasse uma desculpa qualquer pra dizer que “é natural” haver racismo de brancos contra negros, seria preso. E permaneceria. É crime inafiançável. Mas eu não diria isso por vários motivos. Em primeiro lugar, porque não é o que penso. Em segundo, porque, conforme está claro, se pensasse, não seria idiota de me expor ao risco de ser punido. Raça? O que é isso? Eu gosto é de mistura. Eu vivo a mistura. As minhas filhas são objetivamente bonitas — tanto quanto se pode acreditar na objetividade de um pai. Bem, sei olhar, comparar, reconhecer a harmonia do conjunto. Os traços que nelas mais me agradam, admito, são os árabes, que herdaram da mãe. Do pai, receberam as características da boa gente vira-lata brasileira, que é o que sou. Sem pedigree.

Não é difícil demonstrar que a ministra Matilde Ribeiro cometeu crime de racismo e de incitamento ao ódio racial, ainda que faça questão de dizer que “não”. Numa democracia corriqueira, seria demitida e processada. No Brasil, vão passar a mão na cabeça dela, afirmar que ela se expressou mal, que não quis dizer exatamente o que disse. Vale dizer: no fim das contas, será protegida de si mesma por conta de dois preconceitos às avessas: porque é negra e porque é mulher, duas “minorias” de manual, que excitam os instintos mais primitivos da baixa sociologia brasileira.

No fim de muitas misturas, resulta que minha pele é branca. E nunca açoitei negros. Ah, calma aí: conheço a cascata. Não se trata de individualizar a responsabilidade, dizem eles. O “branco” é culpado como uma “categoria”, assim como o “negro” seria discriminado enquanto tal. É mesmo? A ministra Matilde Ribeiro tem muitas idéias na cabeça, mas nenhuma bibliografia. A escravidão do negro nas Américas, minha senhora, no que respeita à cor da pele — e não à raça — é obra conjunta de brancos e negros. Antes que os europeus escravizassem os africanos, estes se escravizaram a si mesmos. Antes que um mercador de escravos vendesse a sua “mercadoria” no Brasil, ele a comprava na África: e a comprava de outros negros.

Isso livra a cara “dos brancos”? É claro que não. Mas também não tira a responsabilidade dos negros. Se a madame quer justificar o racismo do presente fazendo justiça retroativa, vamos parar todos no banco dos réus: tanto os “meus” ancestrais europeus quando os “seus” tataravós negros. A menos que ela pretenda tratar as tribos africanas que escravizavam seus adversários como ingênuos seduzidos pelo grau superior de consciência do europeu. Mas aí indago: a consciência de uma época não é sempre a consciência possível? Olhar o passado com o que sabemos hoje é matéria de sabedoria; julgá-lo com esses instrumentos é produzir obscurantismo.

Não dá. Esta senhora é ministra de Estado. Está no governo para pensar medidas de integração, não para justificar qualquer forma de discriminação, considerando-a, o que é pior, “natural”. Mas vai ficar no cargo, é claro. Porque, afinal, não se demite uma negra por mais bobagens que diga. Também ela reivindica a sua condição de herdeira das vítimas, o que lhe franquearia o direito de dizer asneiras.

Vocês sabem que sou adversário de primeira hora da chamada política de cotas raciais, o que eles costumam chamar de “discriminação positiva”. Por quê? Entre outras razões porque era a porta de entrada disso que faz a ministra: a discriminação negativa. Os números que justificam as cotas no Brasil são todos perturbados. Já escrevi isso algumas vezes. Nem voou aqui entrar no detalhe, não neste texto, para não espichar demais o artigo. Lembro o óbvio: com freqüência, fala-se por aí na “maioria negra” do Brasil. A maioria é branca: 52%; negros são 6% da população; há menos de 2% de amarelos e índios, e os demais são mestiços. Um mestiço é branco ou é negro? Também conheço a resposta deles: é negro se for pobre. É? E um branco pobre é o quê? Negro? Quer dizer que o verdadeiro “negro” é o pobre? Então aposentem essa conversa mole de raça e vamos falar de renda.

Mas a ministra não precisa dedicar seu tempo à história ou à estatística. Poderia ao menos ler jornal. Pelo visto, ela tem muitas idéias na cabeça, mas nenhuma disposição para a leitura. Um dos maiores massacres — atenção! — da história da humanidade se deu no fim do século passado na África: a guerra entre hutus e tutsis. Negros matando negros. Um milhão de mortos. Mais de dois milhões de refugiados. Hutus, de mais baixa estatura do que tutsis, cortavam os pés dos adversários a facão para, à sua maneira, fazer justiça… Ah, mas não será difícil encontrar quem diga que também este conflito é de responsabilidade dos brancos, desdobramento perverso e tardio da colonização do século 19. É mesmo? Quer dizer que os negros viviam numa realidade edênica, até que chegassem os brancos para instaurar a discórdia? Tenham paciência! É a mesma lenga-lenga dos muçulmanos. Não fosse o colonialismo europeu, seriam todos pacíficos… Perguntem ao século VII. E o massacre de Darfur, neste século? Aquele que o Brasil se negou a condenar na ONU, sob o silêncio cúmplice da ministra Matilde Ribeiro — se é que ela sabe do que estou falando? Um tutsi não vê um “negro” num hutu (e vice-versa): eles vêem um inimigo. Aquela, sim, é uma luta pautada não pela raça, mas pelo racismo.

Numa dimensão, vá lá, filosófica, as lideranças negras estarão prestando um enorme serviço à igualdade de pele (já que não se trata de uma questão racial) quando conseguirem ver a si mesmos também como opressores. Enquanto só se enxergarem como vítimas — sei que esse discurso é útil à militância —, estarão dizendo a seus eventuais liderados que eles continuam escravos, não de um senhor branco, mas de uma falsa história.

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  1. Comentado por:

    vyctorialua

    Eu, de familia branca, descendente de portugueses iralianos e indío e por ter nascido cor de índio, sentí na pele o racismo tanto pela parte de brancos como pela parte de negros, que, aliás foi mais ferrenho.pra não dizerem que estou também praticando o racismo, digo logo que casei com um negro, me separei e namoro hoje outro negro.O fato é que não importa quem fez o que e, sim que se cada um cuidasse da sua própria vida, evolução cultural, espiritual etc e tal, talvez não chegaria até nós tal absurdo que foram as palavras desta Matilde Ribeiro.Ví certa vez no programa do Jô um negro rico que ao ser perguntado sobre o assunto disse que não viu preconceito contra ele pois era motorista de taxi de dia e estudava á noite, não deu tempo para prestar atenção e, hoje é um empresario milionario.Conhecí um cara pobre, loiro de olhos azuis que; trabalhava e qualquer minuto de folga estudava. Dia e noite.Tempo feio, dentro de casda, dia de sol, com a escrivaninha fora de casa de bermuda e oculos escuro (por onde ele passava achavam que ele era um boizinho).Pois ele, pobre, passou 3 anos consectivos na USP (não entrou porque fazia 27 pontos e queria 28 pra fazer medicina), enfim optou pela odontologia e hoje é dentista.PS: ele fez o cursinho pré vestibular pela TV Cultura.Acho que esta senhora deveria entregar o cargo.

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  2. Comentado por:

    FORAFRO

    FORAFRO – FÓRUM AFRO DA AMAZÔNIA
    Nota de Repúdio pelas afirmações da Ministra MATILDE RIBEIRO
    O FÓRUM AFRO DA AMAZÔNIA – FORAFRO expressa, por meio desta nota, repúdio e indignação com relação aos comentários da Ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), noticiadas pela BBC Brasil no dia 27 de março deste ano. Informamos à sociedade em geral que tais idéias não expressam o modo de pensar da população afrodescendente brasileira e a tradição dos movimentos negros. Os afrodescendentes do país e os movimentos negros brasileiros tradicionalmente têm rejeitado idéias revanchistas, de isolamento racial ou de discriminação contra brancos ou qualquer outra população. Tais idéias são reflexo de uma corrente revisionista e isolacionista, que muitas vezes é apresentada como sendo “o” movimento negro, cujas demandas e posicionamentos vão frontalmente contra os ideais de Zumbi de Palmares, José do Patrocínio, Dom Oba II d´África, Luiz Gama e de tantos outros que dedicaram suas vidas à busca da integração e não do isolamento entre afrodescendentes e demais brasileiros. Realçamos que defender as idéias lamentáveis expostas pela ministra na citada entrevista é ir contra a luta de Zumbi, o qual morreu exatamente por não concordar com o fechamento do quilombo de Palmares a todos aqueles que nele buscassem abrigo, fossem eles de que cor fossem. Os quilombos foram centros de mestiçagem entre nossos antepassados de diversas etnias africanas, tanto entre si como também com etnias indígenas e brancas, de modo que a mestiçagem não é um detalhe, mas um elemento fundamental sem a qual não haveria uma identidade negra ou afrodescendente. Se nossos ancestrais pensassem como os atuais revisionistas que gestam a política governamental e que se apresentam como sendo “o” movimento negro, não haveria identidade negra ou afrodescendente, mas ainda iorubá, haussá, quimbunda e outras. Alertamos, assim, sobre a existência de grupos interessados em usar e subordinar os afrodescendentes ao atendimento de interesses partidários e políticos que muitas vezes não são do interesse do Brasil nem da sua população afrodescendente. Lembrando da antiga África, onde interesses imperialistas europeus e de lideranças corruptas africanas uniram-se para promover conflitos étnicos e escravização de cativos de guerra, hoje é necessário evitar que populações afrodescendentes carentes sejam tribalizadas e transformadas em moeda de troca de verbas públicas e de apoio político. É preciso impedir a construção de uma “indústria da diversidade”. É necessário um acompanhamento e intervenção mais rigorosos pela sociedade em geral e por seus representantes nos três níveis de governo, no executivo e no legislativo, das políticas voltadas para grupos populacionais específicos a fim de evitar o desperdício e mau uso das verbas públicas e manipulações políticas partidárias. É necessário relembrar o que foram os quilombos que, de fortificações onde nossos ancestrais fugiam da escravidão, está recebendo hoje qualquer conceito que seja conveniente ao poder. Tais manipulações estão fomentando um novo perigo, além da gestão do ódio racial: o conflito religioso. Os povos africanos do passado e os quilombolas pertenciam a um diversificado leque de religiões, no que não se diferenciam dos afrodescendentes de hoje nem das populações de remanescentes de quilombos. A política atual, porém, está caminhando para transformar comunidades de determinadas religiões de origem africana em comunidades quilombolas. Isto significa criar territórios religiosos, “microteocracias”, que, considerando o histórico de autoritarismo, intolerância e discriminação da política nessa área, traz a real possibilidade de constrangimentos e perseguições contra moradores dessas comunidades por motivos de fé religiosa. É fundamental, assim, estar atento à atuação de grupos interessados em beneficiar-se econômica e politicamente da fragmentação e f

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