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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A denúncia contra Lula, Hegel, Engels e citações infelizes

Promotores trocam Engels por Hegel na denúncia contra Lula; ainda não o tivessem feito, a referência não seria abonadora

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 9 fev 2017, 11h44 - Publicado em 11 mar 2016, 21h33

Ah, também vou meter a minha colher de pau na polêmica, né?

Na denúncia oferecida contra Lula, com pedido de prisão preventiva, os promotores foram fazer uma citação e se atrapalharam um pouco. Num dado trecho da petição, assinada por José Carlos Blat, Cassio Conserino e Fernando Henrique Araújo, lê-se:
“As atuais condutas do denunciado Luiz Inácio Lula da Silva, que outrora chegou a emocionar o país ao tomar posse como Presidente da República em janeiro de 2003 (‘o primeiro torneiro mecânico’ a fazê-lo de forma honrosa e democrática), certamente deixariam Marx e Hegel envergonhados.”

É claro que o trio escreveu “Hegel” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel, 1770-1831) em lugar de Engels (Friedrich Engels, 1820-1895). A confusão tem lá as suas graças. Engels foi um parceiro intelectual e mecenas de Karl Marx. Juntos, escreveram “O Manifesto Comunista”. E Hegel? Era uma das referências intelectuais de Marx. Até hoje, nos ambientes mais requintados da esquerda, se debate se a “dialética marxista” é uma construção independente, criada pelo “pai do comunismo”, ou se é uma derivação da dialética hegeliana.

“Hegel”, diga-se, é a primeira palavra daquele que considero o mais agradável dos livros de Marx: “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”. É justamente ao avançar além do que dissera Hegel que Marx escreve um dos trechos mais citados de sua obra. Aquele dissera que os eventos e personagens históricos importantes acontecem duas vezes. Ao que Marx emenda: “Esquece-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A frase é central no livro porque é ela que orienta a desconstrução da figura de Luís Bonaparte, aquele que tentou, pateticamente, vestir o manto do tio, Napoleão Bonaparte.

Repercussão
É claro que o erro fez o maior barulho nas redes sociais. Os petralhas acham que a troca de “Engels” por “Hegel” evidencia a falta de preparo dos promotores e é um símbolo do seu descuidado. Bobagem, claro!

Os adversários do petismo avaliam que isso tudo é diversionismo e que o erro não tem a menor importância. Também não é assim.

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Blat, indagado sobre a troca, deu de ombros com uma agressividade desnecessária:
“Vão caçar o que fazer. Vão catar coquinho. Isso é uma tolice, é um erro material que já foi verificado e será retificado. Tudo continua como está, não há qualquer gravidade nisso.”

De fato, para esclarecer os crimes cometidos e coisa e tal, realmente não é coisa importante. Mas tenho duas observações a fazer, uma de princípio e outra de pensamento aplicado.

A de princípio: se é para citar nomes e apelar a referências, que se faça a coisa direito. Ou que não se faça, certo? O que não pode é errar num caso assim. Não é todo dia que se encaminha uma petição à Justiça pedindo a prisão de um ex-presidente da República.

A segunda
A segunda questão, de pensamento aplicado, já é um pouco mais complexa. Ainda que os promotores não tivessem trocado os nomes, eu repudiaria o conteúdo do mesmo jeito.

Afirmar que as más condutas de Lula deixariam Marx e Engels envergonhados faz supor que estes dois se envergonhassem com facilidade. E, definitivamente, não era o caso.

Se Lula tivesse executado uma obra que provocasse orgulho na dupla, certamente estaríamos mergulhados num banho de sangue.

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Vamos combinar assim, então? Não se deve trocar Engels por Hegel. Em não se trocando, não se deve crer que Marx e Engels servissem de referências morais.

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