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Radar Por Robson Bonin Notas exclusivas sobre política, negócios e entretenimento. Com Gustavo Maia, Laísa Dall'Agnol e Lucas Vettorazzo. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘Trapalhões’ que ofereceram vacina a Bolsonaro foram desmascarados em maio

Enquanto ignorava ofertas da Pfizer, governo perdia tempo em negociações com golpistas amadores

Por Robson Bonin Atualizado em 6 jul 2021, 09h39 - Publicado em 6 jul 2021, 09h29

No dia 5 de maio, o repórter Lucas Ragazzi, da rádio 98FM, publicou uma reportagem que mostrava em detalhes a articulação dos supostos vendedores de vacina da agora famosa Davati em prefeituras de Minas Gerais. Fica evidente que a rede de “representantes” da empresa suspeita tinha outras figuras, além do cabo da Polícia Militar Luiz Paulo Dominguetti.

“Prefeituras mineiras, inclusive a de Belo Horizonte, estão sendo procuradas por supostos representantes comerciais com ofertas para a compra de vacinas contra a Covid-19. A suspeita é de um golpe. A partir de e-mails enviados a alguns desses municípios, a reportagem decidiu investigar quem são esses intermediários e como funcionaria o esquema ofertado por eles. O ponto de partida foi justamente um e-mail enviado à uma prefeitura da Região Metropolitana de Belo Horizonte”, escreveu Ragazzi.

Para mostrar como a coisa funcionava, a rádio inventou uma cidade, a “Juatuba do Norte”, e procurou os picaretas que estava oferecendo vacinas para as prefeituras mineiras. A turma demonstrava ter o mesmo suposto estoque de doses da AstraZeneca que foram ofertadas ao governo de Jair Bolsonaro. 

“A gente tem uma carta, a carta LOI, que é quase que um pré-contrato, a gente manda dois formulários em inglês, o prefeito assina, e a gente apresenta. Em quinze dias tá no aeroporto, chega no aeroporto e só aí tem o pagamento, é segurança para quem tá vendendo e quem tá comprando. Podem chegar em até 14 dias úteis. A última que tava tendo é a AstraZeneca”, disse, por telefone, o suposto representante do laboratório identificado pela 98FM apenas pelas iniciais J. D. D. G., de 51 anos.

“Para checar esse esquema por trás das ofertas, por duas semanas, me apresentei aos negociadores supostamente com acesso às vacinas como servidor da fictícia Prefeitura de Juatuba do Norte. No primeiro contato com J. D. D. G., em que me coloquei como chefe de gabinete do município fictício, ele afirmou que as negociações para a compra da vacina eram simples e que, após apresentar uma “LOI” (em inglês “Letter of Intent”, e em português traduzido como “Carta de Intenção”), a empresa produtora da vacina, a americana Davati, iria avaliar e retornar com o contrato de compra”, segue a reportagem.

Segundo descobriu o jornalista, J. D. D. G. é um comerciante de classe média de 51 anos, morador de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em suas redes sociais, ele compartilha constantemente informações falsas sobre a pandemia e política. No final de 2020, publicou, inclusive, textos questionando a efetividade das vacinas contra a Covid-19.

A reportagem segue destacando que o flagrante desconhecimento do vendedor sobre a vacina que supostamente representa, impressionava, além de sequer buscar mais informações sobre “Juatuba do Norte” no decorrer das conversas. Em certo ponto da “negociação”, J. D. D. G. passou a afirmar que o imunizante havia sido produzido em uma parceria entre a “Davati, com a Johnson e a universidade de Oxford” – o homem, na verdade, misturou informações de três vacinas diferentes. A preocupação de J. D. D. G., desde o início, era basicamente receber a LOI assinada pela prefeitura. “A procura tá grande, eu liguei pro distribuidor e ele disse que tinha 20 milhões de doses, o mundo inteiro tá procurando, então tem que ser rápido, mas consigo só acima de 50 mil doses, por questão de transporte e logística. É só enviar a LOI”, promete.

Hoje se sabe, era com essa turma de “jênios” que o governo de Jair Bolsonaro perdia tempo enquanto ignorava seguidas ofertas de vacina da Pfizer. A reportagem da 98FM pode ser lida aqui.

 

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