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Delegado revela interferência de Ramagem a mando de Bolsonaro na PF

Então diretor da Abin, delegado atuou pelas costas da cúpula da PF, a pedido do presidente, para recrutar candidatos à chefia da unidade no Rio

Por Robson Bonin - Atualizado em 13 Maio 2020, 19h58 - Publicado em 13 Maio 2020, 19h23

Cotado por Jair Bolsonaro para assumir a Superintendência da Polícia Federal no Rio, o delegado Alexandre Saraiva revelou em depoimento ter sido procurado por Alexandre Ramagem, então chefe da Abin, com o convite para o cargo no início do segundo semestre de 2019.

“No início do segundo semestre de 2019, recebeu uma ligação do Dr. Ramagem perguntando ao depoente se ele aceitaria assumir a superintendência da PF no Rio ao que o depoente prontamente aceitou”, disse Saraiva.

O delegado relatou aos interrogadores ter ouvido de Ramagem “que o presidente Bolsonaro tinha alguns nomes para sugerir ao ex-ministro Moro para ocupar a função”.

A declaração revela que Bolsonaro não só atuou para escolher o superintendente da PF no Rio como contou com a ajuda do amigo Ramagem para recrutar nomes pelas costas do então diretor-geral Maurício Valeixo.

O delegado revela ainda que foi abordado pelo próprio Moro para saber da atuação paralela. “Saraiva, que história é essa de você no Rio de Janeiro?”, disse Moro ao delegado. “Ao que o respondeu ter recebido a ligação telefônica acima relatada do dr. Ramagem, tendo feito na ocasião a mesma ressalva relacionada ao prévio acerto com o diretor-geral da Polícia Federal como condição para assumir”, disse Saraiva.

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O delegado afirmou que Moro disse a ele que estava sabendo dos fatos, mas afirmou também que depois “sentiu-se isolado pela administração do dr. Valeixo”. “O depoente ainda deseja consignar que em razão dos fatos ora descritos, passou a ser atacado em diversas frentes, não tendo sido defendido ou apoiado em qualquer gesto de solidariedade pela administração da PF”, diz Saraiva.

Saraiva disse que é amigo de Ramagem, mas que não tem qualquer relação de amizade com Bolsonaro e seus filhos. Ele também revelou ter conversado com Bolsonaro depois da campanha de 2018 para ser indicado a ministro do Meio Ambiente, conversa que não avançou.

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Sobre o convite de Ramagem, Saraiva disse que não havia “missão ou intenção pontual”, do contrário, ele recusaria. “Não se revestiam de nenhuma missão ou intenção pontual e específica de interesse das referidas autoridades, pois se assim o fosse o depoente prontamente rechaçaria”, disse.

Saraiva afirmou que Ramagem “nunca repassou ao depoente orientações ou intenções do presidente da República em relação à Polícia Federal”. O delegado disse que a resistência ao seu nome partiu do então diretor-geral Valeixo, não de Moro, que o convidou para assumir a Funai, segundo ele.

A defesa de Moro perguntou ao delegado se ele saberia explicar “a razão pela qual a escolha de superintendentes da Polícia Federal dá-se no âmbito interno do órgão”, não como Bolsonaro vinha procedendo. Saraiva respondeu que “acredita que assim o seja pelo fato de a lei estabelecer a competência do ministro da Justiça para nomear superintendentes”.

A declaração escancara que o movimento de Ramagem e Bolsonaro não seguia a lei, quando os dois tentaram escolher o chefe da PF no Rio pelas costas de Valeixo e de Moro.

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